sábado, outubro 05, 2013

Desculpem qualquer coisinha

"Tanto quanto sei, não há nada substancialmente digno de relevo e que permita entender que alguma coisa estaria mal, para além do preenchimento dos formulários e de coisas burocráticas e, naturalmente, informar às autoridades de Angola, pedindo diplomaticamente desculpa por uma coisa que, realmente, não está na nossa mão evitar". Foi nestes termos que, em declarações à Rádio Nacional de Angola, reproduzidas pelo DN e pela RTP, o Ministro dos Negócios Estrangeiros Rui Machete pediu desculpa às autoridades angolanas pelas investigações judiciaisque têm sido levadas a cabo em Portugal a figuras do seu regime, tais como o procurador-geral de Angola, João Maria de Sousa, o presidente do banco Atlântico, Carlos Silva, e as filhas do presidente José Eduardo dos Santos. Seria até natural que um ex-administrador de um banco de ladrões se dirigisse nestes termos a um regime de ladrões. Solidariedade entre colegas fica sempre bem. O problema começa quando um povo aceita em silêncio que uma figura tão sinistra governe o seu país, determine o seu destino, gira o seu património, fale em seu nome. A partir daí, tudo é possível: “caros colegas, desculpem lá, nós ainda não atingimos o vosso grau de especialização em controlar a Justiça, vamos tentar abafar isto, prometemos dar o nosso melhor”. E todos nós sabemos como eles são bons a fazê-lo. O próprio Rui Machete é disso um bom exemplo.  O mesmo que acaba de pôr todo um povo de joelhos a pedir desculpa pelos incómodos causados pela nossa Justiça aos ladrões de estimação da cleptocracia angolana. Pode? Claro que sim. Tudo é permitido quando há a garantia prévia de que qualquer vexame, por maior que seja,  não custa sequer um grito e, menos ainda, um voto. O poder não foge, eles sabem. Somos o melhor povo do mundo. Ajoelhar, limpar os joelhos e voltar a ajoelhar. Assim é o quotidiano numa qualquer república de ajoelhados.