PR tem sido criticado por ter dito em Julho que o banco
estava estável. No domingo justificou que só pode saber do que se passa
verdadeiramente no banco quando o governo ou as entidades oficiais lhe
comunicam
O Presidente da República respondeu este fim de semana a
quem o acusa de ter induzido em erro os pequenos investidores que compraram
acções do BES poucos dias antes da decisão de recapitalização do banco. Cavaco
Silva justificou que as suas declarações de Julho, dando conta que o BES estava
estável, tinham por base a informação oficial de que dispunha e adiantou mesmo
que espera ter sido avisado atempadamente pelo executivo de Passos Coelho e
pelas entidades oficiais assim que houve conhecimento dos reais problemas do
banco. Os canais de informação, porém, entre Cavaco e o universo Espírito Santo
sempre existiram. Nesta última declaração, o chefe de Estado disse não ter
“ministérios”, “serviços de execução política”, nem “serviços de fiscalização
ou investigação” para conseguir informação além da que o executivo lhe
disponibiliza. Mas desde há muitos anos que são conhecidas as ligações com a
família Espírito Santo e a amizade com Ricardo Salgado.
O i foi recuperar o início de uma relação entre professor e
aluno que começou na década de 60 e os encontros que mais tarde começaram a
traçar uma maior proximidade: desde jantares privados a apoios financeiros à
corrida a Belém de 2006.
A REUNIÃO DAVOS O mediático encontro de 1989 num
hotel da Suíça foi um marco nas relações entre o banqueiro e o então primeiro
ministro, mas não o início. Salgado já havia sido aluno de Cavaco no Instituto
Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG) na década de 60. É,
no entanto, naquela reunião que é comunicada por Salgado e Manuel Ricardo
Espírito Santo a Cavaco Silva a intenção da família de retomar parte do império
perdido. O chefe do executivo encontrava-se naquele país para estar presente no
Fórum Mundial de Davos. Nos últimos 20 anos muita coisa tinha mudado e é ali –
no bar do pequeno hotel encerrado para aquela reunião – que Cavaco fica a
conhecer os planos da família Espírito Santo para o futuro próximo. Queriam
regressar a Portugal com o objectivo de ganhar a privatização do Banco Espírito
Santo Comercial de Lisboa – nacionalizados em 1975 – no âmbito da política de
liberalização económica promovida pelos governos de Cavaco.
PRESSÃO PARA CANDIDATURA A BELÉM O retorno em
força dos Espírito Santo ao país acontece dois anos depois da reunião no hotel
da Suíça, ainda durante o executivo liderado por Cavaco Silva. Mas se até então
as conversações poderiam não passar de meras formalidades, as dúvidas ficam
desfeitas quando anos mais tarde, em 2004, Salgado convida Cavaco para um
jantar na casa do Estoril, onde em Julho deste ano foi detido no âmbito da
Operação Monte Branco.
Aníbal Cavaco Silva chegou com a sua mulher ao jantar onde
além de Ricardo Salgado estava Durão Barroso – então primeiro-ministro –,
Margarida Sousa Uva, Marcelo Rebelo de Sousa e Rita Amaral Cabral. Na altura o
semanário “Expresso” adiantou que o convite tinha como objectivo “pressionar
Cavaco a candidatar-se às eleições presidenciais [de 2006]”. O banqueiro terá
referido nesse encontro que a presença de Cavaco em Belém seria importante para
o país, uma vez que se encontrava numa situação económico-financeira cada vez
mais complicada.
A conversa privada rapidamente se tornara pública, uma vez
que dentro do PSD havia movimentações para a corrida a Belém e alguns sectores
do partido estavam preocupados com a possibilidade de Pedro Santana Lopes
avançar.
Contactado então pelo “Expresso”, Ricardo Salgado confirmou
o encontro e admitiu a existência de uma relação de amizade: “[Tratou-se] de um
jantar privado de casais que têm laços de amizade.”
MAIS QUE AMIZADE Mas o apoio à candidatura não
se ficou pelas palavras dessa noite. Ricardo Salgado fez questão de, no ano
seguinte, doar o máximo permitido por lei à candidatura de Cavaco – que
entretanto já havia anunciado que estava na corrida a Belém. De acordo com o
“Diário de Notícias”, que consultou as contas das campanhas de 2006, a família
Espírito Santo foi uma das grandes financiadoras do actual Presidente da
República, tendo doado 104 928 euros – o que representa mais de 5% do
total. Só Salgado doou 22 482 euros, o máximo então permitido por lei. O
banqueiro foi mais longe que Oliveira Costa, então presidente do BPN, que
apenas doou 15 mil euros.
Os apoios da banca a Cavaco não foram exclusivos da família
de Ricardo Salgado, mas os dos Espírito Santo foram exclusivamente para Cavaco.
Segundo o mesmo jornal, por exemplo, a candidatura de Mário Soares – ainda que
tenha tido financiamento da banca – não recebeu qualquer donativo proveniente
do universo Espírito Santo.
Ainda assim, no livro “O Último Banqueiro” é referido que
Ricardo Salgado também terá incentivado Soares a concorrer contra o
social-democrata. Apesar de haver mais apoios para uns que para outros, a obra
refere que o objectivo do banqueiro era que o BES fosse “o banco de todos os
regimes”.
UMA RELAÇÃO QUE SE MANTEVE Apesar de dizer
várias vezes que o banco agradava a todas as cores políticas, a verdade é que
Salgado volta a dar a mão a Cavaco em 2010. Num evento organizado pelo
“Económico” o banqueiro defendeu a recandidatura: “O presidente Cavaco Silva é
uma referência nacional. Acho que se deve recandidatar.” As contas das
presidenciais de 2011 ainda aguardam publicação de acórdão, pelo que não são
conhecidos os valores das doações.
Outros factos comprovam a proximidade entre o Presidente da
República e os Espírito Santo. Um deles foi a compra do Pavilhão Atlântico pelo
consórcio liderado por Luís Montez, o empresário de comunicação genro de Cavaco
Silva, numa operação financiada pelo BESInvestimento.