quarta-feira, outubro 06, 2010

Anarquistas no dealbar de Novecentos: O despertar dos famintos

O “despertar dos famintos”, que os anarquistas se encarregaram de ampliar e enquadrar no dealbar do século, está indissociavelmente ligado ao processo de desagregação e queda da Monarquia. Por João Madeira. Lead: O “despertar dos famintos”, que os anarquistas se encarregaram de ampliar e enquadrar no dealbar do século, está indissociavelmente ligado ao processo de desagregação e queda da Monarquia.

“A anarquia progride por todo o lado. O ano passado havia um só anarquista em Lisboa. Hoje, são já suficientemente numerosos para difundir milhares de brochuras e editar um jornal”1

Creio que a citação é relativamente conhecida. Trata-se de uma carta do militante anarquista Elisée Reclus, escrita de França, depois de uma segunda viagem a Portugal, em Abril de 1886.

Nessa altura, os anarquistas portugueses podiam ser suficientemente numerosos para aquelas tarefas de propaganda; a sua presença podia ter a expressão mínima que permitisse doravante falar em movimento libertário no país, mas estavam ainda efectivamente muito longe de serem hegemónicos no movimento social.

Terão, aliás, nesses anos até ao final do século, particularmente na última década de Oitocentos, grandes dificuldades de afirmação, emparedados que estavam entre um movimento sindical completamente hegemonizado pelo velho Partido Socialista Português e acossados por fortes bátegas repressivas com que o Governo reagia a um conjunto de acções violentas e atentados.

Na prática era a proibição das organizações e da imprensa anarquista. Era a chamada lei celerada, que João Franco, na altura ministro, tratara de fazer aprovar. O seu impacto seria tão forte que não se conseguiria mais livrar do seu espectro, mesmo quando quis revê-la, oito anos mais tarde, já como Presidente do Conselho de Ministros.

Dezenas, porventura centenas mesmo, de militantes anarquistas, ou suspeitos de o serem, foram assim deportados para Timor, Moçambique, para a Guiné… Muitos morreram por lá, outros só regressaram passados muitos anos, alguns tentaram fugas espantosas.

Em reacção, constituir-se-ia uma Liga contra a Lei de 13 de Fevereiro, funcionando na Confederação Metalúrgica, envolvendo associações de classe, mas também centros republicanos.

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