É um chavão gasto mas, neste momento, faz sentido. Logo à partida porque
aos pobres é obviamente impossível pagar seja o que for. Cobrar a maior
fatia aos remediados também já se viu que não funciona. Sem grande
surpresa, aliás. Economicamente, também seria uma boa medida. Um dos
principais problemas estruturais da nossa economia é a má distribuição
de rendimentos e da riqueza em geral (1). Além do impacto negativo a
nível psicológico e social, da maior criminalidade à apatia cívica, esta
injustiça constitutiva também deprime a economia. Um mercado livre
funciona melhor quando o poder de compra está bem distribuído e pior
quando uma minoria acumula muito mais riqueza do que quer gastar
enquanto a maioria não consegue comprar quase nada. Aumentar os impostos
aos ricos em vez de cortar prestações aos pobres seria economicamente
mais proveitoso do que a “austeridade” defendida por quem anda de
motorista.
Moralmente, também seria o mais justo, não só porque custa menos pagar
quando se tem mais mas, especialmente, porque esta crise foi criada
pelos ricos e para os ricos. Tanto a crise bancária internacional como a
alavancagem do nosso sector privado e até a nossa dívida pública se
devem principalmente a acções tomadas pelos ricos em seu proveito. O
problema da nossa dívida pública está muito mais nos negócios como
estádios, autoestradas, BPN, submarinos e PPP do que no dinheiro
“esbanjado” a melhorar a educação ou a reduzir a mortalidade infantil.
Sobretudo, os ricos devem pagar a crise porque esta crise do Euro é,
essencialmente, um problema de disparidades económicas regionais. Há
muitos factores que contribuem para isto. Em Celorico de Basto, devido à
infraestrutura e densidade populacional, o custo da educação por aluno,
da saúde por utente e da canalização por habitação é muito maior do que
em Lisboa. A economia predominantemente rural também faz com que o
poder de compra e a produtividade em Celorico de Celorico de Basto sejam
muito inferiores às de Lisboa. Perante isto há duas opções. Ou se exige
que as pessoas de Celorico de Basto vivam de acordo com as suas
possibilidades e abdiquem de luxos como escolas, médicos ou água
canalizada; ou se admite que vivam acima do que podem pagar transferindo
para lá dinheiro cobrado aos contribuintes de zonas mais ricas. Penso
não ser preciso argumentar em favor desta última. É fácil perceber que
atacar a desvantagem económica de Celorico de Basto aplicando um regime
estrito de austeridade e eliminação de “gorduras” seria, além de
injusto, uma parvoíce que só agravaria o problema fundamental.
O problema fundamental na União Europeia é o mesmo, só que entre países
em vez de concelhos. Há países com melhor infraestrutura, mão de obra
mais qualificada, melhor legislação e sociedades mais justas onde as
pessoas acreditam que vale a pena ser honesto. Por exemplo, na Alemanha o
ministro da defesa demitiu-se depois de se ter descoberto que tinha
plagiado partes da sua dissertação de doutoramento (2). Por cá até lhes
pode sair a licenciatura na farinha Amparo que poucos se incomodam. É
preciso atacar estas disparidades resolvendo os problemas que se possa
resolver, como a educação e a justiça, e compensando os que não têm
remédio, como estar na periferia e ter menos recursos naturais. Mas isto
não se faz cortando as pensões aos reformados de Celorico de Basto,
fechando as escolas e aumentando os impostos aos seus trabalhadores.
Estes problemas só se resolvem com investimento público. Ou seja, pondo
os ricos a pagar.
1- Económico, Portugal entre os países mais desiguais na distribuição de riqueza
2- Guardian, German defence minister resigns in PhD plagiarism row