Que os Italianos tirem o melhor partido da sua posição geográfica, que desenvolvam a sua marinha, que explorem os seus caminhos de ferro, que se tornem hábeis e ricos: é o seu direito, e nós não temos, nós Franceses, de nos preocupar com isso. Para cada nação a sua herança; nós temos a nossa, que só a nós compete valorizar. Apesar de tudo, não podemos aspirar à exploração como tão pouco à conquista do mundo: é preciso deixar essas ideias de monopólio industrial, comercial e marítimo para os Ingleses. Não construamos a nossa fortuna sobre a fortuna do estrangeiro: os Ingleses, nossos rivais, poderiam dizer¬nos que se, por momentos, o privilégio da exportação produz enormes benefícios, tem como compen¬sação misérias terríveis. Na economia geral, o principal mercado de cada nação está nela própria; o mercado de fora é um acessório: não é senão por excepção que ele pode sobrepor¬se ao outro. O desenvolvimento económico que se faz notar neste momento em toda a Europa é uma demonstração desta lei, da qual a federação italiana teria feito uma aplicação decisiva. Também a Inglaterra aristocrática pressiona com todas as suas forças à unidade da Itália: ela compreende que, em todos os casos, devendo a proeminência Mediterrânica escapar¬lhe, é¬lhe importante opor à bancocracia e à centralização francesas uma centralização e uma bancocracia idênticas.
Confesso no entanto que se a federação industrial, organizando¬se na Itália em consequência da federação política, não origina para a França unitária um motivo de inquietude legítima; se a Itália confederada, não tendo nada de comum com o Império francês nem pela sua constituição, nem pelas suas aspirações, não se colocando em nada como rival, não pode ser acusada de nos criar algum prejuízo, o seu progresso industrial e comercial não será menos para nós uma causa de benefício menor, de perda de ganho. Mas que conclusão tirar disso? Uma só: é que se o povo francês, se quer conservar a sua iniciativa e manter dignamente a concorrência, deverá seguir o exemplo do povo italiano: admitindo que conserva a sua centralização política, agiria sabiamente ao preparar pelo menos a sua federação económica. Um tal resultado seria uma das mais felizes realizações da federação, não somente para a Itália, mas para a própria França e para toda a Europa.
Mas é também com isso que se não preocupam minimamente os partidários franceses da unidade italiana, especuladores em geral, fabricantes de negócios, perseguidores de acções industriais e de subornos, enfeudados à bancocracia. Estes, para consolidarem em França o monopólio e se precaverem ao mesmo tempo contra a concorrência do monopólio italiano, não deixarão de organizar, se não é já coisa feita, uma monstruosa asso¬ciação, na qual se encontrarão fundidos e solidários a burguesia capitalista e toda a raça accionista deste e daquele lado dos Alpes. Não esqueçamos que a monarquia constitucional, burguesa e unitária, tem por tendência, no que toca à política internacional, proteger de Estado para Estado as classes exploradoras contra as classes exploradas, consequentemente formar a coligação dos capitais contra os salários, de qualquer língua e nacionali¬dade que sejam todos eles. Eis porque o Journal des Débats se encontra de acordo com o Siècle, o Opinion national, o Pays, a Patrie e La Presse, sobre a questão italiana. Aqui a côr política apaga¬ se perante a conspiração dos interesses .
40) A coligação capitalista entre a França e a Itália está feita a três quartos: é suficiente passar os olhos sobre a quarta página dos jornais para disso se assegurar. O que garante os empréstimos ditos italianos, piemonteses, romanos, o empréstimo da cidade de Milão, o canal Cavour, os caminhos de ferro Lombardo, Veniciano, Romano, etc., senão valores franceses tanto e mesmo mais que italianos? O Parlamento de Turim decidiu que as acções do caminho de Nápoles seriam reservadas aos capi¬tais italianos: Italia farà da se*. Mas sabe¬se que por detrás desses nomes indígenas haverá, como sempre, sócios capitalistas franceses. Um novo empréstimo à Itália, com o valor de 500 milhões, está a preparar¬se: por quem será subscrito? Uma pes¬soa bastante ao corrente dessa espécie de coisas assegurou¬ mo ultimamente, pela casa Rotschild. Cedo ou tarde criar¬se¬á na Itália um Crédito de valores imobiliários e um Crédito de fundos móveis: quais serão os seus fundadores? Os mesmos, ou outros, seus pares, que criaram o Crédito móvel em França e na Espanha. Associar numa vasta solidariedade anónima os capitais de todos os países, é o que se chama acordo de interesses, fusão de nacionalidades. Que pensam disso os neo¬jacobinos?
* Em italiano, no original. A Itália fará por si própria. (N.T.)
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