quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Contra a língua do João

O bem-vindo post convidado do professor João Boavida permite-me alinhavar algumas ideias contrárias às suas. Espero que o contraste seja bom para fazer as pessoas pensar outra vez.O que o João diz é repetido mil vezes por mil pessoas em mil artigos de opinião de todos os jornais, desde há séculos: a defesa da Nossa Língua e da Nossa Cultura. E a questão fundamental que se coloca é por que haveria alguém de querer defender tal coisa; por ser Nossa? Há muitas ilusões aqui envolvidas. A primeira é que parece que estamos a falar de defender que não se deve matar pessoas; e realmente não se deve matar pessoas, nem povos inteiros. Mas matar uma cultura ou uma língua é outra coisa completamente diferente. Nada se mata de facto; ninguém morre. As pessoas apenas deixam de usar uma dada língua e passam a usar outra; e o que foi escrito na língua antiga continua disponível, podendo ser lido pelos especialistas nessa língua morta, eu em boas traduções. Afinal, é o que acontece com o latim, o grego antigo e outras línguas mortas. Imagine-se que a língua portuguesa já tinha morrido no séc. XVIII. Não teríamos Eça nem Saramago? Tolices. Claro que teríamos. Só que eles escreveriam e sentiriam as coisas noutra língua qualquer — o castelhano, por exemplo, o que seria bem melhor para eles. Portanto, não se trata de matar pessoas nem de matar povos nem de matar culturas. Trata-se apenas de usar uma ou outra língua. O segundo aspecto é que muitas línguas são puras mentiras políticas, inventadas por políticos espertos que queriam dividir para conquistar. É o caso da língua portuguesa. Não é mais do que latim à toa, que depois foi trabalhosamente aperfeiçoado numa nova língua, e que mais tarde foi artificialmente afastada do castelhano. Uma língua é sempre uma arma política, e o expoente máximo da eficiência dessa arma é alguém pensar, como o João, que está a defender uma posição humanista, quando na verdade está a fazer o mesmo do que os que defendem a bandeira, o hino e o Quinto Império. Nada disto tem a ver com o que interessa aos escritores, poetas, filósofos, estudantes, cientistas. O que interessa a todas estas pessoas é terem liberdade e condições para fazerem o seu trabalho e poderem usar uma língua culta qualquer, que tenha sido cuidadosamente burilada ao longo de séculos de erudição. Coisa que não acontece na língua portuguesa, que quase não tem vocabulário científico nem filosófico, pela simples razão de que ao longo da maior parte da história a ciência e a filosofia não se fizeram em Portugal. E continuam a não se fazer. E isso é normal porque a maior parte dos países ao longo de toda a história da humanidade nunca fizeram tais coisas.O importante, em suma, é olhar para as pessoas em vez de deixarmos de as ver porque estamos a olhar para abstracções. Perguntemo-nos o que é realmente importante para os nossos jovens estudantes. E se fizermos esta pergunta, a resposta é que para eles é importante o mesmo que é importante para os jovens estudantes dinamarqueses, suecos ou israelitas: que a língua inglesa lhes seja tão própria quanto a língua portuguesa, porque isso será para eles o passaporte de acesso à maior bibliografia que o planeta já conheceu. Se uma pessoa quiser ler a maior parte da história, filosofia, economia, biologia, teologia, física, literatura ou poesia, não pode fazer isso em português. E este facto é que conta. É este facto desagradável? Sim. Para os nacionalistas. É desagradável quando olhamos para abstracções em vez de olharmos para as pessoas. A única coisa má nisto é que hoje, porque não há a coragem política de fazer da língua inglesa a língua escolar oficial em Portugal e no Brasil, os alunos andam perdidos a ler tolices mal traduzidas, porque não dominam uma língua culta. E os que a dominam é porque ou são ricos e andaram nos melhores colégios, ou se esforçaram pessoalmente. Num ou noutro caso, introduz-se uma injustiça que preocupa muito mais o humanista do que a tolice de saber se as pessoas fazem economia ou química em latim, hebraico ou letão. E pronto, venham de lá os protestos, nomeadamente do professor João Boavida!http://dererummundi.blogspot.com/

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