O Temps dispôs¬se a consagrar alguns artigos para discutir a minha opinião sobre a Itália: esperava dele alguma coisa original. Que encontrou ele pela sua parte? Nada senão o que lhe forneceu a democracia tanto oficial como não oficial. O Temps declarando¬se sem mais profundo exame, unitário, tanto para a Itália como para a França, tanto para a América como para a Itália, colocou¬se pura e simplesmente na cauda do partido democrático; seguiu as concepções e os interesses desse partido; não soube ou não ousou ser ele próprio; fez número, lado a lado com os Srs. Guéroult, Havin e Peyrat, gratuitamente; não pode sequer dizer hoje: Nos numerus sumus et fruges consumere nati q); pois duvida¬ se que esse jornal sem coloração não tenha recebido condecoração ou pensão.
Inicialmente o Temps, raciocinando no seguimento, declarou¬ se pelo reinado. A quem quis ele fazer homenagem com o seu voto desinteressado? De que modo a unidade italiana se lhe apresentou melhor que a federação? O facto é que o Temps, obedecendo à sedução das nacionalidades, se deixou ir sem outro exame na corrente democrática. Fala do princípio federativo como de uma forma de governo indiferente, mesmo inferior, que se é senhor de aceitar ou de rejeitar, ad libitum r): no que provou simplesmente que não tinha nunca reflectido na matéria. Sem isso teria sabido que a federação é a Liberdade, toda a Liberdade, nada senão a Liberdade, como ela é o Direito, todo o Direito, e nada senão o Direito: o que se não pode dizer de qualquer outro sistema.
O Temps alegou como razão, a exemplo dos democratas seus chefes de fila, a pouca importância que as confederações obtiveram até ao presente no mundo político, a mediocridade do seu papel. Da parte de um partidário do progresso, a objecção tem algo de surpreendente. A verdade, em política, como em tudo, revela¬se pouco a pouco; não é suficiente so¬mente, para a aplicar, conhecê¬la, são necessárias condições favoráveis. Foi no seguimento de um Sunderbund que os Suíços adquiriram a consciência plena do princípio que os regia desde há mais de cinco séculos; quanto aos Estados Unidos da América, a guerra civil que os assola, a obstinação do Sul em manter a escravatura e a estranha maneira como o Norte pretende aboli¬ la, o exame da sua constituição, os relatos dos viajantes sobre os seus costumes; tudo prova que a ideia de federação não esteve nunca entre eles senão no estado de esboço, e que a sua república está ainda toda impregnada do pressuposto aristocrático e unitário. Isso impede que o sistema federativo seja a lei do futuro? O mundo político, que nos parece tão velho, está em plena metamorfose; a República, hoje como no tempo de Platão e de Pitágoras, é o seu ideal, e cada um pode convencer¬se pelo seu próprio julgamento que esse ideal, esse mito republicano, sempre afir¬mado, nunca definido, não tem outra fórmula senão a federação. Além disso, sabemos que as causas que durante tantos séculos adiaram o desen¬volvimento da ideia federalista, tendem a desaparecer: é abusar do empirismo opor a um princípio, com o fim de não o aceitar, a novidade da sua aparição.
Uma coisa mantém o Temps em dificuldade e o desvia da ideia federalista, é o entusiasmo das massas, dos Italianos em particular, em direcção à unidade. Nunca jornalista, pensando por ele próprio, fora da acção dos partidos, teria alegado semelhante razão. O que prova, em matéria de doutrina, a voz das massas? Deixe, Sr. Nefftzer, esses argumentos para o sr. Havin e para os seus cinquenta mil assinantes. Monges, dizia Pascal, não são razões. A República mostrou¬se, e os republicanos não a reconheceram: isso devia acontecer. A república é Liberdade, Direito, e consequentemente Federação; a Democracia é autoridade, Unidade. É o efeito do seu princípio, e um dos sinais da época, que a democracia tenha perdido a inteligência do seu próprio futuro. Pois bem! o povo italiano, con-sultado sobre a unidade, disse: Sim. Mas eis que a força das coisas res¬ponde: Não; e será bem necessário que a Itália passe pela força das coisas. O acordo da unidade política com a descentralização administrativa é impossível; é, como a quadratura do círculo e a trissecção do ângulo, um desses problemas de que não nos saímos senão por uma aproximação artificial ou um artifício. À corrente unitária sucede neste momento uma contra corrente federalista. Grita- se em Itália: Abaixo a Centralização! com mais força do que que se gritava há seis meses: Viva a Unidade e Vítor¬Emanuel! É preciso toda a bonomia do Temps para que não se aperceba que a unidade italiana é uma causa doravante fortemente com¬prometida, para não dizer uma causa perdida.
q) Em latim, no original. Nós somos números e nascemos para consumir frutos. (N.T.)
r) Em latim, no original. À escolha. (N.T.)
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