terça-feira, setembro 07, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

CAPÍTULO V

O Temps, o Indépendant de la Charente¬Inférieure, o Journal des
deux¬ Sèvres. – Servilismo Mental do Sr. Nefftzer

É coisa difícil, para não dizer impossível, no nosso liberal país de França, conservar a independência das suas opiniões, sobretudo desde que uma certa Democracia, conservada em Unidade, Autoridade e Nacionali¬dade, se constituiu em guardiã e oráculo do pensamento livre. Para quem o quisesse seriamente, não haveria sequer segurança. A influência desta Medusa faz¬se sentir até nas publicações que se esforçaram por dela se libertarem, mas cujo trémulo génio não consegue aguentar o fascínio dos seus olhares. Em boa democracia não se raciocina: o vento sopra não se sabe de onde; os cataventos giram, e eis a opinião estabelecida. A massa segue sem reflexão, pensando como um só homem, falando como um só homem, levantando¬se e sentando¬se como um só homem. As melhores consciências, as mais sãs inteligências seguem por sua vez, tomadas como por uma febre endémica: a isso chama¬se corrente de opinião. Diante dessa corrente tudo cede, uns por carácter de carneirada, os outros por respeito humano. Milagre da unidade! Conhecer¬se¬ia mal a Democracia e o segredo dos seus retrocessos, se não nos déssemos conta desse fenómeno. O exemplo que vou citar é dos mais curiosos.
Aquando da fundação do Temps, o redactor chefe, Sr. Nefftzer, decla¬rou ao ministro no seu pedido de autorização e preveniu o público de que a intenção do novo jornal era a de se manter à parte de todos os partidos.
Como tese geral, uma tal profissão de fé é uma banalidade, quando não é um acto de cobardia ou de lisonja interesseira. O redactor chefe do Temps tinha certamente motivos mais elevados: quais eram esses motivos? Contra quem, em particular, era dirigida a sua declaração?
O Sr. Nefftzer não é nada legitimista, sabia¬ se; não éorleanista, sabia¬se. A maneira como ele tinha ultimamente dirigido a la Presse provava que não era mais bonapartista ou ministerial, frequentador das Tulherias ou do Palácio Real. Em matéria eclesiástica, a educação do Sr. Nefftzer, as suas relações tê¬lo¬iam aproximado mais do protestantismo que da fé ortodoxa, se não se tivesse feito conhecer desde há muito por um espírito isento de pressupostos. Para além do mais, o Sr. Nefftzer podia dizer¬se, tanto como homem mundano, amigo da liberdade, partidário do progresso, devotado à melhoria da sorte das classes trabalhadoras. Ora, quando um escritor da imprensa diária não é nem legitimista, nem orleanista, nem bonapartista, nem clerical, nem bancocrata, como o sr. Nefftzer; quando por outro lado se anuncia francamente liberal, amigo do progresso e das reformas sensatas, e ao mesmo tempo declara não se ligar a nenhum partido, isso significa claramente que é ainda menos do partido democrá¬tico que de qualquer outro, pois que, sem o cuidado que toma em negar a sua filiação, é a esse partido que se ligaria. O Temps não pertence nada à democracia, enquanto a democracia constitui partido, quer dizer, União; o seu ensejo era conservar a independência: eis o que quis dizer o Sr. Nefftzer, sob pena de não ter dito nada de todo. E variadas vezes o Temps provou, pelos seus debates com o le Siècle, a l'Opinion nationale e a la Presse, que tal era com efeito o pensamento do seu redactor chefe.
Deste modo, notemos isto: Para conservar a sua liberdade, em França, para ter uma opinião franca, independente, não é suficiente separar¬se das dinastias, das Igrejas e das seitas, é preciso ainda, é preciso sobretudo afastar¬se dos democratas.
Mas dizer e fazer são duas coisas diferentes. O Sr. Nefftzer, temo-o, não reflectiu que, não sendo do partido de ninguém, estava condenado a ser do seu: o que pressupunha da sua parte a indicação do fim e do objecto do seu jornal, da política que ele se propunha seguir, numa palavra, dos seus princípios. Falar em nome da liberdade, da ciência, do direito, é vago; todos os partidos o fazem igualmente. Definir¬se, é existir. Ora, disso peço desculpa ao honorável redactor, ele não se definiu; não se lhe conhece ideia própria; o seu jornal não tem objectivo, como dizem os militares. E pior, ele pro¬nunciou¬ se, pelo menos em política, pela Unidade, sem reflectir que a liberdade da qual pretendia seguir a tradição tanto como a filosofia, é a separação. O resultado foi, queira ou não queira, ter caído no jacobinismo.

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