quarta-feira, outubro 08, 2014

Um muro até aos céus

A falta de democracia real, a perda de direitos sociais, o desenvolvimento tecnológico e as biotecnologias criam condições para a cisão da humanidade

No filme "Elysium", do realizador sul- -africano Neill Blomkamp, a elite da população terrestre vive numa gigantesca e paradisíaca estação espacial em que tudo está garantido, até a imortalidade, e a população da terra vive em condições sub-humanas num planeta destruído do ponto de vista ecológico e em condições de quase escravatura. A sua vida é permanentemente policiada por violentos robôs da polícia.
As funções do Estado limitam-se à manutenção da ordem, para melhor explorar esta raça de sub-humanos escravizada em que foi transformada a humanidade.
A ficção científica serviu sempre para poder falar do presente com roupas do futuro, para nos permitir ver melhor aquilo que hoje nos parece "normal", mas que pelo seu desenvolvimento lógico nos levará a situações de irreversível injustiça. As distopias, como "Prisioneiros do Poder", dos irmãos Arcady Strugatsky e Boris Strugatsky, "1984", de George Orwell, ou "Nós", de Yevgeny Zamyatin, projectam no futuro aquilo que pode estar a ser forjado com o nosso silêncio.
A destruição do trabalho com direitos e como forma de participação e afirmação do humano está a acontecer sob os nossos olhos. Os empregos na indústria, regulados pela negociação da contratação colectiva, foram substituídos pela precarização total do trabalho e pela destruição de qualquer laço estável e comunitário de vida. Os contratos sem termo certo são transformados nos call-centers em contratos à semana associados a metas cada vez mais altas.
Num livro notável, "Chavs - A demonização da classe operária", o colunista Owen Jones demonstra que o trabalho com direitos na indústria da Grã-Bretanha foi substituído por trabalhos mal pagos nos serviços, em caixas de supermercados e call-centers, sectores sem direitos e com baixas taxas de sindicalização. Com a perda progressiva de rendimentos e prestígio social de quem trabalha, assistiu-se à multiplicação por muitos dígitos dos ordenados dos administradores. Num estudo elaborado pela Confederação da Indústria Britânica, que agrupa os principais donos de empresas, intitulado "A conformação dos negócios. Nos próximos dez anos" defende-se: "A crise é catalisadora de uma nova era de negócios." O documento pede a criação de uma mão-de-obra "flexível", o que significa que as empresas devem empregar menos trabalhadores do quadro e mais eventuais, que podem ser despedidos a qualquer momento sem encargos para as empresas.
A crise foi uma verdadeira máquina de guerra do patronato: na passagem do milénio, os executivos das empresas britânicas ganhavam 47 vezes mais que os seus trabalhadores, sete anos depois ganhavam 94 vezes mais. Como dizia com graça, e criticando, o multimilionário dos EUA Warren Buffett: "Há uma luta de classes. Fomos nós que a começámos e a minha classe está a vencê-la."
A quem pensa que esta situação existe no estrangeiro, relembra-se que nessa época António Mexia, que mandava na EDP, ganhava mais que Steve Jobs ou o presidente da Microsoft.
Por todo o mundo desenvolvido assiste-se à criação de uma espécie de apartheid: por um lado uma raça de super-ricos vivendo num mundo à parte, e por outro lado uma população sem direitos.
Um cenário de ficção científica que é abordado no último número da revista francesa "Philosophie Magazine", num dossiê em que se revela que está planeada para 2020 a construção das primeiras ilhas artificiais em que os ricos viverão livres de Estado, constrangimentos sociais, e da presença de pobres que não sejam criados. Bem-vindos ao deserto do real.

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