Declaração massiva e pública de negação ao serviço militar obrigatório: "Vamos pôr roupas de verão e não uniformes, vamos a um acampamento e não a um quartel"
Digamo-lo de uma maneira simples. Não nos agrada fazer a mili [serviço militar obrigatório]. Não queremos o exército seja para quem for nem para nada. Repudiamos este mecanismo de poder, de hierarquia, de disciplina total, de estupidez, de trituração da personalidade, da diferenciação, da particularidade. Um mecanismo que existe para exercer a violência sobre os outros, assim como sobre os mesmos “participantes” dele.
Estamos conscientes do papel que ocuparam os exércitos como assassinos ao longo da história, seja como conquistadores, forças de ocupação ou ultimamente como “forças de paz” e/ou “missões humanitárias”. Estamos conscientes também das medalhas do “nosso” exército. Do seu papel nas ditaduras, tanto antes da 2ª guerra mundial, como durante a ditadura de 1967-1974 na Grécia. Das suas missões internacionais na Ucrânia, na Coréia, na Bósnia, no Kosovo, no Afeganistão...
Se existe algum significado na palavra pátria, certamente é ódio pelo vizinho turco, da macedônia ou albanês… Sejamos trabalhadores, estudantes ou desempregados, somos forçados a engolir as bobagens sobre o respectivo interesse nacional, que estão servindo os mais ricos e a casta militar da Grécia (ainda que neste país a milicada seja débil e cada vez mais desvalorizada). E para nós tá claro, a frente de confrontação que escolhemos é contra o nosso patrão, contra o político vigarista que nos governa, contra os capitalistas do país que nos exploram e riem das nossas caras, contra todo o tipo de fascista da porta ao lado...
Ficamos putos com os gastos militares¹. Há dez anos que terminamos a escola, muitos já se formaram em uma dessas faculdades gregas, pouquíssimos conseguiram entrar no mercado de trabalho. Também não esquecemos das carências dos professores, as infra-estruturas inexistentes assim como os livros, em geral a falta de possibilidades profissionais... Já sentimos na pele o terrorismo do salário mínimo, do fardo de saber se vamos ou não buscar bônus no serviço social, já que nos deu muito trabalho superar a insegurança de ter ou não ter trabalho. Ao mesmo tempo, mais aviões militares voam cada vez mais alto e os navios de guerra navegam cada vez mais longe. Nenhum merda ou milico babão que fale dos inimigos da nação pode nos convencer da necessidade destes armamentos, destes gastos, sendo certo que o dogma “se queres a paz, prepara-te para a guerra” é uma das coisas mais doentias pensadas pelo cérebro humano.
Como é duro engolir o tal chamado papel social do exército. Um capítulo mais na forma linear da nossa vida. Um ano fora do mundo, longe de todos os que amamos, de tudo o que fazemos, das nossas lutas. E isto porque “as experiências do exército são insuperáveis”, ”o ambiente é fantástico” (só tristeza nos dão estas frases) e, sobretudo porque nos vão transformar em homens! Mas se o estado de ser homens é o que vocês são, fiquem sozinhos. Nós permaneceremos crianças, assim podemos buscar a nossa faceta feminina, ou qualquer outra.
Que sentido tem se não sairmos a gritar?
Sentimo-nos solidários com qualquer pessoa que se negue a integrar-se no aparato militar, que ponha em dúvida o serviço militar obrigatório, com sua ausência ou com qualquer outra atitude diferente ou alternativa. Sentimo-nos solidários com os que burlam o exército e saltam do barco ou escolhem outro barco. Já é tempo de recusarmos o exército politicamente, em público, como é devido. Acreditamos que é necessário romper o silêncio sobre este tema, criar uma ruptura no pensamento servil de que “assim são as coisas”... É necessário falar explicitamente da abolição do serviço militar obrigatório (pensando na eliminação do exército em si), repudiando-o diretamente, rechaçando todo o direito do Exército e do Estado para impô-lo. Deixemos claro e inegociável o nosso direito à consciente e comprometido uso do tempo, do estado de ânimo, do conhecimento e de qualquer capacidade nossa às ações sociais e aos setores sociais que priorizamos, compreendendo melhor que qualquer aparato hidrocéfalo de como podemos ser úteis...
Estamos contentes e animados com a nossa rede, e com a decisão espontânea de marcharmos de mãos dadas. Temos nos encontrado e estamos reunindo disponibilidades e forças para marchar, não como vocês gostariam, como algumas pessoas perdidas no presente e no caos dos acontecimentos, mas como coletividades, pequenas ou maiores, com solidariedade e confiança mútua, com um discurso agressivo e claro.
Nas listas de serviço militar obrigatório de maio e agosto de 2010, alguns de nós não vão comparecer nem vamos nos esconder. Vamos pôr roupas de verão e não uniformes, vamos a um acampamento e não a um quartel. Estamos conscientes das possíveis conseqüências e assumimos totalmente a responsabilidade da nossa escolha, recusamos veementemente nosso destino militar, mantendo intacta a nossa identidade política e social.
Maio de 2010.
Atenas, Tessalônica, Ioannina, Corinto...
[1] A Grécia é o país europeu que, nos últimos tempos, mais investiu em armamentos. Seu exército é um dos mais numerosos e mais bem equipados da Europa, na comparação com sua população (11 milhões de habitantes).
Tradução > Liberdade à Solta
agência de notícias anarquistas-ana
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