segunda-feira, janeiro 03, 2011

O NEGRO E O VERMELHO

A Importância de Proudhon na Cultura Portuguesa

Nos finais dos anos 60 do século passado, surge em Portugal um tipo de associação - a cooperativa - aí se verifica não a influência de Marx ou Bakunine mas de Proudhon. Aliás Marx é nesta altura um ilustre ausente e quanto a Bakunine só há nitidamente dois autores que se enquadram nos seus postulados: Eduardo Maia e Nobre França. Podemos já neste momento concluir, que quer a nível internacional e principalmente tendo em conta o movimento operário português não tem sentido reduzi-lo ao pseudo-combate marxista-bakuninista pois "deriva, primeiramente de uma série de limitações nacionais tais como: problemas teóricos, de estrutura organizativa e de composição social do proletariado português" como salienta Carlos da Fonseca na obra A Origem da I Internacional em Lisboa. Sublinhemos que antes de qualquer outro, foi Oliveira Martins que pôs o dedo no drama inicial do nosso vector socialista: a inexistência de indústria e, por via de consequência, a "ausência de numerosas classes operárias" (Portugal Contemporâneo, 1881), donde a impossibilidade de fazer uma revolução real. Sobre o período da Regeneração, dizia Oliveira Martins: "A Espanha teve Cartagena, a França teve ainda a Comuna de 71: nós tivemos umas greves apenas, por não possuirmos suficiente indústria fabril".
Para nos darmos conta da importância de Proudhon é importante exprimir o conteúdo da A.I.T. Poderíamos certamente dividi-la em dois grandes campos opostos: o dos "autoritários" e o dos "anti-autoritários." Embora estas expressões sejam utilizadas quer a nível teórico quer a nível prático correspondem a uma realidade histórica, são no entanto categorias que encerram conceitos um pouco imprecisos pois a A.I.T. foi uma miscelânea de partidários de Owen, Mazzini, Proudhon, Blanqui, Lassale, Marx, Bakunine, trade-unionistas, cartistas, etc. Só fazendo tábua rasa desta realidade, poderíamos aceitar a confortável tese das duas tendências, ditas principais, a marxista e a bakunitista. Já por aqui se aborda a importância fundamental de Proudhon pois na realidade a ideologia das secções de Paris era somente proudhoniana e a influência de Bakunine em França foi nula inclusive na revolta blanquista de Lyon em 28 de Setembro de 1870. O mesmo se pode dizer para o Marxismo em Inglaterra ou na Alemanha, onde as secções foram formadas por não marxistas. Já que se fala em Proudhon é necessário ter presente que a sua obra toca uma multitude de problemas que é urgente ter em conta: Em primeiro lugar, o regime económico, o problema do Estado, a Filosofia, a questão da Justiça e ainda os problemas internacionais e a questão nacional. As principais questões levantadas por Proudhon foram as seguintes: A crítica do capitalismo, onde se salienta a análise da propriedade e a análise das contradições económicas. As classes sociais, em que as classes que Proudhon se refere foram fundamentalmente a grande burguesia, a classe média, o campesinato e as classes operárias. A crítica do Estado. A crítica da Religião. A dialéctica e o seu objecto, onde se sublinha a dialéctica social e a realidade do social. A filosofia social, onde pontifica o trabalho como facto e como valor, a vida social e o problema da justiça. A revolução social. A economia mutualista, onde se tem que se ter em conta dos princípios às reformas, a agricultura mutualista, o artesanato da produção e a sua planificação.
Finalmente, temos o problema fundamental de todo este sistema, melhor dizendo, deste anti-sistema, porque não autoritário nem dogmático, que é a questão do Federalismo. É importante salientar que todos estes problemas serão abordados pelos pensadores portugueses da segunda metade do século XIX, destacando-se Amorim Viana, Oliveira Pinto, José Frederico Laranjo, Antero de Quental, Oliveira Martins, Silva Mendes, e os pensadores da C.G.T. como Manuel Joaquim de Sousa e Emílio Costa.
Logo em 1852, Amorim Viana e em 1853, Oliveira Pinto tecem já comentários contraditórios sobre Proudhon mostrando bem a influência decisiva que já começava a exercer na vida intelectual portuguesa. Vejamos o que diz Amorim Viana: “Proudhon é incontestavelmente uma das mais poderosas inteligências que nestes últimos tempos se tem distinguido em França. O tom acrimonioso dos que o pretendem combater e a tirania que desde 1849 tem sobre ele exercido o governo provam só, nuns impotência de refutar suas doutrinas, noutros receio que elas se compreendam e vulgarizem.”
E agora Oliveira Pinto: “Proudhon é a incarnação da contradição inerente à natureza do socialismo, escola de liberalismo, na qual a tirania é o primeiro princípio, e talvez a escravidão a última consequência. A inauguração do princípio socialista pelo poder, pelo governo, como a quer Louis Blanc, ou pelo povo, como a quer Proudhon, em nada altera o princípio, que como tal é o mesmo para todos.”
Quanto a Portugal o desconhecimento total das correntes socialistas é que pode atribuir uma decisiva influência a Bakunine sobre o movimento operário. Ainda a este propósito é importante salientar que o marxista Alfredo Margarido na obra A Introdução do Marxismo em Portugal 1850-1930 admite claramente que o maior obstáculo à sua penetração foram os adeptos de Proudhon quer a nível europeu quer a nível nacional. Apesar de tentar constantemente denegrir o pensamento daquele que pela primeira vez se afirmou anarquista, Alfredo Margarido não consegue evitar esta clarividência quando aborda Amorim Viana: ."..é o primeiro autor português a optar abertamente por Proudhon, desconhecendo, esquecendo ou recusando Karl Marx. Como se trata de uma opção que há-de manter-se na estrutura portuguesa, na teoria como na prática, convém retê-la e dar-lhe a importância que merece." Outro autor marxista, Vitor de Sá, critica igualmente Proudhon chamando-lhe socialista pequeno burguês. Apesar do esforço de alguns escritores modernos em denegrir o anarquismo proudhoniano, as suas ideias continuam sendo um marco, de onde temos de partir para escrever a história do socialismo e das lutas sociais em Portugal.
A revolução que em 1910 aboliu o tronco das Braganças foi mais obra dos sindicalistas, socialistas e dos anarquistas do que dos elementos republicanos, nesse tempo numerosos. Toda a propaganda foi durante o regime monárquico em prol das actuais instituições era moldada nos princípios libertários, e houve chefes políticos, como António José de Almeida, Magalhães de Lima, Botto Machado, Artur Leitão, Paneo Falcão, Basílio Teles e outros afirmaram no tablado dos comícios e na tribuna da imprensa que a "República seria apenas uma ponte de passagem para o regime da verdadeira Igualdade, Fraternidade e Liberdade." (Edgar Rodrigues, Breve História do Pensamento e das Lutas Sociais em Portugal).
Em 1919, Alexandre Vieira, na qualidade de primeiro director de "A Batalha" escrevia em forma de apresentação: "Com o aparecimento de A Batalha existe hoje a organização operária nacional, mercê de um rasgo de audácia e de coragem de um grupo de trabalhadores, eficazmente auxiliados no seu arrojado empreendimento pela Central de Sindicatos Portuguesa, a realização de uma das suas queridas aspirações que vem de longa data." Na Confirmação do que se acaba de dizer tenha-se presente que o Partido Comunista Português só surgiu em 1921 sob um forte impacto de solidariedade humana para com o povo russo que morria de fome!
A origem e o nascimento do Partido Comunista Português assumem um carácter quase original no processo de formação dos partidos comunistas europeus. De facto, enquanto na maior parte dos países o surgir de partidos comunistas se operou por cisões nos partidos socialistas filiados na II Internacional, em Portugal, a criação do P.C.P., deve-se ao esforço de alguns sindicalistas revolucionários, anarquistas e anarco-sindicalistas. "O partido socialista que foi fundado a 10 de Janeiro de 1875 raramente conseguiu ultrapassar a fase grupuscular e a própria evolução das expressões da luta de classes em Portugal vai acelerar o seu próprio fracasso definitivo em 1914 com a criação em Tomar, da União Operária Nacional " como nos diz César Oliveira na obra O Primeiro Congresso do P.C.P. Foram de facto os sindicalistas revolucionários e os anarco-sindicalistas que, organizados em torno dos sindicatos, das uniões de sindicatos, das federações de indústria, de algumas cooperativas e colectividades populares e sobretudo em torno de uma imprensa numerosa, e criteriosamente distribuída do ponto de vista geográfico, que vêm a constituir a espinha dorsal da União Operária Nacional, a primeira estrutura federativa, à escala nacional, das classes trabalhadoras portuguesas. Diz César Oliveira: "Como a organização anarquista portuguesa não era pública e tinha um funcionamento quase secreto e o partido socialista, enquanto força operária, era uma organização irrelevante, foram o sindicalismo revolucionário na U.O.N. e o anarco-sindicalismo na C.G.T. as ideologias dominantes no movimento operário."
Apesar dos erros criados, o sindicalismo revolucionário cuja expressão mais cabal encontra eco na U.O.N. e na C.G.T. criada em Setembro de 1919, foi a alternativa real nas condições concretas da sociedade portuguesa ao impasse a que cedo chegou a o partido socialista e isso é um facto indesmentível!
Escassos são os militantes que a partir de 1919 criam a Federação Maximalista Portuguesa sob o impulso da revolução de 17, que não são de modo algum a vanguarda de uma alternativa real e global surgida no seio do movimento operário português, nem sequer pode fazer concorrência à C.G.T. que de 1919 a 1922 não pára de crescer em filiados. De tudo o que dissemos, podemos resumir dizendo que até à década de 30 foi a C.G.T. a força dominante no movimento operário. O seu desaparecimento deve-se, em parte, a certas debilidades teóricas e à sua incapacidade em mover e organizar-se face ao fascismo a ao crescendo do P.C.P.
Magalhães Vilhena é outro autor marcadamente marxista que na obra António Sérgio, o Idealismo Crítico e a Crise da Ideologia Burguesa define o sindicalismo português, que ensaia os primeiros passos antes da proclamação da República e melhor se define nos alvores da Primeira Grande Guerra Mundial "pela sua estruturação apolítica apegada à tradição das lutas sindicais puramente económicas, ignorando que toda a luta de classes é uma luta política" e mais adiante na mesma obra diz estarem os "responsáveis portugueses do movimento operário e socialista desse tempo (1910) imbuídos de proudhonismo e marcados pela influência anarquista de Mikail Bakunine. "Segundo os estatutos da Confederação Geral do Trabalho " a orientação de A Batalha é inspirada na luta de classes sociais, fundamentando a sua doutrina nos objectivos da Confederação, consignados na capítulo I destes estatutos."
Vejamos, então, quais eram, os objectivos da C.G.T. pelo menos segundo a letra dos seus estatutos:

"1. O agrupamento, sob a base federativa autónoma, de todos os trabalhadores assalariados do país, para a defesa dos seus interesses económicos, sociais e profissionais, pela elevação constante da sua condição moral, material e física.

2. Desenvolver, fora de toda a escola política ou doutrina religiosa a capacidade de operariado organizado para a luta pelo desaparecimento do salariado e do patronato, e posse de todos os meios de produção.

3. Manter as mais estreitas relações de solidariedade com as centrais dos outros países, para a ajuda mútua, numa comum inteligênciação, que conduza os trabalhadores de todo o mundo à sua emancipação integral da tutela opressiva e exploradora do capitalismo."
Voltando à posição de Magalhães Vilhena, o aspecto mais importante que necessita de ser esclarecido é o da estruturação apolítica do sindicalismo revolucionário. Apolítica seria, com efeito, essa estruturação, no sentido em que, os sindicatos visavam mais longe do que aquilo que podia resultar do mero jogo partidário e parlamentar, manifestando-se, no entanto, decidamente política - mas sempre através dos meios directos de acção, com vista à revolução social ou à defesa das liberdades fundamentais.
Ambicionando a transformação da sociedade pela supressão do patronato e do salariado, o sindicalismo revolucionário não ignorava, não podia ignorar que "toda a luta de classes é uma luta política", discutíveis os meios de a empreender, por exemplo, para a abolição do Estado, que se queria substítuido pelo livre organização federativa de produtores e consumidores.
É óbvio, por tudo o que se disse, que o anarco-sindicalismo não ignorava certamente o conteúdo político da luta de classes, embora tenha repudiado sistematicamente o envolvimento em problemas partidários e eleitorais. Ganhou por aí prestígio e apreço dos trabalhadores. Não foi, no entanto, suficiente, tendo bem presente o que se passou em 1927.
Voltando ao século XIX concentremo-nos no autor que mais influência recebeu de Proudhon. Refiro-me a Antero de Quental. Em relação a Antero seria aliás relativamente fácil citarmos alguns excertos de estudos dedicados ao filósofo português onde se apresenta esta ligação umbilical com o filósofo francês. Vejamos alguns exemplos para a nossa exposição ser mais facilmente compreensível: "Antero tinha tal entusiasmo por Hegel e Proudhon que escrevia e dizia: Cristo, Proudhon e Hegel ! Ao proferir estes nomes, assumia um aspecto grave e os olhos exprimiam certa beatitude" (Bulhão Pato, Memórias) ou de José Bruno Carreiro na sua obra de 1948, Antero de Quental, onde a páginas tantas diz que: "Proudhon é citado em 17 páginas das Prosas, em 10 das Cartas, em 10 das Cartas Inéditas a Oliveira Martins e em 2 das Cartas a A.A. Castelo Branco. Na carta da página 15, contemporânea do primeiro escrito em que alude a Proudhon (1865) Antero dizia sentir-se como uma alma proudhoniana, capaz de dizer as verdades todas do sistema solar... quanto mais a este gentio nacional!"
Vejamos agora o que o próprio Antero de Quental diz de Proudhon: "O que me alegra intimamente é vê-lo por o pé na grande e sólida estrada da escola proudhoniana; por esse caminho vai-se direito e sente-se o terreno cada vez mais firme. Há oito anos que estudo Proudhon, e cada dia acho mais que aprender nele. Não fala só à inteligência, fala-me a todas as minhas potências humanas. Na convivência dum tal Mestre não se ficará tão sábio (quero dizer tão erudito, etc) como nas dos outros; mas adquire-se, como em nenhuma outra escola, a inteira compreensão do que é a grande verdade humana, social, nacional e efectiva.
Ora isto é que é o essencial, não lhe parece? Assim, pois, na comunhão da grande escola proudhoniana, saúdo-o, meu caro Magalhães Lima, e digo-lhe avante! Como a um irmão nas crenças. (carta de Antero de 1873 a Sebastião de Magalhães Lima).
António Sérgio dedicou muitas das suas páginas a Antero e a Proudhon. Vejamos alguns excertos significativos: "O revolucionarismo de Antero foi sempre de fundamentação ético-voluntarista, como o de Proudhon (com base na ideia de Justiça, em Proudhon; na ideia de Justiça e no Amor, em Antero) e não de fundamentação histórico-automático-dialéctica, como o de Carlos Marx." E também:
"A nota mais constante, no Proudhon e no Antero, fica sendo sempre a da afirmação moral - a do revolucionarismo ético, voluntarista, apriorista, Kanteano: - o contrário do que sucede na doutrinação do Marx, onde o tom fundamental é o do argumento histórico, empirista, dialéctico naturalista, heteronomista, fundado numa lei histórica que não é uma lei da consciência". E mais ainda:
"Proudhon, mestre de Antero, não concebe o socialismo como um conceito puramente económico: é a sua doutrina uma espécie de cúpula das concepções jurídicas da Democracia. Para Proudhon, os homens não precisam unicamente de acção organizadora e colectiva: requerem, outros sim, liberdade e cultura, - e não ao cabo de muito tempo, mas desde já. Dir-se-ia que o materialismo de Carlos Marx só aquela necessidade tomou em conta; Proudhon viu as duas, e Antero de Quental seguiu Proudhon."
Por estas citações e por mais uma mão cheia que ainda poderíamos apresentar, podemos desde já dizer que quando agiu, ou quando pensou sobre a realidade, Antero foi um proudhoniano. Foi Proudhon o principal agente da sua libertação ideológica, seguiu sempre com ele na acção e no pensamento, mesmo quando a síntese hegeliana se lhe apresentou.
Daí podermos concluir que no campo político nunca houve o embate de Hegel com Proudhon, o primeiro apologista do estado prussiano, o segundo do radicalismo e do socialismo realizados pela "Federação Democrática".
É na presença de Proudhon que o arrasta para fora das angústias religiosas e das perplexidades especulativas, que brotam os seus primeiros contactos com a filosofia.
Na nota final que escreve para as Odes Modernas, sobre a Missão Revolucionária da Poesia, Proudhon surge já então com toda a pujança. Está aí claramente proclamado "o ateísmo social e anarquismo individual" que emergiam sobretudo da Criação da Ordem na Humanidade, da Revolução Social demonstrada pelo Golpe de Estado e sobretudo do Da Justiça na Revolução e na Igreja, as obras de Proudhon que até então mais o deviam ter influenciado, embora sempre acompanhado de outras leituras de outros escritores revolucionários do tempo.
A concepção de arte de Proudhon está expressa com clareza na Nota Final das Odes Modernas, pois "a missão revolucionária da poesia" é apenas uma consequência do destino social da arte de Proudhon. Antero diz: "A poesia que quiser corresponder ao sentido mais fundo do seu tempo, hoje tem forçosamente de ser uma poesia revolucionária."
A acção académica de Antero já teve a direcção ideológica de Proudhon. Ao terminar o seu curso de Direito, Antero já era um socialista militante, ele próprio o reconhecia em carta a Anselmo de Andrade, datada de 1866. A vertente idealista proudhoniana colocava a doutrina e a ordem moral como a última etapa duma revolução, que partindo do cataclismo, da desordem e da confusão só depois de acções e reações sem conta, é que poderia ser realizada como grande renovação da Humanidade.
Quer dizer, em Antero eram a doutrina e a ordem que constituiam simultaneamente a cúpula e a base de toda a acção socialista, que partindo de um ideal devia realizar outro ideal. A sua experiência de operário foi um duro golpe no seu idealismo, mas ele continuou sem vacilar a luta pelo seu ideal socialista, isto é, pela doutrina e pela ordem moral. Ao regressar a Portugal ele vinha mais ainda fiel ao seu mestre, ao "grande Proudhon", como ele escrevia ao seu mais íntimo amigo, Germano Meireles, o cúmplice das Odes Modernas.
De regresso dos Açores, escreve o panfleto, "Portugal perante a Revolução de Hespanha", onde defende a Democracia Ibérica. Continua a demonstrar-se um proudhoniano convicto. Para Antero a "unidade" matava a "liberdade", a "delegação" a "iniciativa", a "organização unitária e republicana", a "república democrática". Para evitar a "República Unitária e Indivisível". À cabeça dos partidários da "República Democrática Federativa" como forma ideal de governo, estava Proudhon.
As causas que Antero aponta como as provocadoras da Decadência são: o catolicismo de Trento, o absolutismo e a questão económica, que surge como uma sequência das duas primeiras - emergem da filosofia proudhoniana. O ataque ao catolicismo é mais ou menos aquele que resulta Da Justiça na Revolução e na Igreja embora se encontre também a influência de outros autores.
O combate ao absolutismo é o combate ao poder unitário - republicano ou monárquico - que se opõe ao federalismo de Proudhon. O combate à estagnação económica, tem também, nitidamente a marca de Proudhon, ou melhor, é precisamente aí que o Proudhonismo de Antero salta mais evidente. O conceito de "concorrência" coincide num e no outro. Para Proudhon "Elle est l'impression de la spontaneité, l'embleme de la democratie, mas elle conduit au monopole que est anti-social." Para Antero " ela é espontânea - expressão de origem proudhoniana - mas é também anti-social e também conduz ao monopólio. Quer dizer, Antero é partidário do trabalho livre, a industria do povo, pelo povo e para o povo, "não dirigida ou protegida pelo Estado", e é tal concepção de origem proudhoniana, que se opõe à anarquia de livre concorrência."
Onde, no entanto, se pode ver mais claro do que em qualquer outro escrito, o socialismo proudhoniano de Antero, é no panfleto "O que é a Internacional". É quase totalmente, uma exposição ortodoxa da filosofia e do socialismo de Proudhon. Lá está a concepção colectiva da propriedade opondo-se à concepção individual, o que resulta da célebre premissa proudhoniana "La propriété c'est le vol". Lá estão os conceitos proudhonianos de naturalidade e de cooperação. Lá está o que Proudhon sustentou com mais veemência no seu livro Da Capacidade Política das Classes Operárias considerando o seu testamento político, sobre a luta de classes, isto é, a divisão da sociedade em dois grupos antagónicos, burgueses e proletários. Lá está a concepção proudhoniana do Banco do Povo, como chave de uma economia transformadora. Lá está a concepção da História e da conciliação ou pelo menos de que as classes trabalhadoras agindo pela Internacional devem ir procurando dirigir a evolução dos factores no sentido do seu socialismo. Isto é, no panfleto de Antero encontra-se tudo o que caracterize o colectivismo de Proudhon, eis porque ele o define: "Daqui o nome de "colectivismo" dado à doutrina. Não é comunismo, porque admite e garante a propriedade individual, a liberdade do trabalho, e o debate nos preços dos produtos. Não é também o individualismo estreito e egoísta, que em nome da liberdade Industrial, serve de máscara à profunda anarquia e injustiça de regime actual. É simplesmente o direito económico na sua realidade: o direito do individuo garantido pelo direito de sociedade. A cada um o que é seu."
Antero não escreveu, poder-se-à refutar, um panfleto onde expusesse as suas ideias políticas, pois, como ele próprio afirma, o seu panfleto era apenas um resumo das discussões e resoluções dos Congressos da Internacional em Genebra (1866), Lausana (1867), Bruxelas (1869), e em tais Congressos, sobretudo neste três primeiros, foi grande a influência dos proudhonianos, o que de resto era lícito esperar dele dadas as bases da sua cultura política.
Veja-se como elucidativo a seguinte passagem: “A questão hoje, para a filosofia política, reduz-se a isto: criar na sociedade esses diversos grupos, por onde se reparta a autoridade e se equilibre a força expansiva do centro, sem que por isso se altere a simplicidade íntima do meio social, a igualdade absoluta de direitos, filha da revolução democrática do século XIX.
Noutros termos: trata-se de conciliar a igualdade e a liberdade, cujo divórcio tem causado a ruína das mais heróicas repúblicas, o abatimento das mais florescentes democracias. Para isso o que é preciso? Criar tantos centros de autoridade local quantos forem os centros naturais da vida nacional.
Dito isto, o nome da coisa sai de todas as bocas: chama-se federação.
Estas palavras federação democrática resumem hoje o credo revolucionário, como há oitenta anos as de república indivisível resumiam as aspirações da geração heróica, mas pouco experiente, que criou na história a grande data de 1793.”
Ou ainda esta outra: “O sonho unitário dissipou-se. Uma amarga experiência lhes mostrou que a existência dessa entidade puramente geográfica de uma grande nacionalidade compacta não compensa a falta daquela outra entidade realíssima, necessária, vital, o cidadão livre.” Resposta de Victor de Sá no seu “Antero de Quental”: “A influência do ideário proudhoniano é nítida neste panfleto, como em quase todos os escritos de Antero.”
Nas conferências, quase tudo é Proudhon, efectivamente. Quando Antero diz a Teófilo que serão pelo governo do povo pelo povo, repete uma expressão que Proudhon usava. Quando Antero se pronuncia sobre o federalismo, e o apresenta como solução do problema político e combate os governos centralizados – é ainda Proudhon quem o guia, é o seu livro sobre o Princípio Federativo que o ilumina.
Antero é inimigo, como Proudhon, do Estado unitário e centralizador, e foi de Proudhon que tomou a tese do federalismo político e económico. A socialização, consoante essa tese, não deverá realizar-se pelo poder do Estado, mas ser buscada de uma maneira imediata pela federação económica dos produtores. Organizar-se-iam estes entre si, para fazerem a troca dos produtos das suas indústrias respectivas: obra progressiva, gradual, de autonomia moral e de capacidade técnica, que exige do escol dos trabalhadores um nível elevado de determinação consciente. Antero expôs o federalismo político no opúsculo Portugal perante a Revolução de Hespanha; o económico, no folheto sobre a organização da Internacional. O erro dos revolucionários, tendo em conta esse escrito, foi quererem realizar o ideal democrático pelos meios autocráticos da governação centralista.
Em todo o panfleto O que é a Internacional, Antero não sita sequer o nome de Marx ou de Engels e era natural que o fizesse, visto já nessa altura a concepção marxista do socialismo combater até nos próprios Congressos da Internacional, as concepções federalistas do socialismo. Inquieto como intelectual, insatisfeito como artista, Antero encontrou nas teorias proudhonianas, na sua veemente filosofia sociológica, um mundo de concepções, capaz de preencher os seus permanentes cepticismos metafísicos.
Nem o pensamento anteriano, nem muito do seu procedimento de militante socialista, poderão ser devidamente compreendidos pelas novas gerações, se não forem analisados em confronto com os de Proudhon. Quanto mais se conhecer Proudhon, melhor se compreenderá que Antero é a sua melhor tradução em português.
No caso específico de Eça de Queirós o realismo aparece na sua mente associado às ideias estéticas de Proudhon. Para ele, realismo é fundamentalmente Proudhon com uns pozinhos de Taine. Nunca ninguém se lembrará de aproximar as ideias estéticas de Proudhon do realismo literário. Tão pouco se tinha visto ainda aproximar as teorias do meio, de Taine das teorias sociais do autor Do Princípio da Arte.
Mas a conferência "A Nova Literatura " que Eça de Queirós apresenta no casino Lisbonense em 1871 subintitulada O Realismo como Nova Expressão da Arte não é somente uma exposição das ideias destes dois pensadores franceses. Antes de mais nada, foi uma crítica ao estado decadente das letras nacionais, embora sem descer a uma concretização positiva. Essa concretização fizera-a ele em As Farpas no seu estado social de Portugal em 1871, publicado precisamente dias antes da conferência.
Para Proudhon, o realismo ensinava simultaneamente ao artista a " exprimer les aspirations de l' époque actuelle " e a ter em conta que a arte é "une representation idéaliste de la nature et de nous-mêmes, en vue du perfectionnement physique et moral de notre espéce " Do Princípio da Arte e do seu Destino Social no que se opunha a Taine , que tinha por secundário o ideal moral. Para este, todos os temas eram dignos de ser pintados; para Proudhon, não. Associar, pois as doutrinas estéticas de Taine às de Proudhon era uma simbiose audaciosa que Eça de Queirós não receou levar a cabo .
Nas conclusões da sua conferência há afirmações expressas: Em primeiro lugar o Realismo deve ser perfeitamente do seu tempo, tomar a sua matéria na vida contemporânea. Em segundo lugar, o Realismo deve proceder pela sua experiência, pela fisiologia, ciência dos temperamentos e dos carácteres.
Mas principiemos pelo princípio. Proudhon, no Da Justiça na Revolução e na Igreja apresenta a Revolução como um vasto sistema filosófico em que se enquadra a sociologia, a política, a economia, a moral - e a própria literatura . No terceiro tomo dessa obra pode ver-se inclusivamente um estudo, o nono, em que o problema literário é focado ( cap. VII e VIII). Eça, literato, deve ter começado por aí. Nas Notas Contemporâneas pode ler-se o seguinte: " Sob a influência de Antero logo dois de nós, que andavamos a compôr uma ópera - bufa, contendo um novo sistema do Universo, abandonamos essa obra de escandoloso delírio - e começamos à noite a estudar Proudhon nos tomos da "Justiça na Revolução e na Igreja "...
Na verdade a sua conferência acusa pontos de contacto com essa obra. Há afirmações ácerca da revolução que são de lá . Aquela visão da literatura revolucionária, de Rabelais a Beaumarchais, é também de lá. Entretanto, Proudhon, que prometia aí um vasto estudo à parte sobre a literatura - vem a publicar, ou melhor, publicam-lhe os discípulos em obra póstuma - o Do Princípio da Arte e do seu Destino Social. Eça, encaminhado por aquela leitura, aconselhada por Antero procura agora o novo livro. E a conferência revela vastos pontos de contacto com ele .Este livro tinha saído em 1865 e era o primeiro duma série de póstumos.
Assentando todo em reflexões que a obra realista de Courbet lhe sugerira, Proudhon quisera sujeitar a arte ao pensamento dum destino social . A arte, dali para o futuro deveria ser condição de melhoramento das sociedades, e o realismo a sua expressão . Em três capítulos iniciais assentara nisto. A arte que fugisse desse ideal era falsa. Querendo demonstrar que, afinal, o papel da arte, sempre tinha sido esse - desde o IVcapítulo até ao X , fez um estudo interpretativo da evolução histórica da arte. Os oito capítulos seguintes são de análise à obra realista de Coubet. Nos restantes capítulos, do XIX ao XXV, dispendem-se argumentos e considerações que hão-de levar ao estabelecimento dum critério de criação artística em vista do seu destino social.
O Proudhonismo - incluindo o de Eça de Queirós - assenta em três noções fundamentais : a Consciência, a Justiça e a Igualdade. A Consciência e a Justiça são duas faces da mesma coisa. A Consciência é o sentimento que o sentimento que o homem tem de si, dos seus direitos e dos seus deveres . Mas esta noção Kantiana não basta a Proudhon, sociólogo: só lhe interessa o homem em grupo, e a equação de homem para homem. Ora cada homem, supõe Proudhon, sente como a sua própria, a dignidade e os direitos do seu semelhante; é a consciência objectivando-se - a que ele dá o nome de Justiça . A Justiça impõe o respeito recíproco e conduz inevitavelmente à igualdade, porque nos leva a exigir aos outros o mesmo que os outros exigem de nós e porque nos leva a respeitar os outros tanto como a nós mesmos, uma vez que a Consciência se tem de supor idêntica em cada um.
Por outro lado, desde que a Consciência é uma noção imediata, consubstancial à própria natureza humana, e a Justiça é a sua face social, tão inevitável como ela, é claro que a Igualdade se realizará fatalmente; e a Evolução não é que a sua realização progressiva. Por isso escrevia Oliveira Martins que a teoria do socialismo é a evolução. Nada impedirá que ela se ela se realize; mas essa realização será gradual e evolutiva. Por isso Proudhon não acredita em subversões perturbadoras, que, além do mais são uma violação do princípio da Justiça: "Revolução" é para ele sinónimo de Evolução no sentido de Igualdade; e propende a só considerar como sã uma sociedade desde que nela exista a par de uma inércia conservadora um impulso renovador evolutivo.
Em nome deste princípio da Justiça e desta lei da Igualdade critica Proudhon a organização social-económica da sua época, e nomeadamente a propriedade deveria ser tal que todos participassem nela, porque todos, em virtude da lei da Igualdade, têm o mesmo direito a ela. Isto não significa a supressão pura e simples da propriedade ou a sua colectivação, no pensar de Proudhon, mas antes a criação de um novo tipo de propriedade, que ele denomina "posséssion" que é no fundo, o usufruto do trabalho. À mesma crítica se presta a grande indústria, cujos meios de produção, segundo Proudhon, deviam estar nas mãos de companhias de trabalhadores.
Proudhon nega-se, portanto, a toda a organização estatista e à colectivização; e o seu ideal seria, concretamente, quanto à terra, a distribuição duma vasta colectividade de pequenos lavradores; quanto à produção industrial a transferência do capital e dos lucros para os próprios operários organizados. È a ideia base do cooperativismo.
Toda esta teoria a encontramos ao longo da obra de Eça de Queirós como membros dispersos, que, reunidos, permitem perceber o conjunto da construção.
A par dos objectivos da Revolução considera Eça o próprio processo da Revolução. E aqui a marca deixada por Proudhon aparece muito profunda - talvez por encontrar um eco em alguma coisa de pessoal e íntimo no escritor. Eça aceitou, compreendeu e glosou até ao fim da vida as duas noções fundamentais de Proudhon a este respeito: que a Revolução é uma evolução contínua e fatal - de modo algum um crise brusca; e que a Revolução se operará não já por uma transformação política mas por uma transformação puramente económica e técnica.
Proudhon é um dos monstros sagrados da Cultura Portuguesa, a partir dos meados do século XIX. Proudhon é um nome diabólico que enche de calafrios os portugueses de escol capazes de encarar o mundo das ideias, esse abstracto continente mental que produziu a prodigiosa transformação social e económica daquele século.
Raros são os nomes que se erguem no panorama literário nacional com autonomia e originalidade. Os dominantes são assás mais importantes por se terem transformado em veículos hábeis e inteligentes das ideias que irrompiam na Europa, no cérebro poderoso dos grandes inovadores. No mundo das ideias políticas e sociais, Portugal não apresenta um único representante autêntico do pensamento original. O Pombalismo, o Liberalismo, o Miguelismo, o Socialismo, o Republicanismo, o Integralismo, o Corporativismo são o reflexo de Correntes do pensamento político e social criadas na Europa. O próprio Democratismo, inicialmente filho do Enciclopedismo revolucionário e do laicismo cristão da Revolução Francesa, viveu sempre em Portugal na órbita do Liberalismo e do Socialismo Reformista. Só com a Renovação Democrática se emancipou daquele e se distinguiu deste – verdade seja que acusando igualmente influências estranhas, subterrâneas, irracionalistas, impressionantes pela forma abrupta como irrompiam na Cultura Portuguesa veios até então mal aflorados – um Nietzche, um Fouillée, um Bergson e mesmo, quiçá, novamente, o velho Proudhon...
Quando as próprias classes ilustradas da aristocracia e da igreja, em França, se mostravam permeáveis às ideias da Enciclopédia, refreava-se em Portugal a importação dos livros que podiam contaminar a opinião pública. Mesmo assim eles penetravam com os navios ou nos bolsos dos viajantes pois a verdade é que pululavam até há pouco no nosso País, as edições dos Rousseau, dos Voltaire e dos Montesquieu.
Os nossos constituintes aparecem impregnados de alguns socialistas como por exemplo Benjamin Considérant que têm também por essa época grande audiência em Portugal.
O fenómeno mais extraordinário, porém, da cultura política portuguesa, estava para se dar com a introdução do caminho de ferro. De envolta com uma caterva de sábios de nomes bárbaros e hirsutos, a transcenderem do plano superior da vida intelectual anglo-franco-germânica, aparecem a granel as brochuras amarelas de P. J: Proudhon. Não deve haver país algum no mundo, sem contar a França, naturalmente, onde ainda hoje se encontrem tantas edições originais deste genial pensador, nota singular que profundamente comprova a difusão que alcançou entre nós.
A influência de Proudhon distingue-se e penetra, a partir de 1850, nas principais gerações que se notabilizam na vida intelectual do país.
Contemporânea do aparecimento das suas obras capitais em França, a geração de 1850, através de alguns dos seus elementos intelectualmente mais distintos, logo se precipita em análises profundíssimas, de invulgar alcance filosófico e económico, sobre “As Contradições Económicas ou Filosofia da Miséria”, “A Criação da Ordem na Humanidade”, e outros livros seus, revelando um amadurecimento intelectual, que a vacuidade e superficialidade da crítica e da história posteriores deixaram cair no esquecimento.
Logo, quase sem descontinuidade, surge a geração de Antero e Oliveira Martins que lançam ao solo as primeiras sementes do socialismo de raiz proudhoniana como teoria científica e histórica.
E não se esqueça que contemporaneamente o Cenáculo organiza as conferências do Casino em que Proudhon é a eminência parda que da Sociologia à Arte e à Literatura, orienta e inspira, os seus promotores.
É flagrante o contraste entre a efusão entusiástica das ideias de Proudhon e a discreta reserva com que o sólido edifício do socialismo científico do alemão Karl Marx é recebido nos meios progressistas portugueses. E, de resto, esta desproporção não se manifesta exclusivamente entre nós tornando-se mais saliente com a posterior valoração do seu pensamento e a profunda revolução que a sua obra e a própria Razão histórica, lei inelutável das sociedades, que ele surpreendeu com genial intuição, veio provocar no Mundo – afirmando-o como o maior condutor de homens até hoje aparecido na História.
O pensamento proudhoniano não se contenta em impregnar as ideias de pensadores heterodoxos, invade mesmo as bancadas universitárias, pontificando de cátedra em Coimbra, através da teoria jurídica da mutualidade de serviços, apregoada nas aulas de Filosofia do Direito, entre 1858 e 1873.
Depois dos universitários, das dissertações pró e contra Proudhon, das aflorações do seu pensamento surge a terceira geração influenciada pelo grande panfletário e pensador francês.
Proudhon aparece então em tom oratório na palavra luminosa de Magalhães Lima. É a época das intervenções populares. Jornais, panfletos, comícios, manifestações públicas formam o quadro em que se desenvolve esta propaganda.
Uma nova geração vem depois, de cultura aprofundada no convívio da literatura libertária. – Alimenta no final do século a grande esperança na demanda do paraíso terreal. É a geração acrata. E novamente Proudhon...
Com a República, em veios mais ou menos profundos, surge sempre, aqui, no mutualismo, ali, na propaganda federalista, além, na edificação socialista ou na crítica ao Estado burguês – a lição, o espírito, o exemplo do grande sociólogo revolucionário – concorrente de Bakunine, de Kropotkine e de Marx.
E vai mais longe esta influência. Sem que disso se tenham apercebido muitos dos seus próprios apaniguados, alimenta a filosofia positivista, que encontrou em Portugal e Brasil, como é geralmente conhecido, o seu mais extenso domínio, nas ciências, na política e na estruturação da vida mental.
Quer dizer, debaixo do pensamento de Comte aparece ainda a influência de Proudhon.
Sabe-se que o Positivismo foi a corrente filosófica que maior influência exerceu no último quartel do século XIX em Portugal, invadindo Universidades e Escolas Superiores, fomentando revistas de cultura, projectando-se na política, armando de sólidos argumentos o verbo dos doutrinários no seu infatigável ataque às Instituições semi-caducas da monarquia representativa.
Pode-se dizer, sem exagero, que a influência do comtismo e seus publicistas é o facto mais relevante da vida cultural portuguesa nessa época – de que foi um retardado produto universitário, o positivismo jurídico, posto em voga, já na fase de decadência desse derivado do Racionalismo francês.
As reacções vieram de gente de formação acrata e dos poetas do inefável, dos líricos puros, da Renascença Portuguesa, por exemplo.
Em conclusão, a influência de Proudhon na cultura portuguesa é de tal natureza, que corre o risco de a não compreender com autenticidade quem ignorar o fundo papel que ele, com certa permanência, nela exerceu até ao limiar do nosso tempo.

domingo, janeiro 02, 2011

Porta-te bem senão levas!


Olá meninas eu estou aqui...


THE FUTURE NOW - Peter Hammill

No início de mais um ano - The Future Now - dedicado aos leitores do Anovis



The Future Now

Here we are, static in the latter half
of the twentieth century
but it might as well be the Middle Ages,
there'll have to be some changes
but how they'll come about foxes me.
I want the future now,
I want to hold it in my hands;
all men equal and unbowed,
I want the promised land.

but that doesn't seem to get any closer,
and Moses has had his day...
the tablets of law are an advertising poster,
civilisation here to stay
and this is progress?
You must be joking!
Me, I'm looking for any kind of hope.
I want the future now,
I want to see it on the screen,
I want to break the bounds
that make our lives so mean.

Oh, blind, blinded, blinding hatred
of race, sex, religion, colour, country and creed,
these scream from the pages of everything I read.
You just bring me oppression and torture,
apartheid, corruption and plague;
you just bring me the rape of the planet
and joke world rights at the Hague.
Oh, someday the Millennium!
But how far is someday away?
I want the future now
I'm young, and it's my right.
I want a reason to be proud.
I want to see the light.
I want the future now,
I want to see it on the screen,
I want to break the bounds:
make life worth more than dreams.

As mãos e os pés

O mito do lobo mau cai por terra!...


Porque é que as mulheres falam muito?

Proposta de explicação...



A intolerância religiosa e o sectarismo pio

A superstição seria irrelevante se não tivesse consequências. As crenças não passariam de convicções pessoais se os devotos não vivessem a desvairada tentação de converter os outros, de obrigar os agnósticos, ateus e cépticos e partilhar tolices individuais como dogmas universais.

As fogueiras ateadas pelos índios, para que a chuva caia, não diferem das procissões que os bispos e padres católicos organizam para o mesmo fim através das novenas.

Pedir a Santa Bárbara para amainar as trovoadas é incomparavelmente menos prudente do que instalar um pára-raios. A penicilina fez mais milagres do que as orações rezadas desde os primórdios da organização da superstição em negócios da fé. Morre mais gente nas peregrinações às grandes superfícies religiosas do que benefícios se colhem com as deslocações e oferendas.

Ninguém é prejudicado pelo facto de haver quem acredite que Cristo era filho de uma virgem ou que se dedicava à pregação e aos milagres numa altura em que as saídas profissionais eram escassas e a sobrevivência difícil. O que ninguém tem o direito é de impor que alguma pessoa se ajoelhe ou reze para agradecer uma prestação de serviços – a salvação da alma –, que ninguém lhe encomendou.

A liberdade é incompatível com as doutrinas totalitárias, políticas ou religiosas, e não há um só crente que não julgue ser a sua crença a única verdadeira. É neste clima inflexível que os crédulos de determinada fé se julgam no direito de converter os clientes de outra religião que dispute o mercado ou de perseguir quem recuse o paraíso.

A ICAR só reconheceu o direito à liberdade religiosa durante o concílio Vaticano II que B16 olha frequentemente com a mesma repugnância com que Maomé fita o toucinho.

Hoje, que a demência religiosa atingiu o auge com os talibãs, uma espécie de Opus Dei islâmica, em armas, exige-se aos Estados que defendam a laicidade para evitar que os avençados do divino impeçam os crentes da concorrência do legítimo direito à sua fé.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem tem de substituir-se às tolices com que o Antigo Testamento, a Tora e o Corão intoxicam crianças nos templos e madraças onde o clero mata a inocência predicando a xenofobia, a crueldade, a violência, o sectarismo e o espírito de vingança.

Estamos nas mãos de delinquentes

Estamos nas mãos de delinquentes ( conclusão da conferência do economista Arcadi Oliveres, catedrático da Universidade autónoma de Barcelona)

Estamos nas mãos de delinquentes - esta é a conclusão de Arcadi Oliveres, doutor em Ciências Económicas, e especialista em economia internacional, da Universidade autónoma de Barcelona. Para o comprovar o conferencista refere-se ao tráfico de armas ( do Norte para Sul) e de drogas ( do Sul para o Norte), da corrupção dos líderes políticos de vários países. Palavras importantes para quem queira entender o mundo actual

Invisíveis - explicação histórica da desigualdade de género


INVISIBLES - Igualdad de Género from ATTAC.TV on Vimeo.


O conceito de género tem a ver com a diferenciação social entre os homens e as mulheres. Tem a vantagem, sobre a palavra "sexo", de sublinhar as diferenças sociais entre os homens e as mulheres e de as separar das diferenças estritamente biológicas.
Os estudos das relações sociais de género foram bastante marcados pelo trabalho de investigação levado a cabo pela socióloga feminista norte-americana Jessie Bernard, que, em meados dos anos 40 do século XX, iniciou a abordagem da importância do "género" na organização da vida em sociedade. A obra mais conhecida desta autora, The Future of Marriage (1982), procura mostrar como é que o casamento constitui um contexto institucional de cristalização de normas, valores, papéis e padrões de interacção entre o homem e a mulher, que são ideologicamente dominantes e que subjugam e oprimem a mulher. Esse estudo tornou-se já um clássico, num dos domínios de investigação sobre as relações sociais de género que mais se tem desenvolvido: a divisão tradicional dos papéis sexuais e as suas repercussões ao nível da família e do trabalho, ou em relação ao domínio privado e ao domínio público.
A investigação sociológica no domínio das relações sociais de género centra-se em dois pressupostos de análise principais:
1) a posição ocupada na sociedade pelos homens e pelas mulheres não são apenas diferentes, mas também desiguais;
2) a desigualdade social entre homens e mulheres resulta, principalmente, da organização da sociedade e não de diferenças biológicas ou psicológicas significativas entre os mesmos.
Em relação ao princípio analítico de que não há apenas uma diferenciação socialmente construída entre homens e mulheres, mas também, e sobretudo, uma desigualdade social, isto significa que os estudos em função do género supõem que as mulheres têm menos recursos materiais, estatuto social, poder e oportunidades de auto-realização do que os homens com quem partilham a mesma posição social.
O género é, assim, considerado um elemento que condiciona a posição social dos indivíduos, tais como a classe, os rendimentos económicos, a profissão, o nível de escolaridade, a idade, a raça, a etnia, a religião e a nacionalidade. Neste âmbito, têm-se desenvolvido estudos sociológicos centrados na discriminação e na diferenciação social, em função do género, em diversas áreas da vida em sociedade, tais como, por exemplo, as desigualdades no acesso ao poder e ao emprego e na atribuição de rendimentos salariais.
No que respeita ao princípio de que as diferenças entre os dois sexos são sobretudo socialmente instituídas e não predeterminadas, o conceito explicativo principal é o de "socialização".
Por outras palavras, uma parte significativa dos estudos no domínio das relações sociais de género supõe que a diferenciação de comportamentos e de traços de personalidade consoante o género resulta de expectativas socialmente incutidas nos indivíduos desde a infância, pelas quais as crianças são socializadas no sentido de desempenharem diferentes papéis, "masculinos" ou "femininos". Basicamente, trata-se de investigar como é que, ao nível das interacções entre os indivíduos, são construídas e recriadas de um modo permanente as dicotomias entre o homem e a mulher. Neste domínio, são de salientar os trabalhos da socióloga feminista britânica Dorothy Smith (1987) e da teórica feminista francesa Luce Irgaray (1985), sobre o modo como as linguagens actuais estão dominantemente ancoradas em experiências e conceitos masculinos.

Julian Assange, os meus pais e a Lei de Espionagem de 1917

Voam como torvelinhos os rumores de que os Estados Unidos estão a preparar-se para acusar o líder do Wikileaks, Julian Assange, de conspiração para violar a Lei de Espionagem de 1917. A versão moderna da referida lei estabelece – entre muitas, muitas outras coisas – que: «Aquele que, com a finalidade de obter informação a respeito da defesa nacional, com intenção ou motivo para acreditar que a informação está a ser utilizada para o prejuízo dos Estados Unidos», provoque a divulgação ou publicação deste material, poderia estar sujeito a sanções penais maciças. Também estabelece que: «Se duas ou mais pessoas conspirarem para infringir qualquer das disposições anteriores […] cada uma das partes de tal conspiração estará sujeita à pena prevista para o crime que é o objecto de tal conspiração»

sábado, janeiro 01, 2011

O NEGRO E O VERMELHO

Da Razão Política ao Pacto Social em Rousseau e o federalismo de Proudhon

"Seja qual for a opinião de Hegel, o pensador da modernidade clássica não é Descartes, mas Jean-Jacques Rousseau.

François Chatêlet (35)


A investigação que há já alguns anos empreendemos sobre Proudhon e a problemática de Federalismo levou-nos a considerar que era importante ir mais longe, historicamente falando. Sabe-se da relação directa que encontramos em Rousseau versus Revolução Francesa versus ideologias políticas do século XIX. Neste sentido para obtermos, pelo menos para nosso uso pessoal, uma melhor compreensão do Federalismo político e económico em Proudhon entendido como sustento da democracia directa(36) consideramos imperioso a ida ao percurso da razão política(37) em Rousseau na tentativa de destrinçarmos os mecanismos do poder político para o filósofo do Contrato Social (38) que tanto influenciou a Revolução Francesa.
Da mesma maneira que, para o autor Do Princípio Federativo a democracia directa é algo aceite por todos, porque todos beneficia,(39) o pacto social que Rousseau nos apresenta no seu contrato é uma lei de aceitação universal: "Só há uma lei que, pela sua natureza, exige uma aceitação unânime; é o pacto social: porque a associação covil é entre todos os actos o mais voluntário; se todo o homem nasce livre e senhor de si mesmo, ninguém poderá, seja sob que pretexto for, escravizá-lo sem o seu consentimento. Decidir que o filho do escravo deve nascer escravo, é decidir que ele não nasça homem."(40)
A aceitação do contrato tem como consequência o facto de que a opinião da maioria obrigar todos os outros. Claro que esta questão levanta o problema de como pode um homem ser livre e simultaneamente ter de conformar-se com vontades que não são as suas? Rousseau responde de imediato e da seguinte maneira: "O cidadão aprova todas as leis, aquelas que não obtiveram o seu acordo e até as que o punem se não as respeitar. A vontade constante de todos os membros do Estado é a vontade geral; é devido a ela que são cidadão e livre." Mas Rousseau não se fica por aqui, e pretende esclarecer melhor este conceito de vontade geral. Ouçamo-lo: "Quando se propõe uma lei, o que se pede de cada um não é que a aprove ou a rejeite, mas se está ou não conforme com a vontade geral, que é também a sua: cada cidadão ao entregar o seu voto, dá assim a sua opinião e, pela contagem dos votos, se exprime a vontade geral. Quando vence a opinião contrária à minha, isso só prova que eu estava enganado e que o que eu considerava como sendo a vontade geral, não o era afinal. Se a minha opinião particular a tivesse vencido, teria procedido de maneira diferente daquela que tinha querido e então deixaria de ser livre."
Pelo texto pode verificar-se que o modo de produção da racionalidade política que é exposto no Contrato Social é através destes dois operadores conceituais: o conceito de contrato ou pacto social e conceito de vontade geral. É exactamente por causa do anterior que alguém disse (41) que Rousseau é responsável por uma verdadeira revolução copernicana no pensamento político ocidental e isto porque o corpo político deixa de se apoiar em instâncias externas de legitimação para passar a gravitar em torno da vontade geral dos homens que o constituem. Os actos políticos devem manifestar a liberdade de todos e cada um dos homens a que respeitam, o que corresponde a relegar os critérios do interesse comum à vontade dos próprios interessados. Neste sentido o grande problema de Rousseau consistes em definir os princípios de direito segundo os quais este direito seja realizável. Está portanto em causa o fundamento axiológico jurídico: em que condições de validade qualquer político pode legitimamente reivindicar-se como o direito de uma sociedade de direito?(42)
Se o conceito de pacto social originário actua como princípio fundante da associação política legítima, o conceito de vontade geral é o pressuposto hipotético da sua reprodução, ou sobrevivência, segundo a mesma lógica de legitimidade.
É claro que a questão continua a ser estritamente de direito, mas é também um daqueles domínios no qual as exigências do pensamento jurídico coincidem em vastas faixas com verificações elementares ao nível do bom senso.
Na verdade, parece evidente que "se a oposição dos interesses particulares tornou necessário o estabelecimento das sociedade, sem a concordância desses mesmos interesses, ela não teria sido possível.(43)
A conceber-se o corpo político como associação de vontades livres, desde que não subsista esse conjunto de interesses comuns passível de tradução em termos de legitimidade política a associação dissolver-se-à num enfrentar de particularidades em completa ruptura e onde poderá ser criada situações ilegítimas no sentido de imposição de particularismos por indivíduos ou colectivos de interesses particulares como lei geral.
Evidentemente que Rousseau não nega que isso tenha acontecido, que aconteça e que vá continuar a acontecer. Basta ver os capítulos da obra que falam sobre os abusos de governo e a morte do corpo político. Simplesmente, a sua noção de vontade geral não se pretende programa de acção política ou fenómeno de observação empírica, mas o pressuposto hipotético de sobrevivência de todo e qualquer corpo político constituído de acordo a normas de legitimidade racional.
Rousseau com clareza soube acentuar a qualidade específica do conceito em causa: "Frequentemente se estabelece uma diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta só atende ao interesse comum, a outra só escuta o interesse privado, e não é mais do que a soma das vontades particulares: mas retirai destas mesma vontades, os prós e os contras que entre si se anula, e restará a vontade geral, como soma dessas diferenças."(44)
O número de erros e de distorções ao nível da interpretação formado em torno deste tema é enorme, no entanto não nos vamos ocupar dessa questão aqui e agora.(45)
Vejamos então sinteticamente, depois do que foi dito, o que podemos concluir acerca de toda a problemática em causa.
O Contrato Social é, em primeiro lugar, uma pesquisa sobre a legitimidade do poder(46). Mas sendo livro de direito, e não de factos, não o podemos considerar uma recolha de observações sociológicas. As suas indagações dizem respeito aos princípios(47). E, por esse mesmo facto, já aqueles significam uma contestação. Parte do princípio de que a legitimidade tradicional, de suposta origem divina, não é adquirida.
Anuncia portanto uma outra legitimidade e outros princípios. O Contrato Social é também um catecismo do qual possui o tom e a linguagem dogmática. Rousseau leva até aos limites lógicos a teoria co contrato que encontramos em Hobbes. O Contrato Social expande-se largamente, procedendo além disso a uma exposição dogmática quanto à nova religião, cujo deus é a razão confundida com a natureza e o seu representante na terra, em vez do rei, o povo considerado na sua vontade geral.
O ataque contra a ordem tradicional é tão evidente que, a partir do primeiro capítulo, Rousseau empenha-se em demonstrar a anterioridade do pacto dos cidadãos, que estabelece o povo, em relação ao pacto do povo e do rei, que funda a realeza. Até então, Deus fazia os reis que, por sua vez, faziam os povos. A partir do Contrato Social, os povos fazem-se a si próprios antes de fazerem os reis. Quanto a Deus, já nem dele se fala, provisoriamente. Na ordem política, encontramos aqui o equivalente da revolução de Newton. O poder deixa portanto de ter a sua origem no arbitrário, passando a depender do consentimento geral. Por outras palavras; já não é o que é mas o que devia ser. Por felicidade, segundo Rousseau, o que é não se pode separar daquilo que deve ser. O povo é soberano pela razão de ser sempre o que deve ser. Perante esta petição de princípio, pode bem dizer-se que a razão, obstinadamente invocada por esse tempo, não se encontra nele, apesar de tudo, bem tratada. É claro que, com o Contrato Social, assistimos ao nascimento de uma mística em que a vontade geral é postulada como o próprio Deus.
Essa pessoa política, convertida em soberana, é igualmente definida como pessoa divina. Da pessoa divina, possui ela, de resto, todos os atributos. Com efeito, é infalível, pois o soberano não pode desejar abusos. Ela é totalmente livre, se na verdade a liberdade absoluta é a liberdade quanto a cada um.
Rousseau declara assim que é contra a natureza do corpo político que o soberano se imponha uma lei que não possa infringir. Ela é igualmente inalienável, indivisível e, finalmente, visa mesmo a resolver o grande problema teológico, a contradição entre todo o poder e a inocência divina. Com efeito, a vontade geral impõe-se; o seu poder é sem limites. Mas o castigo que ela imporá àquele que recuse obedecer-lhe não é mais de que uma maneira de o "forçar a ser livre". A deificação extingue-se quando Rousseau, afastando o soberano das suas próprias origens, chega a distinguir através disso a vontade geral de todos. Eis o que se pode definir logicamente das premissas de Rousseau. Se o homem é naturalmente bom, se nele a natureza se identifica com a razão, ele exprimirá a excelência da razão desde que se exprima livre e naturalmente. Não pode portanto revogar a sua decisão, que daí em diante o ultrapassa. A vontade geral é em primeiro lugar a expressão da razão universal, a qual é categórica. Assim nasceu o novo Deus.
Eis porque as palavras que mais frequentemente se encontram no Contrato Social são as palavras "Absoluto", "sagrado", e "inviolável". Assim definido, o corpo político, cuja lei é um mandamento sagrado, não passa de um produto de substituição do corpo místico de cristandade temporal. O Contrato Social acaba, de resto, com a descrição de uma religião civil e faz de Rousseau um percursor das sociedades contemporâneas, que não só excluem a oposição como a própria neutralidade. Nos tempos modernos é com efeito Rousseau o primeiro a instituir a profissão de fé civil. Também o primeiro a justificar a pena de morte numa sociedade civil e a submissão absoluta do indivíduo à realeza do soberano, Há passagens significativas em que se estabelece firmemente que é preciso saber morrer se o soberano o ordenar e que se deve, se necessário, dar-lhe razão contra si próprio.
Esta noção mística justifica o silêncio que Saint-Just manteve, desde que foi preso até à subida ao cadafalso. Conveniente desenvolvida, ela explicará também os réus entusiastas dos processos estalinistas.
Encontramo-nos aqui na aurora da uma religião, com os seus mártires, os seus ascetas e os seus santos. É o momento da fé deslumbrada e generosa, o momento em que um povo admirável derruba em Versalhes, em 1789, o cadafalso e a roda. Os cadafalsos assumem nessa altura o aspecto dos altares da religião e da injustiça. A nova fé não os pode tolerar, Mas chega um momento em que a fé, ao tornar-se dogmática, erige os seus próprios altares e exige a adoração incondicional-
Então os cadafalsos reaparecem e, apesar dos altares, da liberdade, dos juramentos e das festas da razão, as messes da nova fé irão celebrar-se num banho de sangue. É o período tristemente célebre que ficou na História com o nome de O Terror. Proudhon, leitor do Contrato Social compreendeu tudo isto muito bem. E a proposta federalista, em termos políticos e económicos que é também, obviamente, um pacto social (48) que Proudhon nos apresenta a partir dos anos 40 e até ao fim da sua vida em 1865 reflecte e um vontade individual(49)(50) de compreender o real de um modo diferente, porque a realidade reflecte-se na consciência dos homens duma maneira diferente. A critica à sociedade capitalista por um lado, e o Federalismo como possibilidade activa de solver os problemas humanos dando-lhes um rumo diferente por outro, são os pontos extremos da original concepção cientifica desenvolvida pelo cidadão de Besançon.
Concepção científica, porque não determinista e não dogmática, nem no plano político nem no plano económico, ou seja, uma possibilidade constante, porque activa de entender dum modo previsível as relações sociais. Por isso o Federalismo Proudhoniano mantém-se como teoria e como prática (fundamentalmente como prática, porque toda a teoria só tem sentido se for acompanhada duma acção material e concreta, logo objectiva) como válido, para responder aos grandes problemas e às grandes interrogações do homem contemporâneo.

culpado eu?


Piscina ecológica?


casal ideal?


Pouca vergonha!





Superstição e atraso numa reivindicação justa

Autarcas e população de Coimbra, Lousã e Mirando do Corvo seguem em marcha lenta até ao Santuário de Fátima em protesto contra o fim das obras do MetroMondego. Vão pedir à Virgem para que este processo se resolva e rezar para que o Governo seja responsável, diz Jaime Ramos.

[Vamos a Fátima] rezar para que o
Governo passe a ter atitudes responsáveis, que deixe de fazer este terrorismo de Estado que tem estado a fazer contra Coimbra”, afirma o antigo governador civil de Coimbra.
P.S. Com cidadãos destes não vamos lá...até parece que estamos na idade média...

O que desejo para 2011

Desejo para 2011 e para todos os anos desde a minha maturação política em 1975...A máxima mais conhecida e objectiva e sintética de todos os anarquistas...


Nem deuses nem chefes!...


“Ser governado é: ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legisferado, regulamentado, depositado, doutrinado, instituído, controlado, avaliado, apreciado, censurado, comandado por outros que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude.

Ser governado é: ser em cada operação, em cada transação, em cada movimento, notado, registrado, arrolado, tarifado, timbrado, medido, taxado, patenteado, licenciado, autorizado, apostilado, admoestado, estorvado, emendado, endireitado, corrigido.

É, sob pretexto de utilidade pública, e em nome do interesse geral: ser pedido emprestado, adestrado, espoliado, explorado, monopolizado, concussionado, pressionado, mistificado, roubado;

Depois, à menor resistência, à primeira palavra de queixa: reprimido, corrigido, vilipendiado, vexado, perseguido, injuriado, espancado, desarmado, estrangulado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, para não faltar nada, ridicularizado, zombado, ultrajado, desonrado. Eis o governo, eis sua justiça, eis sua moral!

E dizer que há entre nós democratas que pretendem que o governo prevaleça; socialistas que sustentam esta ignomínia em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade; proletários que admitem sua candidatura à presidência! Hipocrisia!...”

Proudhon

A crise gaguejante do euro

Após a Grécia, a Irlanda, ...

O jogo do massacre começou: a crise financeira irlandesa reproduz o esquema do da Grécia e abre o caminho para os seguintes, Portugal e outros. Para pagar as suas guerras no Afeganistão e no Iraque, os Estados Unidos optaram por monetarizar a sua dívida pública, ou seja, repassar as suas facturas ao resto do mundo. Este afluxo de liquidez permite às elites capitalistas devorarem presas cada vez mais gordas. Depois de ter pilhado o terceiro mundo, elas podem finalmente atacar o euro. Mas, ao invés de impedi-las, o Banco Central Europeu favorece-as em detrimento das populações europeias — doravante restritas às políticas de austeridade.

Porque é que as políticas do governo Zapatero devem mudar

Este artigo mostra evidência empírica que questiona as teses que sustentam que as políticas de austeridade que se estão a promover pela UE e pelo FMI, e que se estão a desenvolver por parte do governo espanhol sejam as necessárias para estimular a economia (com base na redução do défice público). O artigo assinala também como a recuperação económica alemã não se deve, contra o que sustentam aquelas teses, a tais políticas de austeridade, mas a políticas de expansão de despesa pública do próprio estado alemão e dos países (Leste Asiático, China e EUA) que importaram os seus produtos. O artigo mostra também como as políticas expansionistas da despesa pública da Administração Obama foram responsáveis pela recuperação económica estado-unidense. A segunda parte do artigo analisa as causas de Espanha ter um défice tão grande e um crescimento tão lento, destacando entre elas, a natureza e fontes da despesa pública e a regressividade fiscal do Estado espanhol, características que se dão também nos outros países PIGS. O artigo finaliza assinalando que a deterioração tão acentuada das expectativas eleitorais do governo Zapatero deve-se precisamente à adopção de políticas de austeridade de sensibilidade neoliberal que provocaram a deterioração e quase colapso da Terceira Via na Grã-Bretanha e do governo Schroeder na Alemanha.

A TINA de Sócrates

A mensagem de Natal de José Sócrates não escolheu menos do que o mesmo raciocínio de Margaret Thatcher para legitimar, em vão, a política do Governo.

O rosto político mais destacado da ruptura neoliberal na Europa dos anos 80, Margaret Thatcher, projectou o seu arrogante combate aos direitos sociais fundamentais numa frase afrontosa para a democracia: «There is no alternative». O acrónimo TINA ficou como divisa desse estilo e do credo político que ela protagonizou.

O NEGRO E O VERMELHO

A Dialéctica Proudhoniana como Método e como Movimento real da Sociedade

Vamos empreender uma análise sobre a concepção de dialéctica de Proudhon. Proudhon é extremamente hostil à dialéctica hegeliana. Critica-a não só no fundo como nas aplicações. Claramente formulada nas obras de maturidade, toda a obra de Proudhon está de facto impregnada desta hostilidade. "A antinomia não se resolve; é nisto que reside o vício fundamental de toda a filosofia hegeliana. Os dois termos que compõem a antinomia oscilam, quer entre si, quer entre outros termos antinómicos; o que conduz a novos resultados" (De la Justice dans la Révolution et dans l'Église - vol.IV, 1858, p.148) "Os termos antinómicos não se resolvem, como os pólos opostos de um pilha eléctrica não se destroem. O problema não está em encontrar a fusão deles que seria a sua morte, mas o seu equilíbrio sempre instável, variável segundo o próprio desenvolvimento da sociedade" (Théorie de la Propriété, 1865, p.52) "O equilíbrio instável entre os dois termos, não nasce de um terceiro, mas da sua acção recíproca." Numa palavra, "a fórmula hegeliana só é uma tríade por prazer ou erro do Mestre, que se vê três termos onde só existem dois e que não viu que a antinomia não se resolve, mas que implica quer uma oscilação quer um antagonismo, os únicos susceptíveis de equilíbrios. Deste ponto de vista, todos o sistema de Hegel deveria ser refeito." ( De la Justice dans la Révolution et dans l'Église, 1958, Vol.I, pp. 28-29).
A Síntese de Hegel, "suprimindo" e mantendo simultaneamente a tese e a antítese (aufheben: eis o erro dos tradutores utilizados por Proudhon que escrevem também "absorvendo") é governamental. É, acrescenta Proudhon com muito mais subtileza, "anterior e superior aos termos que une". É ela, escreve, que conduz Hegel "à prepotência do Estado" e "ao restabelecimento da autoridade" (La Pornocratie, 1875). "Hegel chegava com Hobbes ao absolutismo governamental, à omnipotência do Estado, à subalternização dos indivíduos e dos grupos. Pergunto-me se, devido a esta faceta da sua filosofia, Hegel conservou um único partidário na Alemanha. Mas posso dizer que falar assim... é desonrar a filosofia." (Guerre et Paix, 1861).
À dialéctica hegeliana, Proudhon opõe outra, a sua. Esta não é apenas uma dialéctica antinómica, negativa, antitética, que rejeite qualquer síntese; é um método dialéctico que se propõe procurar a diversidade em todos os seus pormenores. Ora a diversidade em todos os seus pormenores só pode ser captada pela experiência. Neste sentido, o método proudhoniano aproxima-se duma dialéctica empírico realista. Em Proudhon o método dialéctico conduz a uma experiência sempre renovada, lança-se num pluralismo que neste autor é sempre mais realista. Por etapas e com uma clareza crescente, Proudhon faz notar que o movimento dialéctico começa por ser o movimento da própria realidade social e só depois um método para seguir as sinuosidades deste movimento. Tem cada vez mais consciência de que as complementaridades, as implicações mútuas e as reciprocidades de perspectivas são tão reais como as polarizações e tão indispensáveis como processos dialécticos, como o estabelecimento de antinomias.
Mas o empirismo e o realismo dialécticos de Proudhon têm limites. É que, através da sua dialéctica, procura "a reconciliação universal pela contradição universal" e esta reconciliação efectua-se através de equilíbrios. Apesar do reconhecimento da sua instabilidade e da implicação de esforços sempre novos, as antinomias vão-se completando e equilibrando, por vezes demasiado facilmente, encobrindo amiúde, pela sua inflação, os outros movimentos e processos dialécticos.
Assim, apesar de todos os pressentimentos que Proudhon tem da extrema complexidade do movimento próprio à realidade social e da pluralidade dos processos dialécticos necessários para a estudar, na sua variedade e diversidade, não evita o seguinte erro: a sua dialéctica cai por vezes num pluralismo de tal maneira bem ordenado, bem integrado, bem equilibrado que se admite que essa integração e esse equilíbrio tenham sido pré concebidos.
Logo na primeira obra que escreve, De la Célabration du Dimanche de 1839, Proudhon declara que o seu método consiste em "procurar equilíbrios na diversidade", que este método se propõe por a nu todas as diversidades efectivas e, após ter desenvolvido mais esta descrição, estudar a possibilidade de integrar estas diversidades em conjuntos, em totalidades, também múltiplas, mas em que pudessem equilibrar-se as diversidades do mesmo tipo, Isto conduz por um lado a totalidades não hierárquicas, donde é excluída qualquer "subalternização dos elementos componentes", e por outro, a pluralidade de totalidades entre as quais podem igualmente ser procurados equilíbrios.
Esta tese encontra-se desenvolvida com mais precisão em La Création de l'Ordre dans l'Humanité. Nessa obra, Proudhon fala da "intuição das diversidades e das totalizações na sua divisão. Estas diversidades e estas "totalizações são irredutíveis. Existe uma independência das diversas ordens de série e a impossibilidade de uma ciência universal...
Impõe-se a multiplicidade dos pontos de vista como na realidade social se impõe a multiplicidade dos grupos e a pluralidade dos conjuntos sociais em que estes estão integrados. "Resolver a diversidade actual numa identidade, é abandonar a questão", o que fizeram Schelling e Hegel.
A procura das diversidades e integração destas em totalidades em que se equilibrem poderia evocar o pan harmonismo de Leibniz, cuja dialéctica se reduzia ao estudo da "unidade numa variedade tão vasta quanto possível". De facto, Krause e Ahrens (de quem Darimon, um amigo de Proudhon, foi discípulo) concebiam o método dialéctico como uma "via ascendente de análise que termina por um conhecimento de totalidades das variedades." Mas Proudhon que conhece Leibniz e muitas vezes o cita, toma todas as precauções necessárias, tanto em La Création de l'Ordre como em De la Justice, para opor a sua dialéctica, que concebe simultaneamente como movimento da realidade social e como método, a todo e qualquer harmonismo. Protesta contra a ideia leibniziana de uma ordem transcendente e contra a ideia optimista de uma harmonia pré-estabelecida entre nómadas irredutíveis. "A ordem", ou mais exactamente, a coerência na multiplicidade dos conjuntos, só se realiza graças a esforços penosos da humanidade e através das antinomias de grupos e de classes. Um dos principais aspectos dessa luta prometeica consiste no facto de "a marcha da sociedade se medir sobre o desenvolvimento da indústria e sobre o aperfeiçoamento dos instrumentos".
Segundo as observações de Proudhon em De la Justice..., o que falta a Leibniz não é apenas a pluralidade efectiva dos conjuntos e a marca humana que estes possuem, são igualmente as antinomias insolúveis, as únicas que podem conduzir à verdadeira irrefutabilidade e a um pluralismo consequente.
A dialéctica proudhoniana precisa-se melhor nos dois volumes das Contradictions Economiques (1846). Proudhon começa por se esforçar para tornar esta dialéctica tão realista quanto possível. O método das antinomias deve ser aplicado não só às doutrinas e às ideias, mas ainda com muito mais cabimento às realidades sociais que as engendram e que estão elas próprias em movimento dialéctico, o que se verifica sobretudo nas usa manifestações económicas. Já no Premier Mémoire sur la Propriété, Proudhon insistia na impossibilidade de se compreender a vida económica sem se seguir o movimento dialéctico real desta. Recordemos as fórmulas de Proudhon: " A propriedade é o produto espontâneo da sociedade e a dissolução da sociedade... A propriedade é o preço do trabalho e a negação do trabalho... A propriedade é a liberdade, a propriedade é o roubo." Acontece portanto com a propriedade o que acontece com o Estado: encarados fora de um quadro social preciso, são apenas abstracções perniciosas que prejudicam o homem, os grupos, as classes e as sociedades e os conduzem a alienações; encarados como elementos relativos e móveis, no seio de um conjunto social em movimento, encontram-se em perpétua transformação e podem modificar-se inteiramente e participar em equilíbrios imprevistos.
Um outro aspecto do movimento dialéctico próprio à realidade social é das forças colectivas. Estas forças colectivas são irredutíveis às forças individuais assim como à soma destas últimas, pois os esforços interpenetrados num grupo, numa classe ou numa sociedade produzem forças centuplicadas. Ora, estas forças colectivas podem tornar-se destruidoras, opressivas e ameaçar a existência da própria sociedade e sobretudo a força criadora deste. Só pela afirmação do elemento antinómico constituído pela "razão colectiva", que dirige as forças colectivas e luta contra aos abusos destas, estas forças se tornam forças produtivas e criadoras. Mas a própria razão colectiva, desligada das forças colectivas, não passa de uma quimera ainda mais perigosa que a razão individual. Além disso estabelece-se uma dialéctica entre a "razão colectiva" e as ideias e ideais colectivos assim como entre a "consciência colectiva" e a "razão colectiva", facto de que Proudhon não se dá conta. É o movimento dialéctico entre as forças colectivas. as ideias e os ideais colectivos, as suas interpenetrações e lutas constantemente renovadas, o seu processo de "totalização" enfim, que constituem a trama efectiva da realidade social, cuja dialéctica não se reduz de modo algum, apenas às antinomias. A realidade social não se reduz unicamente ao jogo das forças colectivas - pois as forças colectivas podem criar ideais e valores que nelas se integram, tornando-se então capazes de as guiar. Este é em particular o caso do trabalho colectivo na sua luta contra a alienação.
A dialéctica entre forças colectivas, razão colectiva, ideias e ideais colectivos realiza-se no esforço colectivo produtivo e criador que se manifesta particularmente no trabalho e no movimento deste para a desalienação. O mito de Prometeu, a que Proudhon recorre insistentemente, não só em Les Contradictions Économiques como em De la Justice..., aplica-se essencialmente à dialéctica do trabalho que é segundo as circunstâncias, a maior alegria e o maior dos sofrimentos; porque o trabalho é simultaneamente o instrumento da libertação do homem e a ameaça constante da servidão deste. É por isso imensamente doloroso que o esforço de Prometeu seja o símbolo do trabalho. No trabalho, o homem é demiurgo. "O trabalho, análogo à actividade criadora, é a emissão do espírito..., é o grande triunfo da liberdade." Por outro lado, o trabalho torna-se pena sem limites quando é inteiramente escravizado e alienado.
A alienação ameaça constantemente o trabalho. Esta ameaça é tanto mais pesada quanto o homem "morre devido ao trabalho", porque "trabalhar é ganhar a vida", e a alegria que o trabalho procura nunca é inteiramente pura. A dialéctica inerente ao trabalho torna-se trágica quando "a organização do trabalho" é imposta de cima aos trabalhadores, quer através da vontade de proprietários ociosos (feudais e padres), quer pela de patrões e pelas coligações destes (feudalidade industrial) ou pela do Estado e dos seus funcionários (burocratas). As antinomias próprias ao trabalho não podem ser inteiramente resolvidas, mas a resolução social pode tirar-lhes o que têm de particularmente intolerável, instituindo a autogestão operária, fundamento da democracia industrial destinada a, de uma forma descentralizada, planificar a economia e, assim, a limitar o Estado completamente transformado.
Proudhon certamente, pensa demasiado como jurista: na engrenagem da realidade social atribui um papel demasiado importante ao direito, em especial, por um lado ao direito igualitário e mutualista, por outro, ao direito social autónomo e de preferência espontâneo. Opõe-os ao direito individualista e ao direito estatal, derivados do direito romano tradicional.
O movimento dialéctico real da sociedade, da economia e do trabalho exige um método, não só para estudar estas realidades em todas as suas sinuosidades, mas também para combater os erros doutrinais que são comuns ao individualismo da economia política clássica e ao estatismo económico. Os extremos tocam-se, observa Proudhon. O individualismo e o estatismo acabam por chegar aos mesmos resultados e partem das mesmas premissas. O estatismo hegeliano e estatismo comunista (Proudhon refere-se, aos partidários "da comunidade dos bens" do seu tempo) dissolvem a sociedade no Estado, fazendo desaparecer a diversidade «numa unidade transcendente, a pluralidade dos grupos, na centralização. Assim, acabamos por ver apenas nas comunidades sociais um indivíduo em ponto grande. Só se distinguem do individualismo porque aumentam o tamanho do indivíduo. Dado que a vontade do Estado substitui os laços sociais, o estatismo económico é apenas um super individualismo.
A mesma demonstração é válida para o individualismo. Este esquece que "fora da sociedade, o homem é uma matéria explorável, um instrumento, por vezes um móvel incómodo e inútil, mas não uma pessoa." Assim, o individualismo, "pronto a tudo sacrificar à pessoa, mata-a de facto e chega aos mesmos resultados que o estatismo", que é a condenação irrevogável de ambos. Só a dialéctica, revelando a incapacidade dos dois adversários para captar as totalidades sociais reais, consegue fazer ressaltar este facto. É também ela que torna manifesto "que a negação sistemática da propriedade foi concebida sob a influência directa do preconceito da propriedade e é a propriedade que está na base de todas a s teorias comunistas." Recordemos as fórmulas de Proudhon: "O proprietário- Estado não tem alma nem coração. É um ser fantasmagórico, inflexível, que age dentro do círculo da sua ideia como a mó esmaga o grão no seu movimento." "É o monopólio elevado à segunda potência." "Não se remedeia a raiva fazendo com que todos mordam... Também não é tornando-se propriedade do Estado que a propriedade se torna social." Lutando contra estas concepções erradas, a dialéctica revela a identidade dos termos seguintes: propriedade absoluta, poder ilimitado, ditadura. " O estatismo económico é a glorificação da polícia."
Resumindo, o método dialéctico não serve apenas para revelar a ligação entre as antinomias e, assim, a diversidade das totalidades sociais reais e a dos elementos que nelas estão integrados. Permite igualmente revelar algumas ilusões, isto é, mostrar que existem contradições que são apenas aparentes e não reais, como por exemplo a oposição entre individualismo e estatismo.
Podemos acusar as análises de Proudhon por terem um carácter demasiado rígido, demasiado abstracto. Nem sempre precisa bem em que quadros sociais concretos o problema da estatização da economia se coloca, problema esse que pode ter sentidos diferentes, e em certos casos, representar apenas uma etapa, Por outro lado, as análises de Proudhon carecem por vezes da dimensão histórica. Por exemplo, o capitalismo de Estado, a tecnocracia e o comunismo não são diferenciados, o que provocou a observação irritada de Marx em que este diz que "Proudhon só vê, nas relações sociais reais, princípios, categorias." No que respeita a discussão das diferentes doutrinas contida em Contradictions Économiques, esta crítica só é exacta parcialmente, mas é totalmente injusta no que refere ao conjunto do pensamento de Proudhon. Este concebe a dialéctica não só como movimento real da sociedade mas como método. E melhor, como já sabemos, não seduz a dialéctica às antinomias, mas entrevê igualmente as complementaridades, as implicações mútuas e as reciprocidades de perspectivas.
A nossa interpretação confirma-se em De la Justice... (1858) e em Guerre et Paix (1861). A primeira destas duas obras pode levar a temer que Proudhon tenha abandonado a dialéctica em favor de um racionalismo da Justiça. Temor perfeitamente injustificado; aliás, é precisamente nesta obra que como já vimos a dialéctica de Proudhon se orienta não só no sentido de um realismo e de um empirismo mais aprofundados, assim como na via da superação da redução da dialéctica às antinomias. Muito antes de Marx, Proudhon relaciona a dialéctica com a prática social e liga-a ao pragmatismo, não como doutrina, mas enquanto manifestação da vida social quotidiana. É a prática do trabalho e a prática revolucionária que afinal se revelam como sendo o centro do movimento dialéctico real, e suscitam a interpretação da dialéctica enquanto método que conduz a experiências sempre renovadas. A dialéctica proudhoniana prova que, na realidade social, a liberdade e o determinismo social se interpenetram, se completam, se implicam e se polarizam se diversas maneiras. As mais concretas manifestações da liberdade colectiva como da liberdade individual são as revoltas e revoluções, que podem triunfar ou fracassar. mas que em qualquer das hipóteses, não têm nada a ver com o progresso automático e não oferecem a mínima segurança contra possibilidades de decadência e de degenerescência. O movimento dialéctico entre a liberdade e o determinismo na realidade social, revela que esta não pode existir sem as acções, os esforços, as lutas incessantes que continuamente rompem os equilíbrios.
Seja como for, Marx faz mal em ver em Proudhon "um cavaleiro do livre arbítrio" abstracto, quando afinal Proudhon procura precisamente estudar o funcionamento da liberdade humana na realidade social. O que é verdade é que a sua dialéctica o conduz a destacar as limitações do determinismo sociológico com muito mais ênfase.
O outro aspecto da realidade social compreende, portanto, as ideias e os valores colectivos, logo os ideais fundados na afectividade; unidos à ideia de justiça, estas ideias ajudam a reforçar a energia revolucionária; sem a primeira, são unicamente "fermentos da decadência".
Deste ponto de vista, a dialéctica de Proudhon é mais realista que a de Marx, pois na sua procura dos equilíbrios variados entre as antinomias, mesmo na sociedade futura, pressupõe sempre uma instabilidade desta, isto é, novos problemas a resolver, problemas aliás imprevisíveis.
É também em De La Justice... que Proudhon mais claramente expõe a complexidade do movimento dialéctico real em que forças colectivas, acção, trabalho, direito, regulamentações sociais, justiça, ideias e ideais, razão colectiva se encontram num processo de interpenetrações variadas, que passam pela complementaridade, pela implicação mútua, pela polarização em antinomias e pela reciprocidade de perspectivas; um estudo desta ordem exige a aplicação dos processos correspondentes do método dialéctico. Se acrescentarmos que a tese pragmatista de Proudhon, segundo a qual a ideia nasce da acção e deve voltar à acção, à falta do que degenera, está concebida de uma forma dialéctica, damo-nos conta da riqueza de perspectivas que Proudhon abriu embora nem sempre as tenha prosseguido, ou sequer tido consciência de todas as consequências que daí poderiam advir.
A orientação da dialéctica proudhoniana para o realismo e para a experiência recebe uma confirmação em La Guerre et la Paix (1861). Segundo Proudhon, a guerra não seria mais que o termo genérico que designa tudo o que é luta, acção, virilidade, sem o que a vida social é impossível, como são impossíveis em particular a revolução e o trabalho. Nas diferentes formas de regime capitalista, a guerra (ou luta de classes) é simultaneamente externa e interna. No regime de "democracia industrial" ela adquire o carácter de tensões e de equilíbrios entre o Estado e a democracia industrial planificando a economia de uma forma descentralizada. O mesmo acontece entre as empresas e as profissões que mesmo no regime do colectivismo descentralizado se encontram em competição de produtividade. A guerra muda de carácter, mas não desaparece.
Porém, embora mantendo estas posições em Le Principe Fédératif (1863) e na obra póstuma Théorie de la Propriété (1866) Proudhon não resiste à tentação de utilizar a sua dialéctica para chegar a equilíbrios racionais, mais estabilizados, correspondentes ao seu ideal social. Insiste mais uma vez, é verdade, sobre o facto de que o mundo social e o mundo moral... repousam numa pluralidade de elementos irredutíveis..." Melhor ainda, sublinha a contestação de que o método dialéctico, na variedade dos seus processos, é chamando a seguir as sinuosidades das tensões entre os grupos, as profissões, as comunas livres e sobretudo entre o Estado e a sociedade económica, mesmo quando esta toma o carácter de uma democracia industrial e do colectivismo descentralizado depois da revolução social. O "choque de poderes de que se pode abusar" permanece portanto válido para um Estado transformado e para uma propriedade federativa atribuída a uma organização económica planificada autónoma, depois da desaparição do patronato. Se quisermos evitar nova servidão, é preciso opor um conjunto ao outro. A liberdade religiosas só pode ser adquirida graças a uma pluralidade de Igrejas que vieram limitar o Estado. E, para Proudhon, o caminho a tomar para combater, na sociedade de amanhã, as tendências para o estatismo económico por um lado, para a anarquia económica por outro, é o mesmo.
Segundo Proudhon, a única solução para por definitivamente termo à servidão humana, é o federalismo, que significa igualmente a finalidade da dialéctica, não só enquanto movimento real da sociedade como enquanto método. Este federalismo político é concebido simultaneamente como federalismo político que equilibra o Estado do interior, e como federalismo económico que reforça a unidade da sociedade planificada, sendo esta fundada numa propriedade federalizada que pertence simultaneamente ao conjunto da sociedade económica, a cada região, a cada empresa, e a cada trabalhador. É assim que as antinomias em busca do seu equilíbrio acabam sempre por predominar sobre as complementaridades, as implicações mútuas e as reciprocidades de perspectivas.
A razão colectiva revela "que a sociedade, o ser moral por excelência, difere essencialmente dos seres vivos individuais em que a subordinação dos orgãos é a própria lei da existência. Eis porque à sociedade repugna qualquer ideia de hierarquia, como o dá a entender a expressão: Todos os homens são iguais em dignidade por natureza e devem tornar-se iguais do ponto de vista das sua condições e da sua dignidade."
Experimenta-se uma certa inquietação e alguma perplexidade perante esta conclusão da dialéctica proudhoniana, cujo movimento complexo se encontra ameaçado pelos equilíbrios que nem sempre evitam uma certa estabilização racionalizada no federalismo. Mas, para sermos justos para com Proudhon, é necessário reconhecer que se esta orientação dogmática da sua dialéctica dos diversos aspectos da realidade social, da propriedade, da liberdade, da liberdade e do determinismo, das revoluções, da luta de classes, todas estas dialécticas estão presentes em todas as obras de Proudhon da primeira à última - De La Capacité Politique des Classes Ouvrières. Nesta obra Proudhon apela para a energia revolucionária e para a força criadora desta classe para a construção de uma democracia industrial.
Deve-se pois louvar Proudhon por ter enriquecido a realidade social e por ter insistido no facto de esta compreender não só forças colectivas, mas igualmente regulamentações sociais procedentes destas forças que se encontram em múltiplas relações dialécticas cuja complexidade Proudhon pressente. Estes múltiplos movimentos dialécticos estão bastante afastados dos "equilíbrios" mais ou menos artificiais, e correspondem melhor aos dramas efectivos que se desenrolam na realidade social.
Falta-nos agora resumir as nossas críticas da dialéctica proudhoniana. Temos de constatar antes de mais que apesar do carácter negativo que apresenta, esta dialéctica complexa e autêntica é uma dialéctica ascendente. E é no sentido em que abre uma via que, segundo Proudhon, conduz à possibilidade de realizar um ideal social preciso: libertar o homem, os grupos e a sociedade inteira graças ao estabelecimento de um estrutura pluralista e federalista, em que a democracia política e a democracia industrial se limitem e se completem, e em que a justiça e o direito triunfem sobre o poder e sobre todas a s outras regulamentações sociais, segundo o próprio Proudhon, esta dialéctica não faz senão abrir o caminho à intervenção da liberdade humana criadora e implica o risco de lutas renhidas, de revelações que podem fracassar e degenerar. Só podemos admirar Proudhon por estas reservas realistas mas temos de constatar que apesar de todos os esforços não evita o perigo da dialéctica ascendente sem a qual a intervenção da liberdade colectiva e das revoluções lhe parece impossível. Ora, parece-nos legítimo perguntar se uma dialéctica pode ser ascendente, sem que se pressuponha, prévia e independentemente de qualquer dialéctica, uma escala de valores estável, tal como a da liberdade colectiva, que predomine sobre o determinismo. Por outras palavras, as pressuposições dogmáticas serão inevitáveis antes do recurso à dialéctica?
Do ponto de vista do método, uma dialéctica consequentemente negativa só pode ser entendida como uma permanente depuração dos conceitos, que conduza à extinção destes e a esforços sempre renovados para penetrar nas profundezas do real. Neste sentido, a dialéctica só pode conduzir a novas experiências. Quer se trate do movimento dialéctico real, ou do método dialéctico, não é por meio da dialéctica que se pode chegar a uma vida social melhor. A dialéctica só pode servir para mostrar as falhas do determinismo sociológico em particular, falas essas que oferecem à liberdade humana a ocasião de penetrar na realidade social.
A dialéctica proudhoniana é apologética. É a apologia dos equilíbrios "da oscilação" das antinomias, da integração destas em conjuntos não hierárquicos, da equivalência das forças colectivas, dos valores transpessoais e pessoais, da liberdade dos indivíduos e dos grupos, dos diferentes géneros de federalismo, da co-propriedade federalista ao mesmo tempo colectiva e individual, da democracia industrial, da democracia industrial e política. Ora, todos estas técnicas de organização (que podem ser válidas para estruturas ou conjunturas sociais) não são o resultado de uma análise dialéctica imparcial, destinada a demolir todos os dogmatismos e a relativizar todos os dados, todos os princípios e todas as técnicas. São aceites por Proudhon antes de toda a dialéctica. Muitas vezes, esta serve apenas para os expor, para os tornar explícitos e para os justificar. É assim que, apesar do esforço que faz para tornar a sua dialéctica tão complexa, relativista e diversificada como a realidade social em todas as suas sinuosidades, não evita o escolho do demasiado bem equilibrado , do demasiado bem organizado, do demasiado bem integrado pois que pré concebido. Na dialéctica proudhoniana, a luta desesperada entre o apologético e o empírico acaba com a vitória, embora precária, do apologético.
A última crítica que fazemos a Proudhon diz respeito à inflação das antinomias, nascida não só da confusão entre contraditórias e contrários, como da confusão entre antinomia e tensão. Esta inflação é tanto mais flagrante e processos dialécticos. Quando opõe, como antinómicos, a sociedade e a propriedade privada, o maquinismo e a concorrência, o Estado e a sociedade económica, as forças colectivas e a razão colectiva, a justiça e o ideal, o poder e o direito, a liberdade humana e o determinismo social, encaminha-se no sentido da polarização de elementos que podem ser complementares, mutuamente implicados ou levados à reciprocidade de perspectivas, mais do que contrários ou, e sobretudo, antinómicos.
Em determinadas fases do capitalismo, o maquinismo e a concorrência por exemplo, não são contraditórios, mas complementares. Do mesmo modo, o Estado e a sociedade económica tanto podem polarizar-se como completar-se, implicar-se mutuamente como entrar em reciprocidade de perspectivas. As forças colectivas e as consciência colectiva só são contraditórias enquanto o trabalho não começar a desalienar-se. Os restantes aspectos da realidade social tendem de preferência para relações de implicação mútua, de ambiguidade, de complementaridade ou de reciprocidade de perspectivas. O poder e o direito são muito mais vezes contrários do que contraditórios e podem achar-se em relações de implicação mútua. O mesmo acontece, e ainda com mais evidência, com o determinismo social e com a liberdade humana, que comportam numerosos graus e em que diversos cambiantes dialécticos são possíveis. A inflação das antinomias e as polarizações representam um sério obstáculo ao triunfo das visões mais profundas de Proudhon. Este pluralista não soube levar à multiplicidade das aspectos do movimento dialéctico real e dos processos dialécticos necessários para lhes seguir os meandros. Assim, a dialéctica de Proudhon acha-se por vezes estranhamente desarmada para penetrar nas profundezas da realidade social, e em particular na dimensão histórica desta. É nisto que residem os limites da dialéctica proudhoniana.
A doutrina social de Proudhon exerceu contudo grande influência na Primeira Internacional, na Comuna de 1871 e, por intermédio do sindicalismo revolucionário, no movimento sindical francês do começo do século XX. Aqui está a prova de que a sua dialéctica tem méritos incontestáveis e de que, apesar de algumas inconsequências, foi muito mais realista do que muitas vezes se pode pensar.