domingo, novembro 14, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

Elementos para uma Análise da Personalidade de Marx

Se a violência da reacção de Marx em relação a Proudhon parece excessiva, pensamos ter contribuído para discernir as causas. Antes de tudo, Marx não tolerava ideias divergentes das suas no que quer que fosse; lembremo-nos, por exemplo, das queixas que foram levadas a formular as suas “vítimas”, de A: Ruge “(...) Marx é impelido a todos os excessos; insulta-me em todo o lado com todos os termos, e vem de imprimir sem escrúpulos o seu ódio (...) incomoda-me taxando-me de “livreiro” e de “burguês”. Eis-nos chegados à inimizade mais mortal, sem que pelo meu lado possa encontrar-lhe outras explicações que o ódio e a demência do meu adversário.”) (36) a K. Schuz (“Se alguém o contradissesse, tratava-o com um desprezo que dissimulava com dificuldade. Recordo-me ainda do tom de vómito com o qual pronunciava a palavra burguês; era de burguês que tratava toda a gente que se permitia contradizê-lo.”) (37) Marx não foi portanto particularmente severo a respeito de Proudhon, a sua natureza era feita deste modo, teve sempre a mesma reacção face a toda a opinião afastando-a da sua como lhe fosse possivel.
A resposta de Marx foi singular, no presente caso, devido à impulsão principal e à influência constante que Proudhon exerce sobre o jovem Marx. Este não irá tolerar certamente, após o ter tanto admirado na “Gazeta Renana” e defendido n`“A Sagrada Família” (38), a afronta de Proudhon, residindo no triplo facto de divergir das suas proposições ideológicas, de lhe recusar o seu apoio incondicional (tanto no seio da junta de correspon-dência, que na eliminação de Grün) e de utilizar as mesmas armas económicas que ele, mas antes dele, na elaboração do seu socialismo.
Politicamente, enfim, devia combater aquele que tinha durante estes últimos anos apresentado como exemplo, como “proletário elevado à consciência de si-mesmo”. O dilacera-
mento sentimental e a contradição ideológica tomam então igualmente a forma dum combate político, estratégico, em que a finalidade era impor os seus pontos de vista ao conjunto do mundo operário, colocar-se como o mestre do pensar universal acerca do proletariado. O afrontamento de Marx para com Proudhon, se não era desapaixonado, não era, também, inocente. Sentia que lhe fazia “matar o pai”; e tanto mais que Proudhon desempenhava este “papel” não somente com Marx, mas também para com a maior parte dos socialistas franceses e dos refugiados alemãs. Não podemos certamente afirmar como E.Dolléans, que este antagonismo buscava menos “ um conflito de ideias do que uma oposição de raça e de temperamento” (39). Isso seria com efeito ocultar a sobredeterminação política de todas as acções de Marx.(40) Os ataques em panfletos, os libelos, as calúnias constituíram assim o método marxista de consolidação da sua influência pessoal durante toda a sua vida.(41) Deste modo, a partir de 1844, Marx, ao reencontrar Engels, passou do socialismo filosófico para o materialismo económico, e ao socialismo científico (para retomar a expressão de Proudhon que conheceu, pela sua apropriação por Engels, um maior sucesso), e deste modo, desligou-se dos seus antigos mestres e amigos (Hegel, Bauer, Feuerbach, Grün, Weitling, Hess,...). Estas rupturas não se fizeram sem o espírito táctico do estratega político que formava a dupla Marx-Engels. As críticas estendiam-se de “A Sagrada Família” (Crítica de Bruno Bauer e consortes) à “Miséria da Filosofia” passando pela “A Ideologia Alemã” (Crítica da Filosofia alemã mais recente na pessoa dos seus representantes Feuerbach, Bruno Baeur e Stirner, e do socialismo alemão na dos seus diferentes profetas). A crítica parecia ser, em Marx, o modo privilegiado de procura da sua identidade, da originalidade da sua “crítica” social (42), e, ao mesmo tempo, o seu principal divertimento. (43)

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