terça-feira, janeiro 09, 2007

Arco-íris para o novo ano

Yip Harburg foi um importante letrista socialista estadunidense que escreveu, entre outras coisas, as letras dos musicais Finnian’s Rainbow e o Feiticeiro de Oz (Wizard of Oz), incluindo a canção Over the Rainbow, ambos adaptados para cinema, e Brother, Can You Spare a Dime? (do musical New Americana, de 1931), uma das raras canções a abordar directamente na época as condições sob a Grande Depressão. Participou também nos primeiros musicais integrados, no qual brancos e negros participavam conjuntamente no elenco e coro. Durante o período McCarthy, Harburg foi listado e impedido de trabalhar em Hollywood durante onze anos.

Muitos das suas obras têm simbolismo político. Finnian’s Rainbow, uma história original, no qual um irlandês, Finnian McLonergan, e a sua filha Sharon, imigram para o Tennessee, onde Finnian planeia enterrar um pote de ouro que roubou de um leprechaun, convencido que se enterrar o pote irá crescer ouro (Tennessee é onde fica o Forte Knox, um importante repositório de ouro). Porém, quando chega ao Vale Arco­‑íris encontra uma comuna de agricultores de tabaco, negros e brancos, que lutam contra um senador racista. A filha, Sharon, é tão ofendida pelo racismo do senador que estando perto do pote mágico transforma o senador num negro.

O Feiticeiro de Oz está também carregado de simbolismo, já presente na versão literária de Frank L. Baum. Assim, o Espantalho que procurava um cérebro, representa o agricultor que se pensa parvo, mas é realmente esperto; o Homem de Lata representa o operário que em acidente após acidente nas fábricas foi substituindo as suas partes por metal, ficando reduzido a um homem de lata mecânico, sem coração, na linha de montagem; o Leão representava um político anti-imperialista e anti-monopolista (também anti-evolucionista), William Jennings Bryan; o Feiticeiro era o capitalista de Wall Street puxando os cordéis por detrás da cortina, mas que resulta não ser um monstro incombatível, mas um homem; etc. Leiam o artigo [1] sobre o simbolismo na obra. Embora haja alguma controvérsia sobre a sua interpretação, o filho de Harburg sugere que este tinha bem presente a suas implicações políticas, e imbuiu as fábulas de ideias progressistas [2].

Harburg escreveu já no fim da vida o seguinte poema:

As vidas dos grandes homens recordam-nos que não há via fácil para a grandeza.
Todos os heróis de amanhã são os hereges de hoje.
Sócrates e Galileu, John Brown [3], Thoreau [4], Cristo, e Debs [5]
Ouviram a noite clamar “Abaixo os traidores”,
e a madrugada gritar “Força aos vermelhos!”
Nada parece parti-los jamais.
Forcas, crucifixos, barras de prisão.
Embora os tentassem reajustar
Eles são como pedras.
Porquê todos os homens grandiosos nos lembram
que podemos escrever os nossos nomes ao alto e ser perdoados
deixar para trás um príncipe no FBI?

[1] David B. Parker, “The Rise and Fall of The Wonderful Wizard of Oz as a ‘Parable on Populism’”, Journal of the Georgia Association of Historians, vol. 15 (1994), pp. 49-63 [transcrição].
[2] A Tribute to Yip Harburg: The Man Who Put the Rainbow in the Wizard of Oz, Democracy Now!, 25/12/2006.
[3] John Brown (1800-1859): abolicionista; apelou à insurreição como forma de combate contra a escravatura.
[4] Henry David Thoreau (1817-1862): naturalista, filósofo, abolicionista; defendeu a desobediência civil e a recusa de pagamento de impostos como forma de protesto contra a Guerra.
[5] Eugene Debs (1855-1926): fundador do International Labor Union e do International Workers of the World (IWW), e cinco vezes candidato presidencial pelo Partido Socialista da América.
André Levy
Jangada de Pedra
http://www.infoalternativa.org/cultura/cultura037.htm

Sem comentários: