terça-feira, maio 06, 2014

Era uma vez uma porca limpinha

A porca. Comprada por três partidos que se puseram de acordo em pagá-la com o suor e com o sangue do seu povo, cortou nos salários o que proporcionou aos lucros e às rendas e chamou-lhe ajustamento. Deu aos grandes o que retirou aos pequenos, desmantelando serviços públicos para proporcionar fortuna a privados e chamou-lhe reformas estruturais. Destruiu a economia, alegadamente para fortalecê-la, e foi chamando sucesso aos fracassos sucessivos que foi acumulando no saco dos auto-elogios. Semeou fome e miséria para reequilibrar contas externas e vangloriou-se da cobardia a que chamou de coragem. Empobreceu e desempregou para melhorar a capacidade de pagamento de uma dívida que não se comoveu com as boas intenções do inferno da porcalhona e iniciou um galope desenfreado acelerado pela austeridade e pelos juros agiotas que a vão fazendo aumentar como nunca. Mesmo que se fosse embora – e não vai: ficam a mesma austeridade selectiva, uma multidão de desempregados aumentada em meio milhão de pessoas, uma dívida pública que cresceu 30% em apenas três anos, uma economia em fanicos, as “avaliações” periódicas e as mesmas regras de um Banco Central Europeu que não tem pejo algum em pôr países como Portugal à mercê da ganância da especulação financeira –, nem que fosse por ser uma porca tão comprovadamente porca, a besta teria sempre uma saída tudo menos limpa. A nossa não. Ontem, regressei a tempo de ouvir Pedro Passos Coelho com mais um aumento de impostos fresquinho num bolso e com mais cortes à espera de vez no outro a anunciar-lhe uma saída limpa. E sê-lo-á, limpinha, se nas eleições do próximo dia 25 os três que compraram e engordaram a porca puderem confirmar que quanto mais porcaria fizerem menos votos necessitam para se fazerem eleger. Será à escolha do freguês. Ou sujamos a porca, ou vamos ter que conviver com ela por pelo menos mais 20 anos, até pagarmos 75% do todo que custou o que a porca comeu até agora. E já sabemos que a porca não vai parar de comer. Era uma vez uma porca limpinha. A fábula que nos andam a contar até parece um conto infantil.

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