Os Estados Unidos estão a planear o que será um ataque catastrófico ao Irão. Para a quadrilha de Bush, o ataque será um meio de "comprar tempo" para o seu desastre no Iraque. Ao anunciar o que ele chamou um "incremento" (surge) de tropas americanas no Iraque, George W. Bush identificou o Irão como o seu objectivo real. "Interromperemos o fluxo de apoio [à insurgência no Iraque] a partir do Irão e da Síria", disse ele. E perseguiremos e destruiremos as redes que proporcionam armamento avançado e treinamento aos nossos inimigos no Iraque".
"Redes" significa Irão. "Há evidência sólida", disse a 24 de Janeiro um porta-voz do Departamento de Estado, "de que agentes iranianos estão envolvidos nestas redes e que eles estão a trabalhar com indivíduos e grupos no Iraque e estão a ser enviados para ali pelo governo iraniano". Tal como a afirmação de Bush e Blair de que tinham prova irrefutável de que Saddam Hussein estava a instalar armas de destruição em massa, a "prova" carece de toda a credibilidade. O Irão tem uma afinidade natural com a maioria xiita do Iraque, em tem-se oposto implacavelmente à al-Qaeda, condenando os ataques do 11 de Setembro a apoiando os Estados Unidos no Afeganistão. A Síria tem feito o mesmo. Investigações do New York Times, Los Angeles Times e outros jornais, incluindo responsáveis militares britânicos, concluíram que o Irão não está empenhado no fornecimento de armas através da fronteira. O general Peter Pace, presidente da US Joint Chiefs of Staff, disse que não existe tal evidência.
Na medida em que se aprofunda o desastre americano no Iraque e em que cresce a oposição interna e externa, fanáticos "neocon" como o vice-presidente Cheney acreditam que a sua oportunidade para controlar o petróleo do Irão será superada a menos que actuem não depois da primavera. Para consumo público, há mitos poderosos. Em concertação com Israel e os lobbies sionistas e de fundamentalistas cristãos em Washington, o bushitas dizem que a sua "estratégia" é acabar com a ameaça nuclear do Irão. De facto, o Irão não possui nem uma única arma nuclear nem tão pouco ameaçou construir uma; a CIA estima que, mesmo que haja vontade política, o Irão é incapaz de construir uma arma nuclear antes de 2017.
Ao contrário de Israel e dos Estados Unidos, os Irão tem agido de acordo com as regras do Tratado de Não Proliferação Nuclear, do qual foi um signatário original, e tem permitido inspecções de rotina de acordo com as suas obrigações legais — até que medidas gratuitas punitivas foram impostas em 2003, a pedido de Washington. Nenhum relatório da Agência Internacional de Energia Atómica alguma vez mencionou o Irão por desviar o seu programa nuclear civil para utilizações militares. A AIEA tem dito que durante a maior parte dos últimos três anos os seus inspectores puderam "ir a qualquer lugar e ver qualquer coisa". Eles inspeccionaram as instalações nucleares de Isfahan e Natans em 10 e 12 de Janeiro e retornarão em 2 e 6 de Fevereiro. O responsável da AIEA, Mohamed El-Baradei, afirma que um ataque ao Irão terá "consequências catastróficas" e apenas encorajará o regime a tornar-se uma potência nuclear.
Ao contrário dos seus dois inimigos, os EUA e Israel, o Irão não atacou outros países. Sua última guerra foi em 1980, quando invadido por Saddam Hussein, que então era apoiado e equipado pelos EUA, os quais forneceram-lhe armas químicas e biológicas produzidas numa fábrica em Maryland. Ao contrário de Israel, a quinta potência militar do mundo com armas termo-nucleares destinadas a objectivos no Médio Oriente, com um récorde inigualável de desafio a resoluções da ONU e responsável pela mais prolongada ocupação ilegal do mundo, o Irão tem um historial de obediência ao direito internacional e não ocupa qualquer território além do seu próprio.
A "ameaça" do Irão é inteiramente fabricada, com a conivência dos habituais media aquiescentes cuja linguagem refere-se às "ambições nucleares" do Irão, tal como o vocabulário do não existente arsenal de ADM de Saddam tornou-se de uso comum. A acompanhar isto está uma demonização que se tornou prática padrão. Como destacou Edward Herman, o presidente Mahmoud Ahmadinejad, "facilitou isto", embora um exame atento às suas famosas observações de Outubro de 2005 acerca de Israel revelem a sua distorção. Segundo Juan Cole, professor de História Moderna do Médio Oriente, e de outros analistas da língua farsi, Ahmadinejad não pediu para Israel ser "varrido do mapa". Ele disse: "O regime que ocupa Jerusalém deve desaparecer das páginas do tempo". Isto, afirma Cole, "não implica de todo acção militar ou quaisquer mortes". Ahmadinejad comparou a morte do regime de Jerusalém com a dissolução da União Soviética. O regime iraniano é repressivo, mas seu poder é difuso e exercido pelos mullahs, com os quais Ahmadinejad muitas vezes tem divergências. Um ataque certamente os uniria.
A única peça de "evidência sólida" é a ameaça apresentada pelos Estados Unidos. Uma formação naval no Mediterrâneo oriental já começou. Isto é quase certamente parte do que o Pentágono chama CONPLAN 8022, o que é o bombardeamento aéreo do Irão. Em 2004, foi emitida a Directiva Presidencial de Segurança Nacional 35, intitulada Nuclear Weapons Deployment Authorisation. Ela é classificada, naturalmente, mas a presunção tem sido de que a NSPD 35 autorizou a acumulação e instalação de armas nucleares "tácticas" no Médio Oriente. Isto não significa que Bush as utilizará contra o Irão mas, pela primeira vez desde os anos mais perigosos da guerra fria, a utilização do que era então chamado armas nucleares "limitadas" está a ser discutida abertamente em Washington. O que eles estão a debater é a perspectiva de outras Hiroshimas e de decaimento (fallout) radioactivo no Médio Oriente e na Ásia Central. Seymour Hersh no ano passado revelou no New Yorker que bombardeiros americanos "tem estado a voar missões simuladas de entrega de armas nucleares … desde o último verão".
O bem informado Arab Times, do Kuwait, afirma que Bush atacará o Irão antes do fim de Abril. Um dos mais destacados estrategas militares da Rússia, o general Leonid Ivashov, diz que os EUA utilizarão munições entregues por mísseis Cruise lançados no Mediterrâneo. "A guerra no Iraque", escreveu ele em 24 de Janeiro, "foi apenas um elemento numa série de passos no processo de desestabilização regional. Foi apenas uma fase de aproximação para tratar do Irão e outros países. [Quando o ataque ao Irão começar] Israel está certo de que ficará sob o ataque de mísseis iranianos. Posicionando-se como vítimas, os israelenses sofrerão algum dano tolerável e então uns ultrajados EUA desestabilizarão finalmente o Irão, fazendo com que isto pareça uma nobre missão de resposta … A opinião pública já está sob pressão. Haverá uma crescente histeria anti-iraniana, fugas, desinformação, etc … Não está claro se o Congresso dos EUA vai autorizar a guerra".
Indagado acerca de uma resolução do Senado dos EUA que desaprova o "acréscimo" de tropas americanas no Iraque, o vice-presidente Cheney afirmou: "Isto não nos travará". Em Novembro último, a maioria do eleitorado americano votou pelo Partido Democrata a fim de controlar o Congresso e travar a guerra no Iraque. Fora os insípidos discursos de "desaprovação", isto não a aconteceu e é improvável que aconteça. Democratas influentes, tais como a nova líder da câmara baixa do Congresso, Nancy Pelosi, e os indigitados candidatos presidenciais Hillary Clinton e John Edwards tem-se entretido junto ao lobby israelense. Edwards é encarado no seu partido como um "liberal". Ele foi um dos membros do contingente americano de alto nível na recente conferência israelense em Herzilya , onde falou acerca de "uma ameaça sem precedentes para o mundo e para Israel (sic). No topo destas ameaças está o Irão… Todas as opções estão sobre a mesa a fim de assegurar que o Irão nunca obtenha uma arma nuclear". Hillary Clinton disse: "a política americana deve ser inequívoca… Temos de manter todas as opções sobre a mesa". Pelosi e Howard Dean, outro liberal, distinguiram-se pelo ataque ao antigo presidente Jimmy Cárter, que administrou o acordo de Camp David entre Israel e o Egipto e teve a ousadia de escrever um livro com verdades, acusando Israel de se ter tornado um "estado do apartheid". Disse Pelosi: "Carter não fala pelo Partido Democrata". Ela está certa, infelizmente.
Na Grã-Bretanha, foi apresentado à Downing Street um documento intitulado "Respondendo às acusações", do Prof. Abbas Edalal, do Imperial College, de Londres, que procura revelar a desinformação sobre o Irão. Blair ficou silencioso. Excepto por algumas honrosas excepções, o Parlamento permanece vergonhosamente silencioso.
Pode isto estar realmente a acontecer outra vez, menos de quatro anos paó9s a invasão do Iraque que deixou um saldo de 650 mil mortos? Eu escrevi virtualmente este mesmo artigo no princípio de 2003, para Irão agora leia-se Iraque então. E não é notável que a Coreia do Norte não tenha sido atacada? A Coreia do Norte tem armas nucleares. Esta é a mensagem para os iranianos, estrondosa e clara.
Em numerosos inquéritos, tal como aquele efectuado este mês pela BBC World Service, "nós", a maioria da humanidade, tornou clara nosso repúdio a Bush e os seus vassalos. Quanto a Blair, o homem agora está politicamente moralmente nu para todos verem. Assim, quem é que fala claro, além do Prof. Edalal e seus colegas? Jornalistas privilegiados, académicos e artistas, escritores e dramaturgos que por vezes falam cerca da "liberdade de discurso" estão tão silenciosos como um teatro da West End. O que é que eles esperam? A declaração de um outro Reich de mil anos, ou uma nuvem em cogumelo no Médio Oriente, ou ambos?
John Pilger
http://resistir.info/
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