Perguntar ao Journal des Débats se é condecorado com Saint-Lazare, depois de tudo o que eu disse sobre o princípio unitário em geral e sobre a unidade italiana em particular, depois do que cada um sabe dos sentimentos monárquicos, religiosos, burgueses e voltairianos dos Débats e dos seus antecedentes, seria uma pergunta sem alcance. Porque recusaria ele a condecoração? É democrata? A causa da unidade não é a sua causa? A da monarquia constitucional a sua causa? Quando o Journal des Débats defende essas grandes causas, combate pro aris et focis m); que há de espantoso que ele receba, aqui em baixo, a sua recompensa?
Mas, sem que seja necessário retroceder demasiado na história dos Débats, podia provar¬ se que a causa do Papado é também a sua, aquela das dinastias legítimas e quase¬ legítimas, ainda a sua. O Journal des Débats podia usar a ordem de São Gregório tão bem como a de São Lázaro, a cruz de São Luís tão bem como a estrela da Legião de honra: quem sabe se não as possui todas? Antes que a solidariedade burguesa fosse fundada, antes que se tenha imaginado a fusão dos capitais, antes da monarquia constitucional e do sufrágio limitado; anteriormente a essa centralização sábia que, resolvente n) toda a actividade local e toda a ener¬gia individual numa força de colectividade irresistível, torna a exploração das multidões tão fácil e a Liberdade tão pouco temível, a Igreja tinha feito da unidade um artigo de fé, e acorrentado antecipadamente, pela religião, o povo ao salariado. Antes que o feudalismo financeiro existisse, a carta de 1818 tinha dito: «A antiga nobreza retoma os seus títulos, a nova conserva os seus.» O Journal des Débats não o esqueceu: foi o que motivou outrora o seu respeito pela Igreja e o seu devotamento à dinastia legítima. Per¬gunto portanto ao Journal des Débats se, ao aceitar a condecoração de São Lázaro e ao pronunciar¬ se implicitamente pela realeza piemontesa contra o Papado, julga de futuro a Igreja inútil, digamos mesmo compro¬metedora pelo seu sistema; se acredita que a dinastia de Orléans, como a de Bourbon, está gasta; se, por consequência, fez eleição de um outro princípio, a ideia napoleónica, por exemplo, ou a de Mazzini, Dio e popolo o), ou alguma outra; ou então, se se destina a seguir pura e simplesmente a unidade por todo o lado onde ela for, sob qualquer bandeira que apareça, em conformidade com a máxima de Sosie p):
O verdadeiro Anfitrião
É o Anfitrião onde se janta?
Disse ao começar que a unidade italiana tinha¬me parecido não ser, para os hábeis, nada mais que um negócio. Notai, com efeito, que todo esse jornalismo, que tomou tão calorosamente partido pelo reino de Itália, é um jornalismo de negócios, e a sua política uma política de negócios: isso explica tudo. O Siècle, jornal de negócios; a Presse, jornal de negócios; a Opinion national, jornal de negócios; a Patrie, o Pays, os Débats, jornais de negócios. Será que os Srs. Mirès, Millaud, Solar, Havin, Bertin, Delamarre, etc., proprietários dos citados jornais; será que os saint¬ simonistas Guéroult, Jourdan, Michel Chevalier, etc., são homens políticos? Tive então razão ao dizer que a unidade italiana não tinha sido para a imprensa francesa, democrática e liberal, senão um negócio, negócio com cotação, com desconto, para alguns já descontada, mas cujas acções a esta hora descambam. Ah! os basbaques da Democracia perguntaram¬me se não corava com os aplausos da imprensa legitimista e clerical. Se essa interpelação tivesse qualquer alcance, tê¬la¬ia reenviado a Garibaldi. Perguntar¬lhe¬ia se ele não tem vergonha, ele, o patriota por excelência, de se ver patrocionado pela imprensa da bolsa, imprensa para quem o direito e o patriotismo, a ideia e a arte são matéria venal; quem, tranpor¬tando para a política os costumes da sociedade anónima, englobando a Itália toda inteira na rede das suas especulações, depois de ter esgotado todas as formas do puf, fez¬se com a democracia e o nacionalismo um duplo anúncio?
O artigo da Revue nationale ultrapassa todos os outros pela sua violência e a sua rudeza. Reina aí um tom pessoal e de ódio que não compreendo, pois que o autor me é desconhecido. Esse artigo está assinado LAN¬FRAY. Quem é o Sr. Lanfray? Um zelador da república unitária, um des¬ses fogosos democratas que se distinguem sobretudo pelo seu horror ao socialismo, para quem a ideia de uma reforma económica e social causa arrepios, e que no seu delírio de reaccionários preparam¬se para novas jornadas de Junho. Já eles se crêem no momento de agarrar o poder, e elaboram a sua lista de proscrições. Em boa hora, Sr. Lanfray. Mas porquê gritar, porquê injuriar? Tendes medo que os vossos amigos esqueçam o vosso zelo, ou que eu mesmo vos perca de vista? Tranquilizai¬vos, digno jornalista: nomes como o vosso, basta marcᬠlos com uma cruz para dizer o que valem e os colocar no seu lugar. O Sr. Lanfray escreveu contra a Igreja um panfleto que não vale o do Sr. About, e crê¬se homem político! Acusa¬ me de atraiçoar as nossas glórias: Que glórias? Que as nomeie, afim que uma outra vez eu lhes preste justiça juntando¬lhes a sua. Faz¬ me de criminoso por empregar, falando do Imperador, o estilo oficial. Que me dê então o exemplo, ele que encontrou o segredo para publicar, com a autorização do governo do Imperador, uma Revista, ao passo que eu desde há dez anos não o consegui obter. Queixa¬se de eu ter chamado as pessoas da sua opinião imbecis. A citação não é exacta, eu disse tam¬bém intriguistas: é à escolha. Existem mesmo sujeitos aos quais convêm os dois qualificativos. Sim, imbecis aqueles que, aspi¬rando ao desenvolvimento da Revolução e fazendo alarde do seu patrio¬tismo, não viram que a unidade italiana era uma conjura dirigida ao mesmo tempo contra a emancipação do proletariado, contra a liberdade e contra a França; intriguistas aqueles que, por motivos de ambição ou de especulação agora trazidos à luz, surpreenderam, a favor de Vítor-Emanuel, a simplicidade das massas, sempre fáceis de arrastar com frases e emblemas nacionais. O Sr. Lanfray é condecorado com o São Lázaro?... A reprimenda que dirige a esse respeito ao Sr. Pelletan é pesada e retorcida: é verdade que é a qualidade habitual do seu estilo.
m) Em latim, no original. Pelos altares e pelos lares. (N.T.)
n) Medicamento que faz cessar uma inflamação insensivelmente e sem o perigo de provocar pus. (N.T.)
o) Em italiano, no original. Deus e povo. (N.T.)
p) Nome do escravo de Anfitrião que a comédia de Molière tornou célebre em 1668. (N.T.)
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