A propósito do assalto que lhe fizeram a casa (há dois dias, penso) a escritora Lídia Jorge escreveu, para o blog Casal Das Letras, o texto que abaixo se reproduz. Uma “mensagem a meio da noite”, uma mensagem inquietante, que ninguém deve deixar de ler:
MENSAGEM A MEIO DA NOITE
Queridos amigos, tanto que eu queria não vos desiludir, cumprindo a
tempo e horas o que vos prometi com solenidade, mas infelizmente irei
continuar em falta, e desta vez a culpa traz dupla assinatura pois não é
só minha, ainda que não conheça a quem imputá-la. Confuso?
Compreenderão se vos disser que ao regressar a Lisboa encontrei a casa
assaltada.
Sim, meus amigos, a porta estava entreaberta, como se um estranho
outro dono nos esperasse, e a fechadura não havia sido violada. Como
explicar? Uma pessoa entra pela casa adiante, com a consciência perfeita
do momento, o domínio sobre os maxilares, perfeito, e os músculos dos
joelhos, intactos. O coração nem bate um pouco mais, prossegue o seu
caminho, tiquetaque, tiquetaque, relógio orgânico habituado a muita
coisa, e aí vai ele, inalterado. O coração fala consigo mesmo — Ficou o
computador? Ficou. Ficaram as fotografias? Ficaram. Ficou o frigorífico
velho? Sim. O passa-discos, também ficou? Que bom. E também ficou o
televisor. E ficou o coelhinho de chocolate que me inspirou um conto, há
dois anos. E a caneta de rosca, e as rosas de sarapilheira, e o caderno
encarnado. Então uma pessoa olha para o caos instalado, a dança dos
objetos que andaram de um lado para outro, cruzando-se no espaço, e
sente uma espécie de anestesia. Não dá para pensar, só dá para ver. Pois
no rebuliço, os pechisbeques voaram para cima da cama, os recibos das
finanças foram parar nos portais, as cartas dos amigos ficaram debaixo
dos óculos velhos, alguns deles saíram das caixas, e na confusão, de
repente, a pessoa descobre que os aros estavam mais do que
ultrapassados. Há quanto tempo estariam os óculos guardados no fundo da
gaveta agora vazia? Aliás, todas as gavetas estão completamente vazias, e
o chão está completamente juncado. Onde colocar os pés? O que estará
debaixo do monte das informações bancárias, umas vinte, que parecem
ter-se multiplicado por mil? E as moedas canadianas, e os reais
desprezados? Que curioso é o bater do nosso coração. Tiquetaque,
tiquetaque, sem alteração alguma.
Pois por que não? Há revelações estranhas nesta desarrumação dos
objetos. Umas velas que não apareciam há vinte anos ocupam lugar
preponderante por cima de cintos e meias. Cuecas velhas que uma pessoa
guardou só porque tinham uma ponta de renda, estão largadas sobre o
busto esverdeado do Bach. Uma almofada em forma de lagarta cobre uma
caixa de vidro de onde terá saído alguma coisa que foi parar dentro de
sapatos. Cartas, tesouras, sapatos. E de repente, a vida vem ao nosso
encontro e fala do tempo que passa, e da irrelevância dos objetos
guardados, como se eles apenas servissem para nos dar recados de que não
há recados. Mas neste ponto, meus amigos, eu faço uma pausa.
Pois será que não haverá mesmo recados? Então o que sentirá uma
pessoa que se infiltra na casa dos outros para procurar o que não lhe
pertence? Será um método de vida? Uma tática de dever? Um exercício de
frieza? Um exercício de perversidade? Um dia, o Baptista-Bastos, na boa
tradição romântica, chamou ao ladrão de “Senhor Ladrão”, e deu-lhe uns
conselhos calmos. Pois também eu, ao regressar a casa e ao sentir que o
ladrão deixou aqueles objetos que verdadeiramente mais amo no seu exato
lugar, fui assaltada por um sentimento semelhante, uma gratidão
inexplicável por esse ladrão que só queria ouro e dinheiro, precisamente
o que as pessoas da minha igualha não têm mais em casa, porque não têm
em lugar nenhum. E como uma romântica, que a seu tempo leu Os
Miseráveis, comecei a pensar no Estado.
Inveterada, imaginei que não foi pessoa quem me assaltou a casa.
Imaginei que foi o Estado quem veio pela calada da noite, meteu a chave
falsa, rodou-a, silenciosa, o Estado empurrou a porta, o Estado pensou
que havia uma fortuna nos lugares onde os cidadãos comuns costumam
esconder as fortunas, o Estado enervou-se por só encontrar clips, cotão,
recortes de jornais, morraça, e foi-se enfurecendo, foi atirando para o
chão tudo o que encontrava na frente, na esperança de que a fortuna do
cidadão de súbito saltasse do interior das páginas de um livro. Que
ironia. O Estado a procurar ouro e divisas dentro das páginas de um
livro. Que ridículo. O Estado cansou-se. O Estado ainda pensou derrubar o
candeeiro, mas depois sentiu que havia visitado um cidadão
insignificante, e achou que apenas perdera o seu tempo. O Estado sabe o
que faz. O Estado abalou a procurar a sua sorte numa casa mais rica. Não
falo só no meu Estado, falo também do Estado do visitante. Quando
cheguei a este ponto, de súbito o tiquetaque desorganizou-se, os joelhos
deram de si, e felizmente que havia um Magnum Clássico no congelador.
Ele permitiu, meus amigos, que eu abrisse este computador e vos
explicasse por que razão, se acaso não me dispensarem, em face do
exposto, de escrever um artigo para o vosso site, irei precisar de um
tempo liberto desta presença dúbia que ainda permanece no interior da
minha casa. De quem eu tenho pena, se for gente, por quem eu sinto
raiva, se for Estado.
