Suponhamos agora, na confederação, um desenvolvimento extraordinário do sentimento religioso, dando lugar a pretensões exageradas por parte do ministério eclesiático, e terminando num conflito entre as duas ordens, temporal e espiritual. É possível então que o clero, gozando como o resto do povo de direitos civis e políticos, obtenha uma certa influência na administração das localidades; possível mesmo que o bispo se torne, num cantão, presidente do senado, do corpo legislativo, do conselho de Estado. Jamais a Igreja poderá tornar¬se senhora da confederação; jamais o sufrágio universal faria de uma república federativa um Estado pontifí¬cio. A proporção dos cléricos no corpo eleitoral sendo naturalmente muito limitada, o princípio de autoridade e unidade completamente subordinados, sempre, em caso de conflito, o interesse político e económico, quer dizer temporal, anti¬clerical, levaria a melhor sobre o interesse eclesiástico.
Mas aqui está o que é mais decisivo. Daquilo que acabamos de dizer, a ideia de um pacto formado entre indivíduos, cidades, cantões, Estados, diferentes na religião como na língua e na indústria, supõe implicitamente que a religião não é necessária à moral; que o próprio Evangelho não disse a última palavra do direito; que a lei da caridade é incompleta, e que uma justiça baseada sobre a adoração é uma justiça inexacta: é o que um jurista intérprete do pensamento da Revolução chamou o ateísmo da lei. Daí decorre que se pode prever o caso em que, por considerações, não por determinação policial como em 93, mas de alta moralidade pública, a abolição de cultos caídos em condutas vergonhosas e extravagâncias deveria ser decretado, a Igreja colocada fora da lei, os seus ministros excluídos de todas as funções e honras públicas, e a pura religião da justiça inaugurada sem simbolismos e sem ídolos. Nós não chegamos a tais extremos; mas a história está cheia de factos que ligitimam todas as previsões, e a política nas suas constituições, não mais que a justiça nos seus processos, não faz escolha de crenças e de pessoas. A Igreja não esqueceu os agnósticos; o império dos Césares viu a plebe do pretório, depois de ter eleito os Trajanos e Marco Aurélios, cobrir com a púrpura os Heliogábalos q) os Alexandre Severos e os Julianos. Poderíamos, em seguida a qualquer orgia democrática e social, ter de retomar sobre novos motivos a obra dos anti¬gos perseguidores. O génio das religiões não morreu, perguntai ao autor de la France mystique, Sr. Erdan. É preciso portanto que estejamos em guarda, não somente para o caso particular do papado romano, que não quer nem melhorar nem ser desapossado, mas para aquele bem diferente¬mente grave, e também de prever, de uma recrudescência e de uma coliga-ção de todos os fanáticos, de todas as superstições e misticismos da terra.
Contra este cataclismo das consciências, não conheço, repito¬o, remédio senão a divisão das massas, não somente por Estados, comunas e corporações, mas por igrejas, sinagogas, concílios, associações, seitas, escolas. Aqui a unidade, longe de obstar ao perigo, agravᬠlo¬ ia ainda. A excitação das massas, um dia loucas de impiedade, no dia seguinte embria¬gadas de superstição, aumenta com todo o poder da colectividade. Mas à federação política ligai a federação industrial; à federação industrial jun¬tai a das ideias, e podereis resistir a todos os entusiasmos. A federação é o quebra gelos das tempestades populares. Que havia de mais simples, por exemplo, que o conter o absolutismo papal pelos próprios súbditos do papa, não entregues, como se pede, aos Piemonteses, mas rendidos à sua autonomia pela constituição federativa, e protegidos no exercício dos seus direitos por todas as forças da confederação? Então façam¬no, ainda uma vez, esse pacto de livre união, ainda não é demasiado tarde; e não somente não tereis mais que vos inquietar com o papado tornado para uma boa parte potência do século, vós tereis a Igreja inteira, revolucionada no seu chefe e forçada a marchar com a liberdade; escapareis ao inconveniente de levantar contra vós o universo católico.
Em 1846, quando os jesuítas, pelas suas eternas intrigas, levaram sete cantões suíços a romper com a confederação e a formar uma aliança separada, os quinze outros cantões declararam as pretensões dos jesuítas e a cisão que seria a sua consequência incompatíveis com o pacto federal, com a própria existência da república. O Sunderbund foi vencido, os jesuítas expulsos. A Suíça Vítoriosa não sonhou nunca então em abusar do seu triunfo, fosse para levantar um formulário de fé religiosa, fosse para mudar a constituição federativa do país em constituição unitária. Ela conten¬tou¬se em introduzir na constituição federal um artigo contendo que os cantões não poderiam modificar as suas constituições particulares senão no sentido da liberdade, e fez rentrar no pacto os cléricos que tinham que¬rido afastar¬se .
A conduta dos Suíços nesta circunstância é excelente de citar. Como dizia há pouco, pode prever¬se que um dia não será somente a uma corporação religiosa que a Revolução terá de fazer frente, mas a uma insurreição, seja do catolicismo, ou de todo o cristianismo. Então sem dúvida: a sociedade teria o direito de opor as suas federações justiceiras a este novo Sunderbund; ela declararia as igrejas insurrectas, quaisquer que elas fossem, culpadas de atentado contra a moral e as liberdades públicas, e castigaria os propagandistas. Mas o tempo não parece chegado e tal não é aliás a preocupação dos unitários. A conflagração das ideias iniciáticas não entra nas suas previsões. O que eles reclamam, confessando o seu respeito mais profundo para com Cristo e a sua religião, é que se retire ao Papa a sua coroa, a fim de com ela homenagearem Vítor-Emanuel, e de violarem assim uma vez mais o princípio federativo, idêntico na Itália ao próprio princípio de nacionalidade.
Se o pensamento de Villafranca, mesmo que proposto por um Imperador, tivesse sido apoiado, fatalmente teria acontecido uma destas duas coisas: 1ª o mais forte dos dois princípios, o princípio supranaturalista ou o princípio racionalista, teria absorvido o outro; a Revolução teria preva¬lecido contra a Igreja ou a Igreja teria abafado a Revolução; ou então 2ª os dois princípios transigindo teriam dado lugar pela sua amálgama a uma ideia nova, superior pelo menos a um dos seus constituintes senão aos dois; em todos os casos os amigos do progresso teriam de que se contentar com a evolução. O partido da unidade não tem dessas aspirações. Da Revolução, não conhece nada: Nescio vos r), diz¬lhe ele; da Igreja está sempre pronto a receber a benção: dêem¬ lhe o património de S. Pedro para compor o seu reino, e ele beijará a mula do papa, tão indiferente no fundo à distinção do temporal e do espiritual como à liberdade e à nacio-nalidade.
q)Do latim Elagabalus, imperador romano 218¬ 222 d.c., originalmente chamado Va¬rius Avitus. (N.T.)
39) Enganar¬ nos¬ íamos muito, se imaginássemos que só os jesuítas têm o segredo e o privilégio de criar desordem na sociedade e de comprometer a existência dos Esta¬dos. O ano passado, 1862, o cantão de Vaud, agitado pela seita dos metodistas, vul¬garmente chamados Mômiers*, viu o seu governo passar das mãos dos liberais para as desses religionários que, pelo seu fanatismo, pelo seu espírito aristocrático e a sua hostilidade à Revolução não diferem em nada do que se chama em Paris e em Bru¬xelas o partido clerical. Por uma dessas aberrações deploráveis e sempre repetidas do sufrágio universal, foi com a ajuda das vozes da enérgica democracia que os me¬to¬distas venceram os seus rivais. Mas que podem eles? Serão mais honestos, mais poupados, mais devotados à liberdade do país e à melhoria da sorte das massas que o foram os seus antecessores? É o único modo que eles possuem de legitimar a sua as¬censão, e nesse caso não farão senão continuar a obra liberal. Tentarão uma revolu¬ção económica? Num Estado tão pequeno, ela não teria nenhum alcance; seria neces¬sário levá¬la a toda a Suíça, o que não pode acontecer senão com o concurso dos vinte e dois cantões, e com a iniciativa da Confederação. Tentarão uma reforma religiosa, e, nesse sentido, uma revisão da constituição cantonal? Mas aqui ainda a Confederação está de olho neles, e quando tentassem recomeçar o Sunderbund, a sua sorte estaria decidida antecipadamente e a sua derrota certa.
A agitação religiosa é flagrante hoje em dia, não somente na Suíça devido aos Mômiers, e na Itália devido ao Papado, mas na França, na América, na Rússia, enfim em todo o lado, e devido às crenças mais impuras e às mais extravagantes.
* Protestantes dissidentes da Suíça francófona. (N.T.)
r) Em latim, no original. Não vos conheço. (N.T.)
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