A tara privatizadora
A desaparição da PT, engolida na Oi, faz lembrar quando a empresa teve de ceder a Vivo à Telefónica[1] com altos lucros para os acionistas, dominados pelo BES, o mesmo que, recentemente, utilizou o seu agente Granadeiro e outros para uma golpada de 900 M na PT; esta empresa foi uma desnatadeira do regime cleptocrático vigente há perto de 40 anos, RIP.
Também a Cimpor foi comprada por brasileiros, a EDP por chineses, a REN por franceses, a Tranquilidade ficará para americanos, a Espirito Santo Saúde para mexicanos, etc. enquanto o cervejeiro nomeado para ministro se afadiga na magna tarefa de vender a TAP, depois de concretizada a alienação dos CTT. Tudo isto para além da costumeira e silenciosa[2] privatização que se oculta nas rubricas de fornecimentos e serviços de terceiros das entidades públicos, como emanações contabilísticas de lógicas de downsizing complementadas com outsourcings. Essas designações em inglês constituem pretensões provincianas de modernidade ou - de pugresso como verbaliza Cavaco – que ocultam a indigência cultural dos mandarins governamentais. Está aberta uma feira internacional de privatizações com saldos, promoções e contribuições para o cofre do partido.
Tornou-se uma imagem de marca do gang governamental um afã privatizador que já ultrapassou, largamente, as exigências da troika[3], podendo a qualquer momento surgir a privatização da água. Na banca, em breve o domínio nacional ficará reduzido à CGD, descapitalizada pelo gang PSD/PS, para tapar o buraco BPN; e portanto, uma CGD barata quando em rampa de lançamento de privatização. Quanto ao BES-bom, a banca concorrente interessada na compra tem todo o interesse na sua desvalorização[4] sendo o dinheiro público - previamente emprestado pela troika e colocado no Fundo de Resolução[5] - um sério candidato a perdas, necessárias para que a feira dos saldos se apresente competitiva.
Segundo nos confidenciou Marques Mendes, bem informado sobre o que se diz no Conselho de Ministros e arredores, o governo prepara novas fontes de receita. O pré-fabricado Maduro, cuja voz emite som de gaita, propôs uma concessão, durante vinte anos, da expressão da língua portuguesa em Portugal à Bertelsmann que cobrará a todos os falantes uma taxa, a incluir na fatura da eletricidade; ficando isentos bófias, militares, a confraria da toga e a classe política, por sugestão de vários ministros. Passos ficou de consultar o Moedas, agora com a pasta da inovação em Bruxelas.
Por seu turno, o inteligente Pires das cervejas defendeu parcerias público-privadas para todas as Ruas Direitas ou Ruas Tenente Valadim do país, com pórticos a instalar também nos passeios; e, finalmente, o Aguiar Branco propôs que a sua firma de advogados inicie contactos para que ao nome do mosteiro dos Jerónimos se acrescente Fly Emirates, pagando os Emirados a promoção a efetuar junto dos turistas.
As fantasias nos parágrafos anteriores não são muito diversas de outras efetivamente despejadas nos media pelo gang governamental.
A primeira prende-se com Portas, quando afirmou ter Lagarde cometido um “lapso involuntário” (poderia ter sido um “lapso de esquecimento”, não?) porque aquela não relevou o esforço governamental na redução (?) do desemprego.
A segunda saiu da cloaca de um untuoso criativo, secretário do carocho Mota Soares, segundo o qual "a solução que está encontrada (para o emprego) é uma solução que privilegia que os serviços privados de emprego podem ser exercidos em função da atividade económica que as entidades venham a deter. Significa isto que empresas de trabalho temporário que tenham uma atividade económica também associada às agências privadas de colocação poderão naturalmente desenvolver essas atividades"[6].
Até ao século XIX havia pessoas apanhados nas zonas da floresta africana, encaminhadas como escravos, por sobas do litoral que os comercializavam com os ocidentais, com relevo para os portugueses, por troca com armas, álcool e missangas. Cerca de dois séculos depois os sobas do governo, bem dentro da tradição de traficantes, capturam desempregados e entregam-nos aos atuais negreiros, as empresas de trabalho temporário, cuja função útil se desconhece. Pela conversa do volumoso energúmeno, a civilização deverá recuar dois séculos, para bem do banditismo, do empreendorismo, do mercado, da competitividade.