domingo, maio 24, 2015

Foi você que pediu um Parlamento em dois tons de cinzento (rosa e laranja)?

Ao longo destas quatro décadas de rotativismo, temo-nos deparado constantemente com o clássico do partido que rasga as suas promessas assumidas em campanha na própria noite da vitória eleitoral. Deste clássico tem resultado outro, um queixume mais ou menos sonoro mas sempre inconsequente que foi desaguando num abstencionismo ao qual não  se pode apontar a mesma inconsequência porque dele, ao invés da penalização pretendida por muitos dos que deixaram de votar, foi resultando a redução do número de votos necessários para garantir o poder ao arco dos infractores crónicos, um arco que dispõe de máquinas partidárias tanto mais poderosas quanto menor for o número de votantes.

Entretanto, porém, gregos e espanhóis encarregaram-se de demonstrar a quem queira aprender com os seus exemplos como este abstencionismo, que sempre premiou quem pretendeu punir, apenas pune e apenas deixa de premiar quando a insatisfação que alegadamente traduz é convertida em votos.

A reacção não se fez esperar. Os clientes do bipartidarismo  que até aqui sempre dormiu descansado sobre a almofada do abstencionismo estremecem com o pesadelo da possibilidade, ainda que remota, do surgimento em Portugal de um Syriza ou de um Podemos   que lhes roube o monopólio do poder.

O PSD há muito que insistia na necessidade de aprovar alterações ao sistema eleitoral que garantem ainda mais hegemonia aos dois partidos que entre nós tradicionalmente obtêm maiores votações.

Junta-se-lhe agora o PS, que sempre se opôs a pactuar com tal subversão da vontade popular, com o seu sim à aprovação de um sistema eleitoral de círculos uninominais em tudo igual àquele que no Reino Unidodeixa milhões de eleitores sem uma voz que os represente no Parlamento. E atenção que o que o PS propõe não é referendar a alteração a que sempre se opôs, é somar os votos que lhes sejam confiados nas eleições de Outubro aos do PSD para aprovarem um sistema que expulsará do Parlamento qualquer voz que se lhes oponha. Eles não estão a brincar.

Temos, pois, que a menos que haja votos suficientes para, nas próximas eleições ou nunca mais, lhes punir o atrevimento de prometerem tornar-se senhores absolutos da democracia que passarão a dividir a meias para todo o sempre, desta vez haverá razões de queixa não apenas pelas promessas que ficarem por cumprir, também e sobretudo pela novidade das promessas que uma inconsciência e uma indolência bastante acima das nossas possibilidades os deixar cumprir. Não estão a fazê-lo em segredo. E cumprir o que se promete foi o que sempre defendemos, não foi?