terça-feira, maio 05, 2015

O HUMANISMO, SEGUNDO NETANYAHU

“Bravo pela ajuda humanitária enviada por Israel para o Nepal; mas Gaza continua à espera de ser reconstruída, sem dúvida porque não se trata de um tremor de terra”.

Este pequeno anúncio foi publicado no jornal israelita Haaretz pela organização não- governamental Gush Shalom, formada por cidadãos de Israel que se opõem à colonização e ao genocídio que continua a ser cometido na Faixa de Gaza, perante os olhos cúmplices e hipócritas das organizações e dirigentes mundiais com capacidade de decisão.

Ou seja, o governo que envia equipas de resgate para os escombros provocados pelo terramoto no Nepal é o mesmo que recorre aos serviços de um dos mais poderosos exércitos do mundo para manter sitiada e sujeita a sistemáticas operações de liquidação uma população de quase milhão e meio de pessoas. A propaganda dominante que assaltou o papel da comunicação, bem financiada por magnatas que se entronizaram como patrões da liberdade de expressão, tudo faz para que estas associações de factos tão mal intencionadas não passem pelos crivos da neocensura.

Mais ou menos ao mesmo tempo que Netanyahu teve a gentileza de se lembrar dos nepaleses vítimas do trágico sismo, o representante da Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos (UNRWA) em Gaza, Chris Gunness, anunciou que, passados oito meses, não foi reconstruída ainda uma única casa das 9161 arrasadas pelo assalto israelita do último Verão. Como devem estar lembrados, nessa altura numerosos governos incapazes de condenar frontalmente a estratégia de genocídio praticada pelo governo israelita multiplicaram declarações sobre a disponibilidade para ajudarem as vítimas do massacre. As instituições europeias lembraram até que são as maiores contribuintes para a população de Gaza, se bem que, ao mesmo tempo, continuem a manter um acordo económico preferencial com o governo israelita. Tal como acontece, aliás, com o governo de Marrocos – o que preocupa a União Europeia não é bem a existência de ocupações e colonialismo, mas sim parecer bem na fotografia junto dos pobres e carenciados enquanto os negócios fluem como devem fluir nesta saga em que o direito à grande propriedade prevalece sobre todos os outros direitos humanos.

Pois bem, apesar das promessas e proclamações de boa vontade, Gunness anunciou que a UNRWA recebeu, em oito meses, as contribuições suficientes para construir 200 casas, cerca de dois por cento das necessidades. Então porque não construiu ao menos essas? Ora aí está uma boa pergunta, embora a resposta seja previsível. Porque o cerco montado pelas tropas israelitas à Faixa de Gaza, com a prestimosa ajuda da ditadura militar Egipto/Pentágono, veda a entrada da maioria dos materiais de construção, por suspeição de poderem ser utilizados no fabrico e lançamento de rockets. Note-se que 9161 é o número de casas totalmente destruídas, porque foram atingidas mais de 120 mil com danos de maior ou menor gravidade. Lembrando os mais de 2200 civis mortos na ocasião, entre os quais 577 crianças, e os mais de 11 mil feridos (3380 crianças) e sem entrar em comparações, trata-se de uma hecatombe à escala de um terramoto – suficiente para cativar Netanyahu no caso de se deixar guiar por qualquer outra coisa que não sejam a imagem e um tenebroso culto messiânico (e se o Messias for o mercado é ouro sobre azul).

Nos dias que correm acontecem em Israel numerosas manifestações de sectores sociais e étnicos – palestinianos com nacionalidade israelita, judeus etíopes, por exemplo – todas elas contra a sociedade de apartheid institucionalizada no país. Socorrer nepaleses enquanto se pensa na próxima operação para matar palestinianos não é um caso específico de apartheid, mas um exemplo flagrante de como funcionam mentes capazes de gerar apartheids.