Forma¬se uma sociedade para a publicação de um jornal. Compõe¬se de cidadãos dos mais honoráveis; será anónima; a redacção continuará, tanto quanto possível, colectiva; toda a opinião, toda a preponderância individual, é recusada antecipadamente: tantas garantias de imparcialidade!... Pois bem! essa companhia anónima, esse ministério de publicação liberto de toda a influência particular, é uma associação de mentira, onde a colectividade da redacção não serve senão para dissimular o artifício, falemos claro, a venalidade.
Primeiramente, é necessário a essa sociedade um capital; esse capital é fornecido por acções. É uma sociedade comercial. A partir daí a lei do capital torna¬se a dominante da empresa; o lucro o seu objectivo, a assinatura a sua preocupação constante. Eis o jornal, órgão da verdade, feito indústria, loja. Para aumentar os seus benefícios, para conquistar o assinante, o jornal deverá amenizar, acariciar o pressuposto; para assegurar a sua existência, deverá predispor ainda mais o poder, apoiará a sua política tendo o ar de a censurar; juntando a hipocrisia à cobardia e à ava¬reza, justificar¬se¬á alegando as numerosas famílias que faz viver. Fidelidade, à verdade? – não, à loja: tal será, quer queira quer não, a primeira virtude do jornalista.
Empreiteiro de anúncios e de publicações, o jornalista poderá pôr a sua responsabilidade a coberto, limitando o seu ministério a uma simples introdução. Mas os assinantes esperam mais dele: são comentários que eles pedem, é através deles que o jornal se torna sobretudo interessante. Por¬tanto, se o jornal se priva de toda a espécie de julgamento desfavorável sobre as coisas que noticia, porque isso seria afastar de si o ramo mais lucrativo do seu comércio, haverá no entanto certos objectos, certas empresas, que merecerão o seu voto, e que, mediante pagamento, ele reco¬mendará ao seu público. Toda a questão estará em colocar bem as suas recomendações e em arranjar a maneira de não se contradizer. Persistência nas amizades, fidelidade e discrição à clientela: tal é a grande honestidade do jornalista. É a do empregado que terá escrúpulo em desviar um cêntimo da caixa, e que trata como Turco e Mouro o cliente. A partir deste mo¬mento podeis contar que a prevaricação e a infidelidade presidem à feitura da folha. Não espereis mais nenhuma garantia dessa oficina, sucursal das companhias e estabelecimentos que a subvencionam, traficante da sua publicidade, recebendo tributo, com a ajuda dos seus relatórios ou boletins, sobre o mundo inteiro, bolsa, comércio, indústria, agricultura, navegação, caminhos de ferro, política, literatura, teatro, etc. É uma total alquimia extrair a verdade da comparação dos seus artigos com os dos seus concorrentes.
É bem pior quando, coisa que nunca deixa de acontecer, essa sociedade supostamente formada para o serviço da verdade, casa com uma opinião política e se torna o órgão de um partido. Podeis considerá¬la definitiva¬mente como uma fábrica de moeda falsa e uma catedral de iniquidade. Todos os meios lhe são bons contra o inimigo. Jamais um jornal democrático fala decentemente de um governo monárquico, e nunca uma publicação monárquica fará justiça às aspirações da democracia? Que juízos dirigidos pelos liberais e os clericais uns contra os outros! Que crítica essa desses escritores amadores, sem especialidade, muitas vezes sem estudos, pagos para ler e enterrar todas as espécies de escritos, e tratando a justiça literária como uma amplificação de retórica ou uma invectiva de clube! Quanto mais o jornal testemunha violência e má fé, mais se imagina ter feito um acto de virtude. Fidelidade ao partido, como à loja e à clientela, não é a sua lei suprema?
A imprensa periódica recebeu nos nossos dias o ultraje mais cruel que pode ser infligido a jornalistas, quando o governo decidiu que os relatórios das câmaras seriam fornecidos aos jornais pela administração pública. Sem dúvida não pretendo que a administração pública seja infalível, nem o próprio Moniteur; não é com semelhantes medidas que eu quereria refor¬mar a imprensa. Digo que o castigo foi merecido. O abuso do disfarce, como o da publicidade e da crítica mal intencionada, tinha¬ se tornado intolerável; e quando os jornais se queixam dos entraves do poder, pode¬mos responder¬lhes que eles mesmos fizeram o seu destino. Que eles tratem o público e a verdade como eles quereriam que o governo os tratas¬se, e ouso predizer¬ lhes: a verdade depressa será livre em França e com ela a imprensa.
Deve¬se compreender presentemente, segundo este estudo muito encurtado do jornal, como certos redactores dos principais jornais de Paris fo¬ram conduzidos a aceitar a condecoração do governo piemontês. O nosso sistema político e social está feito de tal maneira que toda a vida, toda a profis¬são, toda a empresa, dependa necessariamente de um interesse, de uma súcia, de uma corporação, de uma opinião, de um partido, de uma clientela, numa palavra de um grupo. Numa situação semelhante, o escritor está sempre na verdade e na honestidade relativas; não existe para ele verdade nem virtude verdadeira. Para servir a verdade sem partilha, era preciso libertar¬se de todas as servidões que compõem a quase totalidade da existência, romper visivelmente com todos esses grupos de altos e poderosos interesses, quebrar todas essas unidades. Coisa impossível, enquanto o sistema político e social não tiver sido reformado de uma ponta à outra.
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