segunda-feira, novembro 22, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

TESES SOBRE PROUDHON

VII

O grande objectivo dos homens é aprender a trabalhar.
O trabalho, longe de se opor ao progresso do pensamento, provoca-o e sustenta-o. Permite-lhe concentrar o seu foco na realidade total da vida humana. Para esclarecer a natureza de um trabalho que se inscreve simultaneamente numa perspectiva horizontal e vertical, a filosofia deve apelar para a ciência moderna tanto como para a antiga sabedoria, para a técnica revolucionária como para os valores essenciais. Só por este preço a filosofia do trabalho poderá dar conta da dupla dimensão do trabalho humano, que é devir histórico ao mesmo tempo que aventura espiritual.
Só o homem tem a faculdade de arquitectar um raciocínio.
É realizando a obra que o meu pensar se concretiza, se altera, se materializa, se constrói. Só tem sentido o pensar por causa de uma acção. Que conclusão tirar senão que o futuro está de algum modo nas mãos do homem, pois ele será como o homem o imaginar. Mas como derivação de condições materiais concretas.
A partir de agora, temos medo de repouso, a longa reflexão provoca quase remorsos. Pensa-se de relógio na mão, tal como se almoça com os olhos fixos na cotação da Bolsa. Vive-se como alguém que teme a todo o momento faltar a qualquer coisa. É preferível fazer seja o que for a não fazer nada, eis o princípio que também é uma corda que serve para estrangular toda a cultura e todo o gosto superior.
O pensamento socialista do século XIX, além de insistir na exploração a que o trabalho dava lugar sob o regime capitalista, sublinhara claramente a influência desmoralizadora que a divisão do trabalho exerce sobre o operário, qualquer que seja, aliás, o regime económico a que está submetido. A sua principal consigna era a organização do trabalho destinada não só a por fim à exploração como também a revalorizar o trabalho humano. Dir-se-ia mesmo que é a restauração moral do trabalho que suplanta, nos primeiros socialistas, todas as outras reivindica-ções. Proudhon, em particular, não cessa de recomendar uma reforma total do próprio trabalho. A questão social ficará em grande parte resolvida quando se conseguir o tédio e embrutecimento do trabalho parcelar pelo interesse e a alegria de um trabalho “seriado na sua divisão”. “O trabalho, escreve ele, como o Universo, como a Razão, só reveste formas puras e regulares se estiver agrupado, composto, seriado na sua divisão. Fraccionado em parcelas infinitesimais ou reduzido aos seus últimos elementos, o trabalho é para aquele que o executa algo de ininteligível, de embrutecedor, de estúpido.”
Esta solução toma o valor de uma profecia na nossa época, em que o emprego de aparelhos com múltiplos utensílios permite cada vez mais remodelar o trabalho. Tomar consciência desta nova tendência na técnica, favorecida pela electrónica e pela cibernética, é redescobrir o primado do homem e o valor do trabalho humano.
O triunfo do trabalho parece completo. É ele que comanda os instintos sociais, económicos e políticos do nosso tempo; é ainda ele que lhes forja a armadura cultural. pode-se, no entanto, perguntar se o seu reino não está doravante ameaçado pela história. A humanidade conseguiu libertar-se progressivamente do trabalho e substituí-lo pelo lazer. Não será conveniente retirar ao trabalho a importância que lhe concedêramos e atribuí-la ao lazer, que é a sua antítese? Situar-se-á a liberdade fora e para além do trabalho? Já Proudhon opusera ao tempo consagrado ao trabalho o tempo das “composições livres”. É apoiando-se na vida espiritual que o homem toma consciência da sua actividade. O trabalho que, segundo a bela definição de Proudhon, é “a emissão do espírito”, tende a deixar o espírito prisioneiro.
O trabalho transforma o mundo, enquanto o espírito o explica. A transformação do mundo não se pode realizar sem ser orientada por uma explicação do mundo. A explicação do mundo só se pode deduzir de uma transformação do mundo que a esclarece e justifica.

Sem comentários: