A linguagem serve para muita coisa. Para encorajar, prometer, provocar, pedir, causar emoção... e para explicar ou informar. Estes efeitos não são automáticos nem intrínsecos á linguagem. Dependem sempre de como a utilizamos é importante não os confundir.
Por exemplo, não se explica o amor dizendo que é fogo que arde sem se ver. Parece uma verdade profunda, pode despertar emoções, mas não esclarece quem amou nem informa quem nunca se apaixonou. No outro extremo, que os insectos têm seis patas pode parecer trivial. Mas é informativo: quem não sabia passa a saber.
Então como é que o cientista explica o amor? Não explica, porque para explicar é preciso compreender primeiro. Todos (ou quase todos) conhecemos esta sensação, mas não compreendemos o que é. Provavelmente evoluiu por ser uma vantagem na criação dos filhos. Provavelmente envolve hormonas, neurotransmissores, certos padrões da actividade neuronal. Mas sem o perceber não podemos explicar o amor. Podemos fazer poesia, mas só poesia que não esclarece.
Aqui não há nada de controverso. Ninguém explica o amor, mas não há problema porque ninguém finge que o explica. Mas noutros casos há. As doenças, por exemplo. Antigamente ninguém percebia o que eram, e fingiam explicá-las com o equivalente ao fogo que arde sem se ver. Desequilíbrio dos humores. Mau karma. Castigo divino. Bruxaria.
E hoje também. Da biodança à magnetoterapia, quem não sabe engana quem não quer saber com palavras que nem fazem sentido. Sabemos o que é energia, mas energias negativas ou bloqueios energéticos são termos sem sentido. Vibração é um termo claro, mas quando dizem que as essências florais têm vibrações curativas ou se referem ao abanar do frasco ou tiram o sentido à palavra.
A teologia é ainda pior. A espiritualidade, o mistério, a revelação, o sagrado, e mais uma data de termos indefinidos são ideais para fingir que se diz algo profundo sem se dizer nada. Um exemplp da Bíblia é I João 4:8. Deus é Amor. Excelente. Como ninguém sabe o que é deus e ninguém compreende o que é o amor, é a definição perfeita...
Há coisas que ainda não podemos explicar, e algumas que talvez nunca expliquemos. E a linguagem tem funções em que a ambiguidade é importante. A poesia, a política e a religião seriam impossíveis se tivéssemos que dizer tudo com clareza. Mas qualquer explicação tem que assentar em termos claros e bem definidos, senão não explica, não esclarece, não informa. E qualquer pedido de esclarecimento tem os mesmos requisitos. Nem se pode explicar algo com palavras sem sentido, nem se pode pedir que expliquem se não é claro o se quer ver explicado.
A que propósito vem isto? Não perca os próximos episódios: a crença, e a oviniologia...
Por Ludwig Krippahl
http://ktreta.blogspot.com/
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