quarta-feira, outubro 06, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

IV

A autogestação (dita “autonomia de gestão”, “anarquia positiva”), ou afirmação da liberdade do homem pelo homem, constitui o método positivo de Proudhon. Combina simultaneamente um “traba-
lhismo pragmático”, ou realização do homem pelo homem graças ao trabalho social, um “justicialismo ideo-realista”, ou idealização do homem pelo homem pela realização de uma justiça social, um “federalismo autogestionário” ou libertação do homem pelo pluralismo social. A partir dos três elementos desenvolvem-se as teorias de Proudhon.

V

Ao trabalhismo pragmático unem-se as teorias do trabalhismo histórico, da economia enquanto ciência do trabalho, do realismo social e da dialéctica serial.
O trabalhismo histórico é uma teoria axial. Acção inteligente dos homens na sociedade sobre a matéria, “o trabalho considerado historicamente […] é a força plástica da sociedade […] que determina as diversas fases do seu crescimento, e todo o seu organismo tanto interno como externo”. A economia política, “ciência do trabalho”, é a “chave da história” (Criação da Ordem, 1843). O trabalho, gerador da economia, gerador da sociedade, alavanca da política, fonte da economia, modo de ensinamento, é o motor da história, promotor da justiça, realizador da liberdade, e autor da sua própria libertação. Na luta do organismo económico contra a opressão dos poderes ou dos poderosos, ele é, secularmente, o actor de uma “revolução permanente”.
A teoria da economia, ciência do trabalho e disciplina tripolar, é corolária da anterior. O trabalho, “considerado objectivamente no produto”, faz da economia uma ciência da produção e uma compatibilidade económica fundada sobre o valor trabalho (teoria do “valor constituído”); “considerado subjectivamente no trabalhador”, cria a ciência da organização e sociologia económica (teoria da força colectiva): engloba “sinteticamente os benefícios produto-trabalhador”, devolve-a à ciência da repartição e do direito económico (teoria mutualista e federativa da propriedade).
As teorias do realismo social e da dialéctica serial são a táctica e a dinâmica do trabalhismo pragmático. O trabalho e as suas leis (divisão, comunidade de acção) criam e estruturam a sociedade, suscitando uma pluralidade de seres colectivos. Pelo realismo social ou teoria dos seres colectivos, Proudhon afirma a realidade e as leis próprias dos grupos e da sociedade. É “a ideia mãe da sociologia” (C.Bouglé), cuja paternidade é-lhe indiscutivelmente atribuível (G.Gurvitch). “As colectividades são também mais reais que as individualidades […] a sociedade é um ser real […]. Tem então as suas leis e benefícios que a observação revela”: a”força colectiva”, a “razão colectiva”, e a “fé colectiva” (Pornocracia).
A dialéctica serial é a dinâmica das forças físicas e sociais catalizadas produtivamente pelo trabalho (ou subversivamente pela guerra). O mundo é uma corrente de antinomias. A antinomia, dupla força, composta, por oposição de dois elementos por sua vez antagonistas e complementares, um elo elementar deste pluralismo antitético. A resolução da antinomia é impossível, mas por oposição dos elementos antinómicos nascem vida e movimento. Artificial, a síntese não resiste à vida, aliena ou mata. Contudo, a observação revela a existência da união de forças associativas e organizadoras, as séries que atravessam, intensificam e disciplinam o movimento dialéctico das correntes antinómicas. O trabalho é uma série geral positiva, e, pelas suas duas leis próprias, cria uma ordem produtiva, uma dinâmica de associação; do outro lado, a guerra, série geral negativa, gera uma ordem destrutiva, uma dinâmica de competição. Processo criativo comum ao mundo material e ao mundo social, a dialéctica serial torna-se, por esquematização “ideal”, uma lógica formal copiada da lógica real do mundo. De processo efectivo, transforma-se no método eficiente de pensamento e de acção.

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