segunda-feira, agosto 23, 2010

Robert Kurz - ENTREVISTA À REVISTA ON-LINE “TELEPOLIS”

Sr. Kurz, nos últimos três anos, a crise económica deu origem a três fases de transformação: da crise do imobiliário à crise financeira, da crise financeira à crise económica e da crise económica à crise monetária. Até que ponto é possível explicar essas três fases de escalada da crise com o seu conceito de crise económica geral do capitalismo?

Essas três fases de transformação constituem apenas a aparência dos fenómenos. A crise do imobiliário foi o detonador de uma crise de endividamento e financeira que há muito estava latente. Ela não teve origem nos chamados excessos especulativos contra uma economia normal em si "saudável", pelo contrário, as bolhas de dívida e as bolhas financeiras é que foram resultado de uma falta de valorização real do capital. Desde logo, a superstrutura do crédito não é nenhum factor externo, mas sim parte integrante da produção capitalista de mercadorias e com ela entrosada. Nas últimas duas décadas, esta relação interna tem aumentado, até à dependência estrutural da chamada economia real relativamente aos mercados financeiros. Por isso a crise financeira tinha de levar a uma queda histórica da economia.

Todos os momentos das três fases já estavam incluídos na cerrada sucessão de crises, desde a primeira insolvência do México em 1982. Inicialmente parecia tratar-se de uma crise de dívida da periferia, mas já então atingiu os centros capitalistas. No início dos anos noventa estourou a bolha imobiliária japonesa e o índice Nikkei caiu para um quarto do seu pico. Até hoje o Japão não recuperou da crise bancária nem da estagnação económica interna que se seguiram. Em meados dos anos noventa quebrou o endividamento dos Tigres Asiáticos em moeda estrangeira (dólar), conduzindo a uma crise monetária com uma recessão aguda. Fenómenos semelhantes se puderam observar nas crises financeiras da Rússia, no final da era Yeltsin, e da Argentina, na viragem do século. Em 2001 estourou a bolha dotcom em todo o mundo e desapareceram dos écrãs os "novos" mercados, com a sua capitalização bolsista astronómica de pequenas empresas de Internet, o que trouxe consigo uma curta recessão global. Todas estas crises têm uma coisa em comum: foram limitadas a uma região mundial, ou a um sector, e pareciam por isso controláveis, especialmente através da política de juros baixos ou nulos dos bancos centrais, para a qual o Japão tinha fornecido o padrão. Esta enchente de dinheiro dos bancos centrais, particularmente do FED norte-americano, não apenas produziu a maior bolha imobiliária de todos os tempos, mas também alimentou assim uma inesperada conjuntura de deficit, que se reflectiu principalmente no circuito de deficit do Pacífico entre os E.U.A. e a China, e que conseguiu manter por alguns anos a economia mundial. Ainda no início do verão de 2008, o crescimento era extrapolado pelos institutos económicos para as próximas décadas, apesar de todos estarem conscientes dos “desequilíbrios” da via de exportação de sentido único do Pacífico. Mas o problema foi minimizado e não mais levado a sério, tendo em conta a factualidade aparente de um "crescimento financeiramente induzido".

A falência do Lehman Brothers, no outono de 2008, trouxe à luz do dia que a economia globalizada das bolhas financeiras estava na realidade completamente esgotada. A reacção em cadeia global que provocou abrangeu simultaneamente não só todos os centros, mas até ao último recanto do sistema mundial, da Islândia ao Cazaquistão. A economia global baseada no deficit ficou sem combustível. Já não foi possível dominar esta quebra com uma inundação adicional de dinheiro dos bancos centrais. Em toda a parte teve de intervir o crédito público, numa dimensão que ultrapassou até mesmo a das economias de guerra anteriores. Os pacotes de resgate para o sistema bancário não sanearam os balanços, apenas os mantiveram à tona temporariamente. Programas públicos adicionais de estímulo à economia, na mesma ordem de grandeza, puderam de facto impedir a queda total, mas o problema apenas foi deslocado das bolhas financeiras para as finanças públicas.

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