O economista austríaco Friedrich von Hayek empenhou‑se em desacreditar toda a forma de regulação da economia sob o pretexto de que esta é demasiado complexa para que se pretenda organizá‑la. A sua teoria do “Estado mínimo” tornou-se a religião do Partido Republicano estadunidense em oposição tanto ao “New Deal” dos democratas como ao marxismo dos soviéticos. A sua escola, financiada pelas fundações das grandes multinacionais, estruturou-se em redor da Sociedade du Mont-Pèlerin, e obteve sete vezes o prémio Nobel de Economia. Inspirou os governos de Pinochet, de Reagan e de Thatcher.
O pensamento económico e político de Friedrich A. von Hayek impôs-se como fundamento ideológico da ordem liberal. É ao mesmo tempo o produto de uma história particular e de uma rede relacional que se desenvolveu à sombra das grandes fundações estadunidenses.
Hayek nasceu em Viena, em 1899. A sua juventude austríaca é marcada por um clima político difícil, com greves maciças paralisando o país. Assiste à desorganização do regime duplamente ameaçado pelo populismo, frequentemente anti-semita, e pelo socialismo revolucionário radicalizado pela introdução das teses marxistas. Neste contexto, apaixona‑se pelas teses da Sociedade Fabiana, uma corrente reformista e socialista inglesa, criada Béatrice e Sidney Webb, e preconizando uma revolução espiritual. Paralelamente, é iniciado na filosofia de Ludwig Wittgenstein, principal «animador» do Círculo de Viena.
Hayek participa nos seminários do economista Ludwig Von Mises que reúne em seu redor discípulos que contribuirão para difundir a boa nova liberal em França (Jacques Rueff, conselheiro do general de Gaulle), em Itália (Luigi Einaudi), na Alemanha (Wilhelm Röpke, Ludwig Erhard), e em menor escala nos Estados Unidos (Murray, Rothbard).
À época, Mises defende ideias a contracorrente das teses dominantes da intelligentsia austríaca, Hayek qualifica-o como «liberal intransigente isolado». É o iniciador da crítica do planismo que, segundo ele, não pode constituir uma solução económica adequada devido à complexidade dos cálculos económicos e da falta de informação. Na sua obra maior, Socialism, prediz o malogro das experiências socialistas: a planificação só pode conduzir ao caos ou à estagnação. Professor em Viena (1913-1938), depois em Nova Iorque (1945-1969), Mises é o fundador da corrente neo‑austríaca que se desenvolve durante os anos setenta. Próximo das redes estadunidenses na Europa Ocidental (a Fundação Rockefeller e o National Bureau of Economic Research financiaram dois dos seus livros publicados em 1944, Omnipotent Government: the Rise of the Total State and Total War e Bureaucraty). Procurando difundir as suas teorias, apoiadas por industriais e fundações, Mises construiu uma organização oficiosa, um esboço da Sociedade du Mont-Pèlerin, representada pelos seus alunos em vários países da Europa Ocidental.
A TEORIA POLÍTICA NEOLIBERAL
Hayek, na continuidade da tradição liberal iniciada por Adam Smith, defende uma concepção mínima do Estado. O seu contributo particular corresponde à crítica radical da ideia de «justiça social», noção dissimulando, segundo ele, a protecção dos interesses corporativos da classe média. Preconiza a supressão das intervenções sociais e económicas públicas. O Estado mínimo é um meio para escapar ao poder da classe média que controla o processo democrático a fim de obter a redistribuição das riquezas pela fiscalidade.
O seu programa é exposto em Constituição da liberdade (1960): desregulamentar, privatizar, diminuir os programas contra o desemprego, suprimir os subsídios à habitação e os controlos dos alugueres, reduzir as despesas da segurança social, e por fim limitar o poder sindical. O Estado não tem o direito de assegurar a redistribuição, sobretudo em função de algum critério de «justiça social». O seu papel é reduzido ao fornecimento de um quadro jurídico que garante as regras elementares da troca. Em 1976, chega a propor a desnacionalização da moeda, ou seja, a privatização dos bancos centrais nacionais para submeter a criação monetária aos mecanismos do mercado. Outras tomadas de posição parecem matizar a radicalidade do seu liberalismo, preconiza por exemplo a criação de um rendimento mínimo, mas esta proposta deve ser pensada como uma reabilitação da lei inglesa dos indigentes e não como a marca de um «socialismo hayekiano» [1].
A teoria desenvolvida por Hayek é fundada sobre uma crença compartilhada por todos os liberais, dos clássicos até aos partidários das teses austríacas. A metáfora da «mão invisível», que assegura no pensamento de Adam Smith a adequação da oferta e da procura nos diferentes mercados, ilustra perfeitamente este pressuposto comum que todos eles procuram demonstrar a partir de diferentes postulados: equilíbrio geral de Walras, redesenvolvido por Pareto; ordem espontânea do mercado ou catalaxia para a escola austríaca. Esta é o resultado de acções não concertadas e não o fruto de um projecto consciente. A ordem do mercado não é pretendida, nem planificada, ele é espontânea. Esta concepção da economia serve de justificação à crítica do intervencionismo que gera desequilíbrios, perturbações na catalaxia. Hayek considera que os keynesianos fazem do Estado um «ditador económico».
A filosofia política de Hayek está enfim muito próxima das teses desenvolvidas por Locke. O Estado defende o direito natural de propriedade e é limitado pelas cláusulas individualistas de um hipotético contrato‑fundador. O direito torna-se então o instrumento de protecção da ordem espontânea do mercado. O que importa pois principalmente, é a defesa do liberalismo económico. O liberalismo político é absorvido. As ideias democráticas são relegadas para um lugar secundária. Isso impeliu Hayek a fazer declarações com laivos de provocação. De acordo com ele, a democracia não constitui um sistema político infalível: ela «é essencialmente um meio, um processo utilitário para salvaguardar a paz interna e a liberdade individual» [2] . Vale mais um regime não‑democrático que garanta a ordem espontânea do mercado do que uma democracia planificadora. Este raciocínio justificará a presença dos «Chicago boys» no Chile. O pensamento de Hayek é uma mistura de conservantismo (crítica da democracia inspirada na denúncia da Revolução Francesa de Edmund Burke) e de liberalismo (Adam Smith). Põe em guarda contra a democracia ilimitada que conduz irremediavelmente ao reino da democracia totalitária [3]. Com efeito, Hayek é obsidiado pelas classes médias que controlam os regimes democráticos: «Há uma grande parte de verdade na fórmula segundo a qual o fascismo e o nacional‑socialismo seriam uma espécie de socialismo da classe média» [4]. Além disso, teme os pobres cujas reacções são imprevisíveis. Reclama um rendimento mínimo «que seria apenas no interesse daqueles que se propõem ser protegidos contra as reacções de desespero dos necessitados» [5]. Embora recusando aderir à ideia de justiça social, Hayek desenvolve uma concepção particular da justiça, liberal mas também conservadora, mesmo se se defende num artigo intitulado “Porque não sou conservador?”.
As ideias radicais de Hayek, os seus ataques contra o intervencionismo económico não podem ser compreendidos sem um regresso ao contexto histórico do pós-guerra: a elaboração de um novo avatar do liberalismo corresponde a uma crítica total do keynesianismo triunfante. Hayek, inspirado pelo pensamento económico de Mises, rejeita tanto o colectivismo preconizado pelo marxismo de Estado como a intervenção económica nas sociedades capitalistas. Retomando as ideias de Mises, critica a possibilidade de planificar a economia cuja complexidade se opõe a qualquer cálculo racional. Estas tomadas de posição contra a «terceira via democrática e social» simbolizada pelo New Deal rooseveltiano e pelo trabalhismo inglês explicam a marginalização do ultraliberais no início dos anos 50, nomeadamente no seio da mais poderosa das organizações de intelectuais anticomunistas, o Congresso para a Liberdade da Cultura.
HAYEK À MARGEM DA “GUERRA FRIA CULTURAL”
Hayek é nomeado professor na London School of Economics em 1931, depois em Chicago em 1950. Em 1962, torna‑se professor de Economia política na Alemanha Federal... Este percurso universitário nada deve ao acaso: a London School of Economics, financiada pela Fundação Rockefeller, e a universidade de Chicago são bastiões da economia liberal. Constitui assim uma rede política e intelectual internacional. Soube reunir liberais, conservadores britânicos e americanos, mas as suas teorias também foram difundidas em toda a Europa Ocidental. Próximo de Raymond Aron [6], que populariza as suas teses em França, considera‑se um «liberal intransigente» comprometido ao mesmo tempo contra o sovietismo e o fascismo.
A retórica do anti‑totalitarismo constitui uma vez mais o instrumento ideológico privilegiado dos intelectuais envolvidos no Congresso para a Liberdade da Cultura, organização pilotada pela CIA de 1950 a 1967. Contudo, partir de 1955, os ultraliberais conduzidos por Hayek são marginalizados face aos «trabalhistas», representantes de uma «terceira via» social-democrata, que contribuem para redefinir as orientações ideológicas do Congresso para a Liberdade da Cultura. Um novo programa emerge da conferência internacional de Milão [7] .
Em Paris, Josselson, com o apoio da Fundação Rockefeller, recruta e financia os participantes. A lista dos intervenientes é aprovada por um comité composto por Raymond Aron, Michel Collinet, Melvin Lasky, Sidney Hook, Denis de Rougemont... Cinco oradores são cooptados [8]. São encarregados de fornecer as linhas directrizes da ideologia anticomunista do Congresso para a Liberdade da Cultura aquando da sessão inaugural. A conferência de Milão vai tornar evidente a fractura entre as duas tendências. Os arquitectos da organização, na maior parte intelectuais nova-iorquinos procedentes das fileiras trotskystas, tentam reunir liberais, mas sobretudo homens da esquerda não‑comunista (como Léon Blum em França). Em 1955, o Congresso compromete‑se abertamente na via social-democrata; o sucesso do discurso inaugural de Hugh Gaitskell, líder trabalhista inglês, testemunha esta orientação. Para ele, o Welfare state é compatível com a democracia política, tese em perfeita contradição com as teorias austríacas de Mises. O quarto orador, Hayek, toma a palavra em nome dos ultraliberais e recorda que a propriedade é o único direito que vale a pena ser defendido, fazendo assim referência aos direitos sociais evocados por Hugh Gaitskell [9]. A conferência de Milão conclui‑se pela vitória ideológica dos «trabalhistas» e pela marginalização dos ultraliberais que se reorganizam nos think tanks, organizações encarregadas de converter as elites económicas à filosofia neoliberal.
DO COLÓQUIO WALTER LIPPMAN À SOCIEDADE DO MONT-PÈLERIN: O NASCIMENTO DE UM THINK TANK INTERNACIONAL
O Colóquio Walter Lippman [10] (1938) no qual participam Mises e Hayek é a ocasião de reunir universitários liberais hostis ao fascismo, ao comunismo e a todas as formas de intervencionismo económico do Estado. O livro de Walter Lippman [11], The Good Society, constitui o manifesto temporário, aguardando A estrada da servidão, deste grupo de intelectuais relativamente marginalizados na época do keynesianismo triunfante. De acordo com Walter Lippman, o colectivismo é a raiz comum dos totalitarismos fascista e comunista. Os governos das democracias ocidentais, comprometendo-se em políticas económicas de reactivação, cedem à tentação do planismo porque não existe – esta ideia constitui a pedra de toque da filosofia austríaca iniciada por Mises – «via intermédia» entre o liberalismo e o colectivismo. Assim, Louis Rougier [12], professor de Filosofia na Universidade de Besançon e principal organizador da reunião, declara: «O drama moral da nossa época, é a cegueira dos homens de esquerda que sonham com uma democracia política e com um planismo económico sem compreenderem que o planismo implica o Estado totalitário. O drama moral da nossa época, é a cegueira dos homens de direita que suspiram de admiração frente aos regimes totalitários, reivindicando ao mesmo tempo as vantagens de uma economia capitalista, sem se darem conta que o Estado totalitário devora a fortuna privada, trava e burocratiza todas as formas de actividade económica do país». Homens de direita e homens de esquerda são assim colocados lado a lado segundo um argumento único: o planismo é totalitário. O pensamento de Hayek descansa sobre o mesmo princípio vulgarizado no famoso A estrada da servidão. O raciocínio justifica a construção de uma vanguarda liberal capaz de lutar intelectualmente (inicialmente) contra a hegemonia das práticas inspiradas no pensamento de Keynes.
O Colóquio Walter Lippman conduz a um projecto internacional de promoção do liberalismo. Lippman, Hayek e Röpke são encarregados de criar organizações nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na Suíça.
Em 1947, na lógica do plano Lippman, Hayek participa activamente na fundação da Sociedade do Mont‑Pèlerin que «constitui em certa medida a casa‑mãe dos think tanks neoliberais» [13]. Um homem de negócios suíço, Albert Hunold, permite concretizar as propostas de Hayek, que deseja instaurar um «fórum liberal internacional», e de Wilhem Röpke, que procura lançar uma revista internacional. Hunold reúne industriais e banqueiros suíços a fim de financiar o think tank liberal [14]. Reúne intelectuais procedentes de correntes variadas mas que partilham a mesma crença no equilíbrio espontâneo do mercado: monetaristas como Milton Friedman [15], membros da escola do Public choice (James Buchanan), bem como personalidades associadas à corrente neo‑austríaca. As reuniões internacionais são financiadas, inicialmente, pelas fundações Relm e Earhart [16]. A Sociedade do Mont-Pèlerin recebe em seguida o apoio da ultraconservadora fundação John Olin, da Lilly endowment, da fundação Roe, do Scaife Family Charitable Trust e da Fundação Garvey.
A sociedade do Mont-Pèlerin prega durante vinte e cinco anos no deserto. Os ideólogos neoliberais permanecem isolados num contexto de consenso intervencionista. Será necessário esperar a crise do keynesianismo para que as ideias de Hayek se imponham entre as elites políticas. A Grã‑Bretanha constituirá o terreno da posta em prática das medidas preconizadas.
Fundado em 1955, o Institute of Economic Affairs (IEA) trabalha para vulgarizar as teses de Hayek e do monetarismo alvejando principalmente os meios patronais (que permanecem muito tempo desconfiados) e financeiros. Ralph Harris, que foi director da organização, é nobilitado a partir de 1979 por Margaret Thatcher.
A «REVOLUÇÃO CONSERVADORA» BRITÂNICA
No fim dos anos sessenta, detecta-se os primeiros sinais da crise de sociedade que vai fazer balançar a Grã‑Bretanha para a «revolução conservadora» orquestrada por Margaret Thatcher. A stagflation, combinação inédita de desemprego e inflação, leva a pôr em causa o paradigma keynesiano (nomeadamente a equação de Philips que conclui sobre a arbitragem entre a inflação e o desemprego). Com a crise, as teorias da Sociedade do Mont-Pèlerin e do IEA desenvolvem-se e recebem um acolhimento cada vez mais favorável nos círculos patronais e políticos. As duas organizações difundem as ideias da primazia da luta contra a inflação, do carácter utópico das políticas de pleno emprego, do excessivo poder sindical, das consequências nocivas das políticas económicas. Em 1970, o IEA publica a tese quantitativa da moeda de Milton Friedman que constitui uma condenação radical da política monetária keynesiana. Friedman preconiza a redução dos défices do Estado a fim de controlar o aumento da massa monetária.
Nos anos setenta, que são os anos da conversão para numerosos homens políticos britânicos, assiste-se a uma aproximação entre os conservadores e os liberais, um casamento entre os herdeiros de Burke e de Smith.
A fim de apoiar esta dinâmica de conversão liberal, membros do Partido Conservador (entre os quais Margaret Thatcher e Keith Joseph) criam o Centre for Policy Studies, em 1974. Em 1977, uma outra organização vê o dia: o Adam Smith Institute. A Grã-Bretanha entra num período de «revolução conservadora». A vitória de Thatcher em 1979 consagra o sucesso dos think tanks neoliberais. Membros destas organizações como Geoffrey Howe e Nicholas Ridley constituíram os pilares dos governos conservadores [17].
Esta rápida história dos think tanks neoliberais sublinha o peso político das concepções económicas de Hayek. A partir da Sociedade do Mont-Pèlerin, soube impor a sua ideia do Estado (mínimo, sem nenhum poder de intervenção económica) e do mercado (“laisser-faire”). Prova da sua hegemonia intelectual, recebe o prémio Nobel em 1974, depois vê-o atribuído a seis dos seus amigos ultraliberais: Milton Friedman (1976), George Stigler (1982), James Buchanan, Maurice Allais (1988), Ronald Coase (1991) e Gary Becker (1992). De certa forma, foi o programa que ele tinha formulado na sua obra A Constituição da liberdade, que se impôs como «pensamento económico único» no final do século XX.
[1] Gilles Dostaler, Le libéralisme de Hayek, Éditions La Découverte, Paris, 2001.
[2] F. A. Hayek, La route de la servitude, Presses universitaires de France, Paris, 1946, p. 56-57.
[3] Estes temas são emprestados do filósofo austríaco Karl Popper, autor de Miséria do historicismo e de A sociedade aberta e os seus inimigos. A sua obra epistemológica constitui o fundamento teórico da crítica austríaca ao marxismo. Hayek, admirador e amigo de Popper, convida o «mestre» para a London School of Economics. É recebido cavaleiro em 1965. É o mentor de George Soros que leva adiante a ideia de «Open society».
[4] Ibid., p. 86-87.
[5] F. A. Hayek, La constitution de la liberté, Litec, Paris, 1994, p. 285.
[6] Raymond Aron, em 1951, participa na quarta reunião internacional da Sociedade do Mont-Pèlerin (Beauvallon–França); a sua intervenção intitula-se “Do preconceito favorável em relação à União Soviética”.
[7] A conferência internacional de Milão (1955) é a quinta reunião deste tipo após Berlim, Bruxelas, Bombaim e Hamburgo.
[8] Hugh Gaitskell, Sidney Hook, Michael Polanyi, Raymond Aron e Friedrich Hayek. Pierre Grémion, Intelligence de l’anticommunisme, Le Congrès pour la liberté de la culture à Paris, 1950-1975, Fayard, 1995, p. 161.
[9] «Dei‑me conta, dizia o orador, ao ler as comunicações que nos foram distribuídas, que de cada vez que a liberdade é ameaçada numerosos são aqueles que, em vez de tentar defendê‑la, procuram definir novas liberdades. Assim acaba-se por perder de vista o que constitui o pedestal das nossas liberdades fundamentais. Tenho a impressão de que a doutrina hostil à propriedade, tão característica da nossa época, arruinou completamente a compreensão das condições essenciais da liberdade». Pierre Grémion, Intelligence de l’anticommunisme, p. 174.
[10] O colóquio reúne vinte e seis intervenientes. O filósofo Raymond Aron encontra Hayek, então professor na London School of Economics e o seu mentor Mises, professor em Genebra. Estes contactos serão confirmados aquando do lançamento do Congresso para a Liberdades da Cultura.
[11] Walter Lippmann, nascido em Nova Iorque em 1889, foi diplomata antes de se tornar um dos jornalistas mais escutados do seu tempo. Em 1917, entra na administração democrata e participa na elaboração dos catorze pontos de Wilson. 1920, funda o New Republic, torna-se depois editorialista no New York Herald Tribune. A partir do começo dos anos 60, escreve na Newsweek. O seu pensamento político liberal e conservador influenciou os intelectuais do Congresso para a Liberdade da Cultura.
[12] Louis Rougier e Jacques Chevalier, ministro da Educação nacional e depois da Saúde em 1940 e 1941, negociaram acordos secretos Churchill-Pétain. La France de Vichy, 1940-1944, de Robert O. Paxton, Seuil, 1973 (p. 133).
[13] Keith Dixon, Les Évangélistes du marché, Raisons d’agir.
[14] A Sociedade do Mont Pèlerin também foi financiada pelo William Volker Charities Trust. A organização instaurada por um rico grossista de Kansas City desempenhou um papel importante na construção de uma escola especificamente anti‑intervencionista; os créditos William Volker tornaram possíveis as transferências de Mises para a New York University Business School, de Hayek para o Committee on Social Thought da Universidade de Chicago e de Aaron Director para a Faculdade de Direito de Chicago. Dorval Brunelle, Hayek et Pinochet, Ultra libéralisme et terreur politique, conferência dada no dia 11 de Setembro de 2003.
[15] O jovem professor Milton Friedman acompanha o grupo de economistas da universidade de Chicago (Frank Knight, George Stigler). Eles serão os principais artesãos da divulgação das teses hayekianas nos Estados Unidos. Desde 1944, A estrada da servidão é publicada pelas Imprensas universitárias de Chicago. Os trabalhos de Milton Friedman foram financiados pela Hoover Institution on War, Revolution and Peace, uma organização fundada em 1919 e domiciliada em Stanford. As suas teses serviram de bíblia à geração dos Chicago boys que aconselharam chefes de Estado como o general Pinochet. Susan George, Mythologies contemporaines, Comment la pensée devint unique, Le Monde diplomatique, [16] Entre 1957 e 1986, as fundações Relm e Earhart entregam 245.820 dólares à Sociedade do Mont‑Pèlerin.
[17] François Poirier, “Génération Thatcher, La culture politique de Angleterre”, Culture et société.
Denis Boneau
http://infoalternativa.org/mundo/mundo175.htm
O pensamento económico e político de Friedrich A. von Hayek impôs-se como fundamento ideológico da ordem liberal. É ao mesmo tempo o produto de uma história particular e de uma rede relacional que se desenvolveu à sombra das grandes fundações estadunidenses.
Hayek nasceu em Viena, em 1899. A sua juventude austríaca é marcada por um clima político difícil, com greves maciças paralisando o país. Assiste à desorganização do regime duplamente ameaçado pelo populismo, frequentemente anti-semita, e pelo socialismo revolucionário radicalizado pela introdução das teses marxistas. Neste contexto, apaixona‑se pelas teses da Sociedade Fabiana, uma corrente reformista e socialista inglesa, criada Béatrice e Sidney Webb, e preconizando uma revolução espiritual. Paralelamente, é iniciado na filosofia de Ludwig Wittgenstein, principal «animador» do Círculo de Viena.
Hayek participa nos seminários do economista Ludwig Von Mises que reúne em seu redor discípulos que contribuirão para difundir a boa nova liberal em França (Jacques Rueff, conselheiro do general de Gaulle), em Itália (Luigi Einaudi), na Alemanha (Wilhelm Röpke, Ludwig Erhard), e em menor escala nos Estados Unidos (Murray, Rothbard).
À época, Mises defende ideias a contracorrente das teses dominantes da intelligentsia austríaca, Hayek qualifica-o como «liberal intransigente isolado». É o iniciador da crítica do planismo que, segundo ele, não pode constituir uma solução económica adequada devido à complexidade dos cálculos económicos e da falta de informação. Na sua obra maior, Socialism, prediz o malogro das experiências socialistas: a planificação só pode conduzir ao caos ou à estagnação. Professor em Viena (1913-1938), depois em Nova Iorque (1945-1969), Mises é o fundador da corrente neo‑austríaca que se desenvolve durante os anos setenta. Próximo das redes estadunidenses na Europa Ocidental (a Fundação Rockefeller e o National Bureau of Economic Research financiaram dois dos seus livros publicados em 1944, Omnipotent Government: the Rise of the Total State and Total War e Bureaucraty). Procurando difundir as suas teorias, apoiadas por industriais e fundações, Mises construiu uma organização oficiosa, um esboço da Sociedade du Mont-Pèlerin, representada pelos seus alunos em vários países da Europa Ocidental.
A TEORIA POLÍTICA NEOLIBERAL
Hayek, na continuidade da tradição liberal iniciada por Adam Smith, defende uma concepção mínima do Estado. O seu contributo particular corresponde à crítica radical da ideia de «justiça social», noção dissimulando, segundo ele, a protecção dos interesses corporativos da classe média. Preconiza a supressão das intervenções sociais e económicas públicas. O Estado mínimo é um meio para escapar ao poder da classe média que controla o processo democrático a fim de obter a redistribuição das riquezas pela fiscalidade.
O seu programa é exposto em Constituição da liberdade (1960): desregulamentar, privatizar, diminuir os programas contra o desemprego, suprimir os subsídios à habitação e os controlos dos alugueres, reduzir as despesas da segurança social, e por fim limitar o poder sindical. O Estado não tem o direito de assegurar a redistribuição, sobretudo em função de algum critério de «justiça social». O seu papel é reduzido ao fornecimento de um quadro jurídico que garante as regras elementares da troca. Em 1976, chega a propor a desnacionalização da moeda, ou seja, a privatização dos bancos centrais nacionais para submeter a criação monetária aos mecanismos do mercado. Outras tomadas de posição parecem matizar a radicalidade do seu liberalismo, preconiza por exemplo a criação de um rendimento mínimo, mas esta proposta deve ser pensada como uma reabilitação da lei inglesa dos indigentes e não como a marca de um «socialismo hayekiano» [1].
A teoria desenvolvida por Hayek é fundada sobre uma crença compartilhada por todos os liberais, dos clássicos até aos partidários das teses austríacas. A metáfora da «mão invisível», que assegura no pensamento de Adam Smith a adequação da oferta e da procura nos diferentes mercados, ilustra perfeitamente este pressuposto comum que todos eles procuram demonstrar a partir de diferentes postulados: equilíbrio geral de Walras, redesenvolvido por Pareto; ordem espontânea do mercado ou catalaxia para a escola austríaca. Esta é o resultado de acções não concertadas e não o fruto de um projecto consciente. A ordem do mercado não é pretendida, nem planificada, ele é espontânea. Esta concepção da economia serve de justificação à crítica do intervencionismo que gera desequilíbrios, perturbações na catalaxia. Hayek considera que os keynesianos fazem do Estado um «ditador económico».
A filosofia política de Hayek está enfim muito próxima das teses desenvolvidas por Locke. O Estado defende o direito natural de propriedade e é limitado pelas cláusulas individualistas de um hipotético contrato‑fundador. O direito torna-se então o instrumento de protecção da ordem espontânea do mercado. O que importa pois principalmente, é a defesa do liberalismo económico. O liberalismo político é absorvido. As ideias democráticas são relegadas para um lugar secundária. Isso impeliu Hayek a fazer declarações com laivos de provocação. De acordo com ele, a democracia não constitui um sistema político infalível: ela «é essencialmente um meio, um processo utilitário para salvaguardar a paz interna e a liberdade individual» [2] . Vale mais um regime não‑democrático que garanta a ordem espontânea do mercado do que uma democracia planificadora. Este raciocínio justificará a presença dos «Chicago boys» no Chile. O pensamento de Hayek é uma mistura de conservantismo (crítica da democracia inspirada na denúncia da Revolução Francesa de Edmund Burke) e de liberalismo (Adam Smith). Põe em guarda contra a democracia ilimitada que conduz irremediavelmente ao reino da democracia totalitária [3]. Com efeito, Hayek é obsidiado pelas classes médias que controlam os regimes democráticos: «Há uma grande parte de verdade na fórmula segundo a qual o fascismo e o nacional‑socialismo seriam uma espécie de socialismo da classe média» [4]. Além disso, teme os pobres cujas reacções são imprevisíveis. Reclama um rendimento mínimo «que seria apenas no interesse daqueles que se propõem ser protegidos contra as reacções de desespero dos necessitados» [5]. Embora recusando aderir à ideia de justiça social, Hayek desenvolve uma concepção particular da justiça, liberal mas também conservadora, mesmo se se defende num artigo intitulado “Porque não sou conservador?”.
As ideias radicais de Hayek, os seus ataques contra o intervencionismo económico não podem ser compreendidos sem um regresso ao contexto histórico do pós-guerra: a elaboração de um novo avatar do liberalismo corresponde a uma crítica total do keynesianismo triunfante. Hayek, inspirado pelo pensamento económico de Mises, rejeita tanto o colectivismo preconizado pelo marxismo de Estado como a intervenção económica nas sociedades capitalistas. Retomando as ideias de Mises, critica a possibilidade de planificar a economia cuja complexidade se opõe a qualquer cálculo racional. Estas tomadas de posição contra a «terceira via democrática e social» simbolizada pelo New Deal rooseveltiano e pelo trabalhismo inglês explicam a marginalização do ultraliberais no início dos anos 50, nomeadamente no seio da mais poderosa das organizações de intelectuais anticomunistas, o Congresso para a Liberdade da Cultura.
HAYEK À MARGEM DA “GUERRA FRIA CULTURAL”
Hayek é nomeado professor na London School of Economics em 1931, depois em Chicago em 1950. Em 1962, torna‑se professor de Economia política na Alemanha Federal... Este percurso universitário nada deve ao acaso: a London School of Economics, financiada pela Fundação Rockefeller, e a universidade de Chicago são bastiões da economia liberal. Constitui assim uma rede política e intelectual internacional. Soube reunir liberais, conservadores britânicos e americanos, mas as suas teorias também foram difundidas em toda a Europa Ocidental. Próximo de Raymond Aron [6], que populariza as suas teses em França, considera‑se um «liberal intransigente» comprometido ao mesmo tempo contra o sovietismo e o fascismo.
A retórica do anti‑totalitarismo constitui uma vez mais o instrumento ideológico privilegiado dos intelectuais envolvidos no Congresso para a Liberdade da Cultura, organização pilotada pela CIA de 1950 a 1967. Contudo, partir de 1955, os ultraliberais conduzidos por Hayek são marginalizados face aos «trabalhistas», representantes de uma «terceira via» social-democrata, que contribuem para redefinir as orientações ideológicas do Congresso para a Liberdade da Cultura. Um novo programa emerge da conferência internacional de Milão [7] .
Em Paris, Josselson, com o apoio da Fundação Rockefeller, recruta e financia os participantes. A lista dos intervenientes é aprovada por um comité composto por Raymond Aron, Michel Collinet, Melvin Lasky, Sidney Hook, Denis de Rougemont... Cinco oradores são cooptados [8]. São encarregados de fornecer as linhas directrizes da ideologia anticomunista do Congresso para a Liberdade da Cultura aquando da sessão inaugural. A conferência de Milão vai tornar evidente a fractura entre as duas tendências. Os arquitectos da organização, na maior parte intelectuais nova-iorquinos procedentes das fileiras trotskystas, tentam reunir liberais, mas sobretudo homens da esquerda não‑comunista (como Léon Blum em França). Em 1955, o Congresso compromete‑se abertamente na via social-democrata; o sucesso do discurso inaugural de Hugh Gaitskell, líder trabalhista inglês, testemunha esta orientação. Para ele, o Welfare state é compatível com a democracia política, tese em perfeita contradição com as teorias austríacas de Mises. O quarto orador, Hayek, toma a palavra em nome dos ultraliberais e recorda que a propriedade é o único direito que vale a pena ser defendido, fazendo assim referência aos direitos sociais evocados por Hugh Gaitskell [9]. A conferência de Milão conclui‑se pela vitória ideológica dos «trabalhistas» e pela marginalização dos ultraliberais que se reorganizam nos think tanks, organizações encarregadas de converter as elites económicas à filosofia neoliberal.
DO COLÓQUIO WALTER LIPPMAN À SOCIEDADE DO MONT-PÈLERIN: O NASCIMENTO DE UM THINK TANK INTERNACIONAL
O Colóquio Walter Lippman [10] (1938) no qual participam Mises e Hayek é a ocasião de reunir universitários liberais hostis ao fascismo, ao comunismo e a todas as formas de intervencionismo económico do Estado. O livro de Walter Lippman [11], The Good Society, constitui o manifesto temporário, aguardando A estrada da servidão, deste grupo de intelectuais relativamente marginalizados na época do keynesianismo triunfante. De acordo com Walter Lippman, o colectivismo é a raiz comum dos totalitarismos fascista e comunista. Os governos das democracias ocidentais, comprometendo-se em políticas económicas de reactivação, cedem à tentação do planismo porque não existe – esta ideia constitui a pedra de toque da filosofia austríaca iniciada por Mises – «via intermédia» entre o liberalismo e o colectivismo. Assim, Louis Rougier [12], professor de Filosofia na Universidade de Besançon e principal organizador da reunião, declara: «O drama moral da nossa época, é a cegueira dos homens de esquerda que sonham com uma democracia política e com um planismo económico sem compreenderem que o planismo implica o Estado totalitário. O drama moral da nossa época, é a cegueira dos homens de direita que suspiram de admiração frente aos regimes totalitários, reivindicando ao mesmo tempo as vantagens de uma economia capitalista, sem se darem conta que o Estado totalitário devora a fortuna privada, trava e burocratiza todas as formas de actividade económica do país». Homens de direita e homens de esquerda são assim colocados lado a lado segundo um argumento único: o planismo é totalitário. O pensamento de Hayek descansa sobre o mesmo princípio vulgarizado no famoso A estrada da servidão. O raciocínio justifica a construção de uma vanguarda liberal capaz de lutar intelectualmente (inicialmente) contra a hegemonia das práticas inspiradas no pensamento de Keynes.
O Colóquio Walter Lippman conduz a um projecto internacional de promoção do liberalismo. Lippman, Hayek e Röpke são encarregados de criar organizações nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na Suíça.
Em 1947, na lógica do plano Lippman, Hayek participa activamente na fundação da Sociedade do Mont‑Pèlerin que «constitui em certa medida a casa‑mãe dos think tanks neoliberais» [13]. Um homem de negócios suíço, Albert Hunold, permite concretizar as propostas de Hayek, que deseja instaurar um «fórum liberal internacional», e de Wilhem Röpke, que procura lançar uma revista internacional. Hunold reúne industriais e banqueiros suíços a fim de financiar o think tank liberal [14]. Reúne intelectuais procedentes de correntes variadas mas que partilham a mesma crença no equilíbrio espontâneo do mercado: monetaristas como Milton Friedman [15], membros da escola do Public choice (James Buchanan), bem como personalidades associadas à corrente neo‑austríaca. As reuniões internacionais são financiadas, inicialmente, pelas fundações Relm e Earhart [16]. A Sociedade do Mont-Pèlerin recebe em seguida o apoio da ultraconservadora fundação John Olin, da Lilly endowment, da fundação Roe, do Scaife Family Charitable Trust e da Fundação Garvey.
A sociedade do Mont-Pèlerin prega durante vinte e cinco anos no deserto. Os ideólogos neoliberais permanecem isolados num contexto de consenso intervencionista. Será necessário esperar a crise do keynesianismo para que as ideias de Hayek se imponham entre as elites políticas. A Grã‑Bretanha constituirá o terreno da posta em prática das medidas preconizadas.
Fundado em 1955, o Institute of Economic Affairs (IEA) trabalha para vulgarizar as teses de Hayek e do monetarismo alvejando principalmente os meios patronais (que permanecem muito tempo desconfiados) e financeiros. Ralph Harris, que foi director da organização, é nobilitado a partir de 1979 por Margaret Thatcher.
A «REVOLUÇÃO CONSERVADORA» BRITÂNICA
No fim dos anos sessenta, detecta-se os primeiros sinais da crise de sociedade que vai fazer balançar a Grã‑Bretanha para a «revolução conservadora» orquestrada por Margaret Thatcher. A stagflation, combinação inédita de desemprego e inflação, leva a pôr em causa o paradigma keynesiano (nomeadamente a equação de Philips que conclui sobre a arbitragem entre a inflação e o desemprego). Com a crise, as teorias da Sociedade do Mont-Pèlerin e do IEA desenvolvem-se e recebem um acolhimento cada vez mais favorável nos círculos patronais e políticos. As duas organizações difundem as ideias da primazia da luta contra a inflação, do carácter utópico das políticas de pleno emprego, do excessivo poder sindical, das consequências nocivas das políticas económicas. Em 1970, o IEA publica a tese quantitativa da moeda de Milton Friedman que constitui uma condenação radical da política monetária keynesiana. Friedman preconiza a redução dos défices do Estado a fim de controlar o aumento da massa monetária.
Nos anos setenta, que são os anos da conversão para numerosos homens políticos britânicos, assiste-se a uma aproximação entre os conservadores e os liberais, um casamento entre os herdeiros de Burke e de Smith.
A fim de apoiar esta dinâmica de conversão liberal, membros do Partido Conservador (entre os quais Margaret Thatcher e Keith Joseph) criam o Centre for Policy Studies, em 1974. Em 1977, uma outra organização vê o dia: o Adam Smith Institute. A Grã-Bretanha entra num período de «revolução conservadora». A vitória de Thatcher em 1979 consagra o sucesso dos think tanks neoliberais. Membros destas organizações como Geoffrey Howe e Nicholas Ridley constituíram os pilares dos governos conservadores [17].
Esta rápida história dos think tanks neoliberais sublinha o peso político das concepções económicas de Hayek. A partir da Sociedade do Mont-Pèlerin, soube impor a sua ideia do Estado (mínimo, sem nenhum poder de intervenção económica) e do mercado (“laisser-faire”). Prova da sua hegemonia intelectual, recebe o prémio Nobel em 1974, depois vê-o atribuído a seis dos seus amigos ultraliberais: Milton Friedman (1976), George Stigler (1982), James Buchanan, Maurice Allais (1988), Ronald Coase (1991) e Gary Becker (1992). De certa forma, foi o programa que ele tinha formulado na sua obra A Constituição da liberdade, que se impôs como «pensamento económico único» no final do século XX.
[1] Gilles Dostaler, Le libéralisme de Hayek, Éditions La Découverte, Paris, 2001.
[2] F. A. Hayek, La route de la servitude, Presses universitaires de France, Paris, 1946, p. 56-57.
[3] Estes temas são emprestados do filósofo austríaco Karl Popper, autor de Miséria do historicismo e de A sociedade aberta e os seus inimigos. A sua obra epistemológica constitui o fundamento teórico da crítica austríaca ao marxismo. Hayek, admirador e amigo de Popper, convida o «mestre» para a London School of Economics. É recebido cavaleiro em 1965. É o mentor de George Soros que leva adiante a ideia de «Open society».
[4] Ibid., p. 86-87.
[5] F. A. Hayek, La constitution de la liberté, Litec, Paris, 1994, p. 285.
[6] Raymond Aron, em 1951, participa na quarta reunião internacional da Sociedade do Mont-Pèlerin (Beauvallon–França); a sua intervenção intitula-se “Do preconceito favorável em relação à União Soviética”.
[7] A conferência internacional de Milão (1955) é a quinta reunião deste tipo após Berlim, Bruxelas, Bombaim e Hamburgo.
[8] Hugh Gaitskell, Sidney Hook, Michael Polanyi, Raymond Aron e Friedrich Hayek. Pierre Grémion, Intelligence de l’anticommunisme, Le Congrès pour la liberté de la culture à Paris, 1950-1975, Fayard, 1995, p. 161.
[9] «Dei‑me conta, dizia o orador, ao ler as comunicações que nos foram distribuídas, que de cada vez que a liberdade é ameaçada numerosos são aqueles que, em vez de tentar defendê‑la, procuram definir novas liberdades. Assim acaba-se por perder de vista o que constitui o pedestal das nossas liberdades fundamentais. Tenho a impressão de que a doutrina hostil à propriedade, tão característica da nossa época, arruinou completamente a compreensão das condições essenciais da liberdade». Pierre Grémion, Intelligence de l’anticommunisme, p. 174.
[10] O colóquio reúne vinte e seis intervenientes. O filósofo Raymond Aron encontra Hayek, então professor na London School of Economics e o seu mentor Mises, professor em Genebra. Estes contactos serão confirmados aquando do lançamento do Congresso para a Liberdades da Cultura.
[11] Walter Lippmann, nascido em Nova Iorque em 1889, foi diplomata antes de se tornar um dos jornalistas mais escutados do seu tempo. Em 1917, entra na administração democrata e participa na elaboração dos catorze pontos de Wilson. 1920, funda o New Republic, torna-se depois editorialista no New York Herald Tribune. A partir do começo dos anos 60, escreve na Newsweek. O seu pensamento político liberal e conservador influenciou os intelectuais do Congresso para a Liberdade da Cultura.
[12] Louis Rougier e Jacques Chevalier, ministro da Educação nacional e depois da Saúde em 1940 e 1941, negociaram acordos secretos Churchill-Pétain. La France de Vichy, 1940-1944, de Robert O. Paxton, Seuil, 1973 (p. 133).
[13] Keith Dixon, Les Évangélistes du marché, Raisons d’agir.
[14] A Sociedade do Mont Pèlerin também foi financiada pelo William Volker Charities Trust. A organização instaurada por um rico grossista de Kansas City desempenhou um papel importante na construção de uma escola especificamente anti‑intervencionista; os créditos William Volker tornaram possíveis as transferências de Mises para a New York University Business School, de Hayek para o Committee on Social Thought da Universidade de Chicago e de Aaron Director para a Faculdade de Direito de Chicago. Dorval Brunelle, Hayek et Pinochet, Ultra libéralisme et terreur politique, conferência dada no dia 11 de Setembro de 2003.
[15] O jovem professor Milton Friedman acompanha o grupo de economistas da universidade de Chicago (Frank Knight, George Stigler). Eles serão os principais artesãos da divulgação das teses hayekianas nos Estados Unidos. Desde 1944, A estrada da servidão é publicada pelas Imprensas universitárias de Chicago. Os trabalhos de Milton Friedman foram financiados pela Hoover Institution on War, Revolution and Peace, uma organização fundada em 1919 e domiciliada em Stanford. As suas teses serviram de bíblia à geração dos Chicago boys que aconselharam chefes de Estado como o general Pinochet. Susan George, Mythologies contemporaines, Comment la pensée devint unique, Le Monde diplomatique, [16] Entre 1957 e 1986, as fundações Relm e Earhart entregam 245.820 dólares à Sociedade do Mont‑Pèlerin.
[17] François Poirier, “Génération Thatcher, La culture politique de Angleterre”, Culture et société.
Denis Boneau
http://infoalternativa.org/mundo/mundo175.htm
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