domingo, setembro 05, 2010

RACISMO EUROPEU

RACISMO EUROPEU

ou

A continuidade desumana do pensamento ideológico iluminista

Ondas com metros de altura rolando imparavelmente, em vagas sucessivas, ao longo do globo terrestre; terramotos que abrem fissuras de quilómetros no chão, arrastando para as profundezas zonas residenciais inteiras, como construções de cartão desfeitas. Numa era de crise fundamental, a consciência burguesa é particularmente susceptível a cenários de catástrofe, como o descrito acima, do filme com o nome “provocante” de “2012”, em que se expressa paradigmaticamente o medo, descarregado da forma mais profundamente projectiva, perante a queda gradual da própria sociedade no caso de Roland Emmerich, com uma piscadela de olho do produtor, que sabe da afinidade neurótica do sujeito de crise com estas imagens de horror.

Por conseguinte, poderá ser mais do que uma simples analogia superficial, o facto de a mensagem do filme ter podido ser simplesmente o lema de vida do sujeito de crise: a salvação está próxima!

Mas o filme deixa um travo amargo: apenas uma pequena parte da humanidade poderá escapar ao dilúvio, em “arcas” especialmente concebidas para o efeito, pelo que se coloca desde logo a questão da selecção; e também aqui, mais uma vez, não será por acaso que o cenário se apresenta em seus protagonistas de um ponto de vista branco ocidental.

Mas esta pulsão selectiva, representada de forma sublimada na figura de filme, ocorre presentemente na realidade do sujeito de crise, cada vez mais às claras e com toda a força. A crise fundamental é essencialmente a crise do sujeito masculino e branco ocidental (MBO), prestes a ser esmagado pela negatividade da sua própria socialização; e a ignorância desta forma de sujeito, relativamente à crise que alastra cada vez mais profundamente, apenas pode ser mantida por ideologias de exclusão, numa luta impotente contra a realidade cruel: o racismo na Europa tornou-se de novo socialmente aceitável, num amplo consenso. Ele até foi eleito directamente, mesmo que possam vir lágrimas aos olhos da fedorenta normalidade burguesa, perante este acto heróico da política democrática padrão: o núcleo anti-emancipatório da liberdade e igualdade mostra-se em forma pura nos tempos da sua decadência.

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