segunda-feira, julho 26, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

Que queria a Democracia tomando, da forma como o fez, partido na guerra dos Estados Unidos? Fazer alarde de filantropia, sobretudo contentar a sua mania unitária. Liberdade, Igualdade, Fraternidade! gritou ela: guerra à escravatura, guerra à cisão, é toda a Revolução. Para isso ela empurrou o Norte contra o Sul, enflamou as suas cóleras, envenenou as suas raivas, tornou a guerra dez vezes mais atroz. Uma parte do sangue espalhado e das misérias que, na Europa, são o contra golpe dessa guerra fratricida, deve pesar sobre ela: que perante a história ela carregue essa responsabilidade .
Oh! eu oiço¬os exclamar, esses grandes políticos: Sim, nós quisemos as expedições da Crimeia e da Lombardia, porque por elas próprias essas expedições eram úteis e revolucionárias. Mas protestamos contra a maneira como foram conduzidas: poderemos nós responder por uma política que não era a nossa? Sim, nós quisemos a expedição ao México, se bem que dirigida contra uma nacionalidade republicana, nós quisemo¬ la, porque importa não deixar tombar o prestígio da França, órgão supremo da Revolução. Sim, quisemos a livre troca pela honra do princípio, e porque não podíamos deixar dizer que a França receava a Inglaterra, não somente no mercado como nos campos de batalha. Sim, queremos que a Revolução continue armada, a República una e indivisível, porque sem exército a Revolução é incapaz de exercer entre as nações o seu mandato de justiceira; porque sem unidade a República não avança mais como um só homem: é uma multidão inerte e inútil. Mas nós queremos que o exército seja de cidadãos, e que todo o cidadão encontre a sua liberdade na unidade. – Miseráveis pensadores! Se a política seguida no Oriente e na Itália não era a vossa, porque aprovaríeis esses empreendimentos? Com que direito interviestes? Vocês falam de honra nacional: que existe de comum entre essa honra e as intrigas que prepararam, surpreenderam talvez, a intervenção no México? Onde aprenderam vocês a praticar a responsabilidade governamental? Vocês apoiam, a título de princípio, a livre troca. Seja: mas não lhe sacrifiqueis o princípio não menos respeitável da solidariedade das indústrias. Quereis que a Revolução permaneça armada: mas quem então ameaça a Revolução, se não vocês?

35) A diferença de regime económico e de mistura de raças, tendo desenvolvido nos Es¬tados Unidos duas sociedades divergentes, heterógeneas, cuja presença no seio da mesma confederação, devia parecer cedo ou tarde incompatível. A União devia por¬tanto ser desfeita, ou a escravatura abolida. Nada de mais simples que esta abolição, mesmo pela força, se o Norte a tivesse querido seriamente: Propor um plano de emancipação gradual, com compensação, no caso de recusa por parte do Sul, declarar, em nome da lei, os escravos livres, quer dizer CIDADÃOS dos Estados Unidos; bloquear os Estados escravagistas e acolher os fugitivos. Não haveria resistência possível à eficácia moral e material de um plano semelhante. Mas poderíamos prever que uma tão grande caridade ultrapassaria a virtude americana, tanto no Norte como no Sul. Não se pode exigir a uma raça mais do que o seu temperamento comporta: o Negro é inferior ao Branco pelo génio filosófico e pela beleza do rosto; talvez ganhe sobre os Anglo¬Saxões pela ternura do coração e pela docilidade. Evitemos aqui acusar a vontade humana das repugnâncias da natureza: não é esse o meio de criar a fraternidade entre os povos. A antipatia dos Anglo¬Saxões pelos Negros deve¬se ao carácter germânico, ao pudor natural das raças do Norte, ao seu espírito de família, que as leva a ter horror a qualquer fusão e cruzamento, como uma promiscuidade. A influência da Bíblia, que proíbe todo o comércio entre os puros e os impuros, reconhece¬se aqui igualmente. Seja como for, a Europa sabe hoje que as inten¬ções do Norte não são em absoluto transformar os escravos do Sul em cidadãos, em confederados, em irmãos, mas tão somente deportá- los, a palavra é do Sr. Lincoln, e substituí¬los por trabalhadores brancos; ou bem, se se recua diante de uma tão grande tarefa de transportar a duas mil léguas quatro milhões e meio de homens, de permitir aos que testemunharem o desejo de residir no país, mas numa condição inferior, o de párias. É por esta bela obra que se agitam as consciências nos dois hemisférios; é sobre esta decadência, tornada oficial desta vez, da raça negra, decadência bem mais profunda e irreparável que o servilismo actual, que se sonha em reconstituir a União. Eis o que patrocinam com ênfase, a imprensa liberal, a Democracia unitária, a ciência académica e a economia malthusiana. Era preciso informar o preconceito americano, vir em ajuda da incompatibilidade de sangue: temos insuflado a discórdia e aplaudido a hipocrisia. Não é esta liberdade do trabalho o digno contrapeso da livre troca? Com um generaliza e consolida¬se o proletariado; com o outro o monopólio, outrora localizado, torna¬se cosmopolita e estende¬se ao globo inteiro.

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