sexta-feira, agosto 20, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

Os Montenegrinos e os Gregos dão o sinal, seguidos pelos das ilhas Iónicas. Mas Garibaldi não responde ao apelo, ocupado como está em assegurar antes de tudo o triunfo da unidade italiana. O Turco, que se tratava de abater primeiro, continua de pé; os Iónicos são postos em ordem pelos Ingleses seus senhores, amigos de resto de Garibaldi. Garibaldi não tinha nada imaginado a dificuldade de conservar ao mesmo tempo, nesta conjuntura, o apoio da Inglaterra e a cooperação dos Iónicos. Também a imprensa britânica é unânime em desaprovar o louco empreen¬dimento do general. Os Montenegrinos são esmagados: o resultado para os Gregos é expulsar, em vez do Sultão, o seu próprio rei Otão, que se trata actualmente de substituir por um qualquer príncipe, desde que não seja nem inglês, nem francês, nem russo, se se preferir, como propunha ultimamente o Siècle, criar para a Grécia uma confederação!... Enfim, Garibaldi apa¬rece em cena e chama a Hungria: mas Klapka e Kossuth abandonam¬no por sua vez, reprovando¬ lhe vir demasiado tarde e declarando¬ lhe que não reconhecem nele a voz da Itália, a partir do momento que ele não alinha com Vítor¬Emanuel. Ao que Garibaldi pode¬ria muito bem ter respondido que se ele, Garibaldi, devia para o interesse da Hungria alinhar com Vítor¬ Emanuel, eles, Kossuth e Klapka, deviam para o serviço da Itália alinhar com Francisco¬José: o que condizia à própria negação da empresa. Finalmente, Garibaldi, cuja única hipótese estava na esperança que ele tinha de arrastar o exército real, abandonado a si mesmo, sucumbe no primeiro recontro, no momento em que tenta imitar em Aspro¬Monte f) o papel de Napoleão I em Grenoble. Os soldados piemonteses seus compa¬triotas atiraram sobre ele como sobre o inimigo da sua nação. E agora a Polónia acaba de se afundar numa insurreição deses¬perada e nos assassínios; a Alemanha entreabre¬se à unidade, e nós, Franceses, nós esperamos a nossa libertação!
Tudo isso é suficientemente absurdo? É isso o que se pode chamar uma política inteligente, liberal, republicana? É isso a revolução? Reconheceis, nesses organizadores de conjuras, os fundadores de Estados, os chefes de nações, verdadeiros homens políticos?
Prestei às virtudes privadas de Garibaldi, à sua bravura, ao seu desinteresse, um testemunho que foi citado com satisfação por alguns dos meus adversários. Mas, prestada essa homenagem sincera ao homem, poderei proceder de outra forma senão condenar o agitador? Posso levar a sério Garibaldi gritando Viva Vítor¬Emanuel! e trabalhando para o abater; afirmando a unidade e dizendo¬ se democrata, republicano mesmo, o que aparentemente quer dizer homem de todos os direitos e de todas as liberdades; acusando o ministro Ratazzi de trair a unidade, e reprovando¬lhe o seu municipalismo como demasiado centralizador? Garibaldi, tão pronto a agarrar a ditadura como a demitir¬ se; tendo em si César e Washington; excelente coração, dedicado, mas indisciplinável e que parece possuir um malfadado feitio, aperceber¬ se¬á tão somente do que é monarquia e república, unidade e descentralização? Alguma vez se apercebeu que entre democracia e império não há a espessura de uma folha de papel? Que fazia ele, a 3 de Fevereiro de 1852, em Santos¬Lugares, onde, à cabeça de 900 Italianos, decidiu a vitória a favor de Urquiza, chefe dos revoltados da Plata, pretensamente armado para a confederação das repúblicas do Sul e logo depois ditador, contra Rosas, chefe ou ditador da república Argentina, que hasteava também do seu lado a bandeira da confederação? Era por um princípio, ou somente contra uma tirania que se batia Garibaldi? De que lado estava a unidade, segundo ele, em Buenos¬Aires? de que lado a federação? Porquê ele, Garibaldi, se imiscuía nesta quezília? E em Roma, onde, em 1849, se distinguiu pelas suas proezas contra o exército francês, era pela federação ou pela unidade? Estava com Cernuschi o federalista, ou com Mazzini o unitário? Ou então não obedecia, como alguns pretendem, senão às suas próprias inspirações?...
Atribui¬se a Garibaldi, falando de Napoleão III, a seguinte frase: Esse homem tem um rabo de palha, e sou eu que lhe atearei fogo. O propósito seria bonito se tivesse sido apoiado no sucesso. Depois do desastre de Aspro¬Monte, não é senão uma gabarolice cujo ridículo cai sobre o seu autor. Que azar! o que a democracia julgou pelo rabo de palha de Napo¬leão era a cauda do diabo, que ela está condenada a puxar durante muito tempo ainda, se os tribunos em quem ela colocou a sua confiança não mudarem de táctica e de máximas.
f) Região da Itália. (N.T.)

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