domingo, agosto 22, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

CAPÍTULO XI

Hipótese de uma Solução pelo Princípio Federativo

A derrota de Garibaldi não resolveu o problema nem melhorou a situação. A unificação da Itália foi remetida, é verdade, para as calendas gregas; o Sr. Rattazzi, julgado demasiado centralizador, teve de se retirar perante as exigências municipalistas; do mesmo golpe, a questão do Pa¬pado apagou¬se um pouco do eclipse garibaldino. Mas a antítese das duas potências, italiana e francesa, subsiste ameaçadora, inconciliável; a Itália contorce¬se na guerra civil e na anarquia, a França é vítima da augústia de um perigo imenso.
Já se discute um retorno ao statu quo, quer dizer, numa divisão da Itália em quatro ou cinco Estados independentes, como antes da guerra de 1859. Se esta solução for adoptada, ela será a obra da diplomacia; terá possivelmente como consequência a restauração dos príncipes destituídos; as formas constitucionais, as garantias prometidas serão conservadas: mas o desmentido terá sido dado à Democracia, e através dela indirectamente à Revolução. A causa do povo, quero dizer daquela plebe operária das cidades e dos campos que deve doravante atrair toda a atenção dos verda¬deiros revolucionários, terá sido sacrificada pelo pretenso partido da acção às especulações pessoais tão ambiciosas quanto quiméricas, e a verdadeira questão durante muito tempo adiada.

Chauvinistas, que a perspectiva de uma França inferiorizada perturba até ao terror, queriam que se acabasse isto com uma catástrofe, e que o Imperador dos Franceses, retomando audaciosamente a política do seu tio, confiando na simpatia das massas e jogando ao tudo ou nada, declarasse o Império francês restabelecido nos limites de 1804, e por um só e mesmo acto incorporasse à França, ao norte a Bélgica e todo o Reno, ao centro a Lombardia e o Piemonte. Oferecer¬se¬ia a Vítor¬Emanuel o trono de Constantinopla. Fora disso, dizem eles, tudo não passará nunca de paliativo. A França continua anulada; já não é nela que está o centro de gravidade da política. Os mais moderados recomendam que se promova a agitação na Itália até que, cansada de guerra, fatigada de desordem, a nação faça novo apelo ao libertador de 1859 e se atire para os seus braços.
Estes conselhos do desespero acusam bem alto a falta daqueles que, pelos mais detestáveis cálculos, empurraram o povo italiano para essa fanta¬sia de unidade. Enquanto que no nosso país a velha Democracia, fatigada de palavreado, aspira a refazer¬ se por um conflito geral, e, sem provocação, sem motivos, solicita novas anexações; enquanto que lá fora ela redobra em maquiavelismo e empurra as massas para a revolta, a Inglaterra, que friamente observa a crise, ganha terreno em todo o lado e desafia¬nos; a Alemanha, a Áustria, a Prússia, a Bélgica, a Rússia estão a postos. Bloqueado o império, toda a gente espera uma explosão. Que nós sucumbamos num novo Waterloo, o que podemos ter por certo se a Vitória, segundo o seu hábito, continuar fiel aos enormes batalhões, e, como corpo político, como lar da civilização de onde a filosofia, a ciência, o direito, a liberdade irradiavam sobre o mundo, nós teremos vivido. A França de Henrique IV, de Richelieu e de Luís XIV, a França de 89, de 93, de 1802, de 1814, de 1830, de 1848, tanto quanto a de 1852, terá dito a sua última palavra; ela estará acabada.
Quanto essa situação desoladora teria parecido simples, fácil, vantajosa para todas as partes, se tivesse sido encarada, em 1859, do ponto de vista dos princípios, do ponto de vista da federação!
Considerai para já que o que faz da Itália, como potência marítima e industrial, uma rival tão temível para a França, desaparece inteiramente, sem perca alguma para o povo italiano, no sistema federativo. Não são, com efeito, as vantagens de posição e de território, não é a superioridade da indústria e dos capitais que tornam um povo perigoso para os seus vizinhos; é a sua concentração. A riqueza distribuída é inofensiva e não provoca a inveja; somente a riqueza concentrada entre as mãos de um feudalismo fortemente estabelecido, e por este posto à disposição de um poder empreendedor, pode tornar¬se, na ordem económica e na ordem política, uma força de destruição. A influência opressiva, dissolvente de uma aristocracia financeira, industrial e territorial sobre o povo que ela explora e sobre o Estado não é de duvidar: esta verdade, graças a 1848, pode ser tomada hoje em dia como um lugar comum. Pois bem! o que é a concentração das forças económicas no interior para a classe trabalhadora, é no que ela se torna externamente para as nações vizinhas; e reciproca¬mente, o que é para o bem estar de uma nação e para a liberdade dos cidadãos a repartição igual dos instrumentos de trabalho e as fontes de riqueza, é no que se torna também para a comunidade dos povos. A causa do proletariado e a do equilíbrio europeu são solidárias; as duas protestam com igual energia contra a unidade e a favor do sistema federativo. Será necessário dizer que o mesmo raciocínio se aplica ao governo e ao exército, e que a confederação mais valente, dispondo de um mesmo número de soldados, não pressionará nunca os seus vizinhos tanto como o faria se se transformasse em monarquia unitária?

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