quarta-feira, março 19, 2014

Masoquismo, compromissos políticos e empobrecimento

Passos Coelho, que falava numa conferência sobre o pós-troika, irritado por o Manifesto dos 70 vir pôr em causa a única saída (a sua!) para a presente crise do capitalismo português e, ainda, por ter surgido num momento com eleições à vista, foi contundente na forma como se referiu às personalidades de diversos quadrantes políticos que subscreveram o Manifesto pela Reestruturação da Dívida. Passos Coelho acusou os subscritores de serem “os mesmos que falavam na espiral recessiva” e afirmou espantar-se que “pessoas tão bem informadas” levantassem tais questões. E o primeiro-ministro citou, a propósito, o Presidente da República, apoiando a ideia por este então expressa de que falar em reestruturação da dívida era um acto de “masoquismo”.
Masoquismo e empobrecimento
De facto, em Outubro de 2013, durante uma visita à Suécia (e apesar de já antes ter afirmado que no estrangeiro não se pronunciava sobre política interna portuguesa), Cavaco Silva interrogava-se agora publicamente sobre a razão por que analistas e políticos diziam que a dívida portuguesa não era sustentável (enquanto os credores, a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional diziam o contrário) considerando, assim, que a atitude de tais críticos era “masoquismo”.
Apesar das propostas, moderadas, que se situam no quadro do regime democrático-burguês vigente, os autores do Manifesto foram insultados por diversa gente, acusados de diversas coisas, inclusive de anti-patriotismo e de terem agendas políticas próprias. Nos ataques dirigidos contra os autores do Manifesto, para além de algumas figuras sinistras, como Eduardo Catroga, destacaram-se especialmente vários papagaios amestrados, particularmente da área do jornalismo económico. E dois dos subscritores do Manifesto foram prontamente afastados de assessores do PR, mostrando bem o carácter do actual presidente da República. Assim, fica bem em evidência como, mesmo entre gente da mesma classe (burguesa), quem se afastar da política de espoliação e de empobrecimento traçada pelo governo de Passos Coelho (e, no essencial, apoiada por Cavaco Silva) é considerado persona non grata.
Depois dos brutais ataques que têm sido desferidos ao longo dos últimos anos pelo governo de Passos Coelho (com a cobertura política de Cavaco Silva) contra os trabalhadores e maioria do povo português, esmagando salários, pensões, prestações de saúde, educação e segurança social, depois de tudo isso, dizíamos, que Cavaco e Passos Coelho venham falar de masoquismo, só faz sentido se se estiverem a referir às vítimas dos seus ataques que ainda os continuam a apoiar. Batem-lhes e eles gostam!