Um certo acordo, fruto da semelhança das aspirações, foi assim criado entre os representantes dessas nacionalidades, tanto quanto é permitido ajuizar dos discursos de Garibaldi, das revelações de Kossuth e de Klapka e do conjunto dos acontecimentos. Um plano de sublevação simultâneo tinha sido preparado na Itália, na Grécia, no Montenegro, na Hungria e na Polónia. Ramificações estendiam¬ se no condado de Nice, e mesmo, segundo me foi afirmado, sobre a costa da França até Marselha. Aqueles que viajaram na Provence sabem que essa população, de língua italiana, não está ainda inteiramente afrancesada, e a caça dada aos repu¬blicanos e aos socialistas em 1852 não inclinou mais para Paris os seus sentimentos. Dado o sinal, a explosão devia fazer¬se em todo o lado ao mesmo tempo: os povos levantavam¬se, os governos eram derrubados, as dinastias expulsas, depressa substituídas como se pode crer; Veneza e Trieste eram devolvidas aos Italianos, o mapa da Europa remodelado; e Garibaldi, num extase heróico, depois de ter dotado com uma mão o seu país com essa gloriosa unidade, que devia fazer da Itália a potência mais central e ao mesmo tempo a mais independente da Europa, dava com a outra a liber¬dade à França, indeminizando¬ a da sua proeminência perdida.
A imprensa democrática de Paris aderia a esse plano? Conhecia pelo menos a sua existência? Considerava¬o como real ou não o admitiria senão sob reserva de verificação ulterior? Quem o saberia dizer? Não creio que ela própria possa fornecer a mínima luz a esse respeito, a tal ponto ela é fugaz de compreensão, distraída aos factos, indiscreta nos seus discur¬sos, indigna da confiança mesmo dos seus próprios amigos. Aliás o Sr. Guérolt é amigo do Império; o Sr. Havin amigo do Império; o Sr. Peyrat não parecia nada transtornado com o Império; a Patrie e o Pays são tão devo¬tados quanto a própria France ao Império; o Journal des Débats, não obstante o favor que concede ao Piemonte, tem mais de uma ligação com o Império; o Temps declarou, aquando da sua fundação, que não pertencia a nenhum partido. Pois, todo este jornalismo desaprovou, talvez sem a com-preender, a última insurreição armada de Garibaldi: o que não significa que não concorde com o princípio de nacionalidade entendido à maneira de Garibaldi; somente afastou a tentativa do general como sendo incongruente e inoportuna.
Certamente, o projecto de uma Itália unitária, considerado de um ponto de vista exclusivamente governamental, abstraindo dos interesses económicos e do bem estar das massas às quais só o sistema federativo pode dar satisfação, abstraindo sobretudo da Liberdade geral para a qual todas essas unidades políticas são cada vez mais um entrave, esse projecto, digo, tinha o seu lado plausível, e houve um instante em que se pôde crer que ele vingaria. Era preciso para isso, como disse mais acima, esperar tudo do tempo e da pressão das circunstâncias; dirigir¬se aos governos que se preocupavam com o progresso das armas francesas, ao próprio imperador dos Franceses, que suportava o esforço do negócio de Roma, e que teria acabado por arrastar consigo a Democracia, pronta para sacrificar à grandeza do novo reino o interesse manifesto do Império.
Mas no momento em que Garibaldi e Mazzini se separavam de Vítor¬Emanuel, faziam apelo às nacionalidades, quer dizer a todas as facções desapossadas da Europa, declaravam a guerra às dinastias, à Austria tornada constitucional, à Rússia emancipadora dos seus camponeses, à França imperial cuja intervenção acabava de dar a liberdade à Itália; no momento que eles se recusavam a contar com as potências estabelecidas e com as necessidades do século, para se entregarem ao seu acesso de cólera demagógica, a partida estava perdida para eles, e o seu projecto de unidade, condenado pela Revolução e pela Economia política, não aparecia mais, sob o ponto de vista político, senão como uma utopia insustentável.
Ressureições de Lázaros, produzidas pela virtude do pronunciamento popular, fora da prudência mais comum, eis a base e o segredo da política dos democratas modernos! Em lugar de levarem os povos para a via das federações, que é aquela de todas as liberdades políticas e económicas, embebedam¬nos com utopias gigantescas, são convidados a imitações à maneira de César, sem sonhar que a história das nações nunca é uniforme, que o progresso não consiste em vãs repetições, e que o que se pôde justificar numa época seria uma quimera criminosa numa outra; e quando, por um acaso inesperado, a ocasião se apresenta para realizar esses projectos retrógrados, compromete¬se tudo, perde¬se tudo, pela indisciplina, pela personalidade e extravagância das manifestações.
O sucesso devia ser proporcional à táctica. Primeiramente, em matéria de conspiração, é raro que os conspiradores consigam pôr¬se de acordo. Cada um pretende explorar o assunto em seu proveito: é de quem se apossar da iniciativa e fizer convergir na direcção dos seus desígnios particulares todo o esforço da conspiração. A batalha ainda mal começou e já os conjurados desconfiam uns dos outros e se ameaçam.
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