CAPÍTULO X
Plano de Garibaldi: a Unidade Italiana Abortada pelo Erro dos Democratas
A sorte, durante o primeiro semestre de 1862, pareceu portanto sorrir aos adeptos da unidade; ela devia tentar um menos audacioso que Gari¬baldi. A maneira como ele tinha conquistado o reino de Nápoles, a excitação dos espíritos, anunciavam¬lhe um sucesso ainda mais fácil, mas de um alcance incalculável. De que é que se tratava? De desgastar insensivelmente as resistências, e de sem o mostrar, forçar contra vontade Napoleão. A táctica era indicada: se Garibaldi tivesse um génio político igual ao seu ódio pela França e pelo Imperador, a partida estava perdida para nós, e podíamos datar a nossa decadência da evacuação voluntária de Roma pelas nossas tropas. O cenário teria sido menos brilhante para o general que em 1860; o resultado, do ponto de vista da unidade, cem vezes maior.
Tratava¬ se, com efeito, para essa Democracia que não tinha hesitado em tomar como palavra de ordem o grito de Viva o rei! de seguir até ao fim a sua política monárquica. Era necessário colocar¬se por sua vez como partido conservador e da ordem, deixar de lado a ideia insurreccional e fantástica das nacionalidades, procurar de preferência o apoio das forças organizadas e dos interesses estabelecidos, unirem¬se os governos, que todos não pediam melhor; nunca falar da Venétia b), que se encontraria mais tarde; adormecer a prudência francesa; afastar a discussão sobre o poder temporal, atribuindo exclusivamente à iniciativa das massas o abandono dos Estados da Igreja; finalmente conspirar com Vítor¬Emanuel, em lugar de conspirar contra ele.
Mas a Democracia tinha outros comprometimentos. A sua hipocrisia começava a pesar¬ lhe; estava impaciente para atirar fora a máscara, gabando¬se, como sempre, de poder fazer sozinha. Aliás, ela não estava assim tão dedicada à causa da unidade, que consentisse em fazer calar por ela as suas ambições particulares, as suas rivalidades pessoais e os seus rancores. A Democracia, no fundo, não tem outro fim que ela própria, quer dizer a satisfação dos seus cabecilhas e fiéis, os quais não formam nada, como o imagina o comum dos homens, um partido político, mas uma pandilha. Se a unidade italiana nesta hora não é um facto consumado, o erro é dos democratas.
O plano de Garibaldi tinha como base de operações o princípio de na¬cio¬nalidade, tornado, como disse mais acima, sinónimo do princípio de UNIDADE. Foi dessa forma que a ideia foi compreendida por todo o lado e as suas consequências formuladas na intuição popular. Para os Italianos, que já revindicavam bem alto antigas possessões perdidas, a Córsega, o Tessino, o Tirol, Trieste, a Dalmácia, a nacionalidade é o restabelecimento da Itália imperial e pontifical segundo os tipos mais ou menos modificados de Carlos Magno e de Leão III: capital, Roma. Para os Gregos, que certamente se crêem tão capazes como os Italianos e não lhes ficariam nada a dever, a nacionalidade consiste na restauração do velho império cismático: capital, Constantinopla. Para os Húngaros, que consi¬deram como possessões da coroa de santo Estevão a Croácia, a Transilvânia, a Esclavonia c) a Galicia d) (e porque não ainda a Morávia e a Boémia?) e), a nacionalidade decide¬se na substituição de uma dinastia magiar à dos Habsburgos: capital Viena. Para os Polacos, a quem se teria de, para começar, restituir os seus limites de 1772, uma superfície de 38.000 léguas quadradas contendo uma multidão de populações que nunca tiveram nada de polacos senão a designação, a nacionalidade devia levar à formação de um império eslavo, que englobasse até Moscovo e Petersburgo. É em virtude do princípio de nacionalidade ainda, que certo partido alemão, mais cuidadoso ao que parece com a pureza da raça que ávido de anexações, propôs há pouco tempo formar, com o concurso do Imperador dos Franceses, um império unitário, embora fosse preciso para isso sacrificar a esse aliado a margem esquerda do Reno.
b) Região do Norte da Itália que incluía Veneza. (N.T.)
c) Região da Hungria compreendida entre o Danúbio e dois dos seus principais aflu¬entes: o Drave e o Save. (N.T.)
d) Região que se estende pelos declives setentrionais dos Cárpatos e que constituiu uma província da Áustria entre os anos de 1772 e 1918. Parte da Galicia pertence hoje, devido aos efeitos da 2ª Guerra Mundial à Ucrânia. (N.T.)
e) Regiões dos Balcãs, Europa Central. (N.T.)
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