Os tecnoburocratas têm horror à simplicidade
Fui lendo as grelhas que foste colocando, por aqui, recebidas de várias escolas, e percebi que havia descritores em que um simples advérbio, ou até mesmo uma partícula de ligação entre partes de frase podia fazer a diferença e tornar um qualquer descritor numa etapa de difícil alcance.
Outro aspecto, destes instrumentos, que me anda a "fazer cócegas" é a história dos objectivos individuais.
Parece-me, a mim, que não fiz nenhum curso "nestas ciências" e que:
1 - no que diz respeito à diminuição do insucesso escolar,e tendo em conta, por ex, uma redução 1,5% definida pela escola para toda a comunidade educativa, eu não tenho que definir, como objectivo individual, a redução de 1,5%. Eu tenho que me propor realizar "n" acções, tais como, fazer x fichas e/ou questionar oralmente y vezes os alunos com insucesso, pedir-lhes z TPC, etc. Tenho que fazer isto e registar tudo. Se apesar de todos os esforços, o insucesso não diminui, apesar de eu ter trabalhado para isso, não posso ser penalizada. O objectivo que me propus foi conseguido.
2 - para o abandono passa-se o mesmo. Se um aluno não comparece na aula, eu tenho que me propor informar diariamente o DT e um elemento de um qualquer projecto de apoio que exista na escola, como por exemplo "o escolhas". Não é minha função ir buscar a criança a casa. Não posso, por isso, propor-me reduzir em qualquer coisa por cento o abandono.
3 - para os outros objectivos individuais, esta metodologia deve ser repetida. Por exemplo, na ligação à comunidade: para uma qualquer acção que faça, comprometo-me a convidar a comunidade educativa, ou pais, ou junta de freguesis, ou autarquia, dependendo da acção. Por exemplo, para uma feira do livro convidam-se os pais a estar presentes através de uma folha informativa, o mesmo pode acontecer para um torneio desportivo, para uma acção sobre alimentação, etc. Vieram? Óptimo! Não vieram? Eu cumpri o meu objectivo.
Eu só posso cumprir objectivos individuais que sejam da minha inteira responsabilidade. Não me posso responsabilizar pela falta de resposta, dos outros, às minhas acções, desde que eu prove ter feito a minha parte.
Não sei se me expliquei bem. Parece-me que há uma enorme confusão nestas definições e todas com prejuízo para nós. E é isso que esta gente quer. Se conseguirmos provar a nós próprios que somos maus damos-lhes toda a razão. E o que estamos a construir estamos a fazê-lo para nosso próprio desprestígio.
Maria Lisboa
Comentário meu (Ramiro Marques)
Cem por cento de acordo. No meu post anterior, eu explico. Há por aí alguns PCEs rendidos há muito à perspectiva tecnoburocrática: quanto mais complexo e arrevesado melhor. Têm horror à simplicidade. Há muito que não entram numa sala de aula. Não sabem o que é ensinar. Já se esqueceram. Há muitos que se renderam à perspectiva dominante e oficiosa das novas funções da escola pública: guarda de crianças e adolescentes e prestação de cuidados sociais. Ensinar? Para quê, perguntam eles? Não está tudo na Internet? Eles fazem parte da tropa de choque ideológica que força o embrutecimento das novas gerações. Quanto mais ignorantes e brutos mais domesticados ficam.
http://professoresramiromarques.blogspot.com/2008/04/
fui-lendo-as-grelhas-que-foste.html
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