TERCEIRA PARTE
A IMPRENSA UNITÁRIA
Absque dolo et injuria.a)
PRIMEIRO CAPÍTULO
Sobre a Dignidade do Jornalista. – Influência do Unitarismo
sobre a Razão e a Consciência dos Escritores
Fui maltratado na minha pessoa pela imprensa unitária; não utilizarei represálias em relação a ela. Quero pelo contrário restituir-lhe o bem pelo mal, fazendo¬lhe ver de seguida, pelo exemplo de alguns dos seus representantes de maior crédito, que perigo correm a razão e a consciência do escritor, quando se deixa dominar por um pressuposto de natureza a afectar a independência da sua opinião.
Leio numa publicação recente do Sr. Pelletan, a Tragédie italienne, página 43:
Mas, dizei¬me, não vos parece estranho e um pouco irritante que a imprensa democrática, que a imprensa voltairiana, enfeite a lapela com a ordem duplamente honrosa de São Maurício e de São Lázaro, e que defenda o Piemonte em excesso com as cores do Piemonte sobre o peito? E quando ela nos insulta, como o faz, porque não partilhamos a sua admiração ingénua pela política pie¬mon¬tesa, temos bem o direito de lhe dizer: Retirai então a vossa fita se quereis que se acredite em vós!
O autor que cito retorna por diversas vezes a estas condecorações, das quais ele tinha já falado numa brochura anterior, la Comédie italienne. Nenhum protesto foi levantado contra as suas palavras.
No entanto, segundo me recordo, a reprovação do Sr. Pelletan faltaria à exactidão, pelo menos num ponto, o uso da condecoração. Os redactores das folhas monárquicas, tais como os Débats, a Patrie, o Pays, usam as suas condecorações; os redactores dos jornais democráticos, como o Siècle e a Opinion nationale, abstêm¬ se. Porquê? Não é porque a condecoração lhes tenha sido dada por um governo estrangeiro: caso contrário, teria sido mais simples recusá¬la. É, diz¬se, que não é próprio de democratas usar uma insígnia monárquica. Singular escrúpulo, na verdade!
Assim eis o que parece reconhecer¬se como verdadeiro:
As condecorações foram distribuídas a jornalistas franceses pelo go¬verno do Piemonte, como reconhecimento pelos seus artigos sobre a uni¬dade italiana;
Entre os que as receberam, uns, abertamente adeptos do princípio monárquico, não vêem nenhuma dificuldade em se ornamentarem com elas; os outros, democratas ou considerados como tal, fazem mais cerimónia e disso se privam;
Mas, opinião política à parte, todos estão de acordo em que uma recompensa honorífica concedida a jornalistas em razão das suas publicações, mesmo por um governo estrangeiro, nada tem de incompatível com os deveres da sua profissão.
Ora, tal é precisamente a opinião que aqui venho combater.
Por um lado, a verdade é absoluta; ela não sofre aumento nem diminui¬ção. Tal como nos aparece, tal a devemos exprimir: É, é; não, não; assim os nossos semelhantes têm o direito de o exigir de nós. A verdade gazeada, melhorada, ou ilustrada, é uma mentira. – Por outro lado, a prática da verdade é difícil, tão difícil como a da justiça: é por isso que o ho¬mem que aceitou por missão dizer e publicar a verdade, deve oferecer, como penhor da veracidade, o mais perfeito desinteresse, a mais absoluta independência. Tal é a verdade, tal deve ser o seu representante, tão incorruptíveis um como o outro.
Em princípio, portanto, um jornalista não pode receber o que quer que seja, em reconhecimento pelos seus artigos, nem gratificação nem condecoração, e conservar o seu ofício. Das duas uma: ou ele renunciará a um testemunho que, pelo seu zelo, o seu talento, a sua alta probidade, pode ter merecido; ou, se crê dever aceitá¬lo, pedirá a sua demissão. Um jornalista não pode ser condecorado, mesmo pelos seus concidadãos, senão depois da sua morte. A ideia de uma qualquer remuneração, pecuniária ou honorífica, além da compensação salarial devida ao escritor em razão do seu trabalho, é incompatível com o seu mandato. Em si própria, essa retribuição traz prejuízo ao seu desinteresse e à sua independência; ainda para mais se ela foi oferecida por uma parte interessada e numa causa duvi-dosa.
Certamente, a missão do jornalista é penosa: é isso que lhe dá a hono¬rabilidade. O homem que se consagra à manifestação da verdade deve estar pronto a tudo arriscar por ela: fortuna, afectos, reputação, segu¬rança. É preciso que ele quebre todas as ligações do seu coração e do seu espírito, que despreze popularidade, favores do poder, respeito humano. Onde está o arauto verídico, o orador incorruptível, o escritor sem medo e sem censura? Quando penso nas atribulações que o esperam, nas seduções e nas armadilhas que o rodeiam, no martírio suspenso sobre a sua cabeça, já não sei se posso fiar¬me nos nomes mesmo os mais santos: Sócrates, Confúcio, Jesus Cristo.
Tal não é a regra de consciência dos nossos jornalistas, e é necessário confessar que nas condições em que estão colocados, sob a influência de pressupostos que partilham, de interesses nos quais têm a sua parte, é difícil obter essa alta independência, essa veracidade sem nódoa que são as virtudes por excelência do jornalista como do historiador. A sua verdade nunca é senão relativa, a sua virtude uma meia virtude, a sua independência uma independência que tem necessidade, para se manter, de uma suficiente e antecipada compensação.
Examinemos o que é hoje uma empresa de jornalismo.
a) Em latim, no original. Sem erro nem injúria. (N.T.)
Sem comentários:
Enviar um comentário