sábado, outubro 09, 2010

Do Totta à Vivo/PT

No debate Telefónica/PT, há ecos com dez anos. Quando António Champalimaud vendeu o banco Totta ao espanhol Santander, em 1999, proferiu a frase que Ricardo Salgado retoma agora sem citar o autor: «À excepção da honra, tudo se compra e tudo se vende».

No seu entusiasmo, o Expresso assegura em editorial que «o SantanderTotta é o maior banco da Europa e um dos maiores do mundo», confundindo a filial portuguesa com a casa-mãe (o Santander de Madrid), chegando mesmo a garantir que o banco «tem o português como língua oficial» (sic!). Para lá do culto do dinheiro e do culto do disparate, vale a pena revisitar o atribulado processo com que Champalimaud voltou a ser, 25 anos depois da revolução, o homem mais rico de Portugal.

ROQUETTE: O PRIMEIRO DESEMBARQUE ESPANHOL

Em 1989, Cavaco Silva privatiza a primeira tranche do Banco Totta & Açores (BTA). O banco espanhol Banesto compra a parte aberta a estrangeiros, mas organiza uma complexa aliança com José Roquette, formando a holding Valores Ibéricos (onde também estão as famílias Vaz Guedes e Moniz da Maia). Roquette é neto do fundador do Sporting que deu nome ao estádio José de Alvalade, um visconde lisboeta do final do século XIX. Administrador do BES até 1975, segue para o Brasil para dirigir o banco que o grupo funda com a ajuda da ditadura militar. Em 1989, Roquette vende a sua participação no BES (13%) e inicia um percurso autónomo, procurando dirigir um banco seu, coisa demasiado difícil perante o fechado núcleo familiar dos Espírito Santo (Roquette era apenas primo em segundo grau do comandante António Ricciardi, genro de Ricardo Espírito Santo).

No final do Verão, o Banesto tem 3,3% do Totta e a Valores Ibéricos, encabeçada por Roquette, 7,8%. Desde esta altura que fica registado, em acordo parassocial secreto, que o controlo do BTA era o objectivo do Banesto e que Roquette venderá a sua parte assim que a lei portuguesa o permita. Ainda neste ano, a Sonae e o Banesto anunciam em Lisboa um acordo em que, «mediante uma contrapartida adequada», como escrevem em comunicado, Belmiro de Azevedo aceita retirar-se da disputa pelo controlo do Totta. A aliança Banesto-Roquette passa a controlar 30% do banco.

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